Carga ligeira (I): ler filosofia, ou O assassino é o narrador

Sem a Fenomenologia do Espírito (1807) de Hegel não existiria a Lógica da Filosofia (1950) de Éric Weil.

Foi aquele primeiro, como o filósofo francês deixaria claro nas partes finais de seu livro, quem tornou possível uma “lógica da filosofia”, uma apreciação das categorias fundamentais pelas quais o discurso filosófico se organiza internamente e se materializa exteriormente na consciência humana e em seus modos de vida (suas “atitudes”, no vocabulário de Weil). 

A categoria do Absoluto estende sua sombra sobre os capítulos finais da obra-prima do filósofo francês, e a partir dessas páginas a prolonga até hoje, dando-lhe sobrevida e cobrindo-nos sob seu manto hegeliano.

§

Há anos li, não recordo onde, que Hegel foi o Santo Tomás de Aquino do protestantismo, pois teria no pensamento alemão uma posição similar à de Tomás no pensamento latino.

Essa observação é interessante e, se não explica, pelo menos aponta para alguns traços de estilo de Hegel, cuja monotonia poética sugere uma escolástica já não muito natural. Seus escritos, para além de quaisquer dificuldades, têm algo de tautológicos, pelo menos daquela tautologia que acompanha as obras poéticas quando se tornam densas demais, autorreferentes demais, imagem a remeter a imagens codificadas na própria obra.

Quem, habituado a ler Hegel, nunca sentiu alguma previsibilidade em seu contínuo proceder da ideia de particularização à de generalização do Espírito e vice-versa, nos campos mais diversos, da psicologia à história? Parte-se do lugar ao qual se chega. E isso não é pequenez, mas grandeza.

Mente débil é aquela que se perde pelo caminho e não consegue retornar para casa.

§

Há filosofias inteiras que, se transpostas para a ficção, assumiriam a forma previsível da narrativa policial que é contada pelo próprio assassino.

É o caso de Hegel.

§

Em poucos filósofos modernos a origem teológica de suas preocupações é tão manifesta quanto nele.

O movimento de superação da filosofia de Kant, pelo menos como ele a entendia em sua juventude, seguiria um percurso peculiar (de rechaço, por exemplo, do que veria de resquício de legalismo veterojudaico no imperativo categórico) e ganharia alta expressão em diversos poemas de Hölderlin, sob cuja influência se encontrava à época. A poesia é, portanto, uma boa via de acesso à compreensão da virada de Hegel rumo ao concreto, a superar também o conformismo metafísico saudosista do grande poeta e amigo.

Poema célebre de Hölderlin em tradução de João Barrento (Assírio & Alvim, 2021).

Discuti esse e outros temas na terceira aula de Hegel e a Morada do Espírito (a primeira e a segunda aulas estão disponíveis no YouTube: 1, 2).

§

Por falar em Hegel, uma das ideias mais promissoras dos seus Cursos de Estética é a de

Assine para continuar lendo

Torne-se um assinante pagante para ter acesso ao restante do post e outros conteúdos exclusivos.