Hegel e a prioridade da existência; e uma meditação sobre a filosofia moderna em geral

Em The Modern Philosophical Revolution: The Luminosity of Existence (Cambridge University Press, 2008), David Walsh empreende uma revisão da filosofia iniciada com a “crítica do conhecimento“ de Kant e de certa maneira encerrada – ou radicalizada, se preferirem – pela filosofia de Jacques Derrida.

Da mesma forma como muito se falou e se fala de um Deus oculto da modernidade, muito buscado, ainda que inadvertidamente, por aqueles que professam a inexistência de Deus e o substituem por uma ideologia qualquer, também se poderia falar de uma luminosidade tênue que insiste em luzir sob camadas e camadas de obscuridade filosófica. A filosofia moderna pode até se mover entre sombras, pensa Walsh, mas ela anseia por aquela luz. Nessa ânsia, o filósofo atira-se à existência.

Essa palavra não deve ser tomada de forma banal. Não é coisa de um epígono qualquer da assim chamada escola “existencialista”, a qual, sob muitos aspectos, tendia na verdade a afastar-se da existência enquanto vivência, preferindo-a sob a forma de tratado filosófico. A existência de que fala Walsh seria o limiar final da experiência humana, aquele momento em que a verdade se impõe ao filósofo, ao qual caberá assim driblar as armadilhas do pensamento que opõem sujeito e objeto, filósofo e mundo, verdade a conhecimento da verdade.

O primeiro grande herói desse projeto, para Walsh, é Hegel: “O papel irônico de Hegel no movimento da filosofia moderna consiste no desenvolvimento dos instrumentos pelos quais os próprios passos em falso dele podem ser corrigidos”, afirma à p. 76, parte de um capítulo dedicado à “Inauguração da linguagem da existência” pelo autor de Fenomenologia do Espírito

O Hegel que Walsh nos apresenta não é o típico idealista justificador do Estado moderno e que em tudo vê a inexorabilidade abstrata do destino histórico. Ao contrário, somos apresentados a um Hegel “concretista”, apegado à carnalidade da existência, e que só é idealista quando falha em seu desígnio fundamental de compreender, por exemplo, que a visão importa mais do que o visto, porque o visto é transitório, ao passo que a visão perdura: o processo, e não este ou aquele aspecto limitado do processo, é que está no centro da experiência humana.

Os primeiros ensaios teológicos do jovem Hegel e o seu pensamento maduro, ocupado da sistematização das artes, da história geral e da história da filosofia, convergem: numa ponta como na outra, dá-se um giro decisivo rumo à existência, objeto terminal oculto de toda a filosofia, que, se não atende a essa sua inclinação, torna-se mero abstratismo.

As leituras que Walsh faz de Schelling e Kierkegaard os coloca estranhamente numa linha ancestral direta de um pensador pouco mencionado em conjunto com aqueles dois: Heidegger, com seu reconhecimento de que o ser é prévio ao saber, do mesmo modo como a vida é prévia à filosofia.

Após o tratamento das filosofias de Levinas e Derrida, o epílogo do livro não poderia ter título mais adequado: “Modernidade como Responsabilidade”. A modernidade nos é inata, e de nada adianta chorarmos por ela. Caberia, na verdade, até celebrá-la. Lemos à p. 461:

Um estudo que pretendeu meditar sobre a prioridade da existência sobre toda reflexão não pode ter uma conclusão. Não podemos abandonar a ideia central de toda esta empresa só porque chegamos ao fim do relato. Recair em padrões convencionais sugeriria termos encontrado uma resposta, ao passo que a todo momento enfatizamos ser a descoberta singular da filosofia moderna justamente a incapacidade de concluir. Seu sem fim foi a garantia da sua vitalidade. Ou, antes, a perseguição de um fim que jamais se poderia alcançar foi o que assegurou a sua proliferação. Sempre se incorreu no engano de que estaríamos prestes a conquistar o objetivo de nossa busca. Foi uma confusão de diapasão milenar, pois se assentou numa incompreensão da própria possibilidade da filosofia, da ciência e da civilização. Realizar o objetivo seria coisa fatal à própria realização. Agora nos encontramos numa posição melhor para compreender por que as coisas devem ser assim, pois não existe nenhum objetivo externo ao movimento que arrasta toda a nossa existência. Não podemos possuir aquilo que já nos possui tão inteiramente a ponto de solapar a possibilidade de ser possuído por nós. Mas isso também significa que jamais podemos perder aquilo que buscamos. A ansiedade ocasionada pela perda da existência, pelo fracasso da própria busca filosófica, não deve mais nos distrair rumo a uma conquista ilusória da certeza. Já não há mais o fardo de delinear uma conclusão inabalável. A vida foi posta livre para a abertura que ela deve sempre com direito reclamar para si.

O livro de Walsh é um desafio às visões celebratórias comuns da filosofia moderna. É também um desafio às críticas comuns à filosofia moderna.


O chamado de Hegel à vida concreta

Na primeira aula do curso Hegel e a Morada do Espírito: uma leitura da Fenomenologia em 10 aulas, aberta a todos, ofereci uma visão geral de Hegel como um filósofo afeito à materialidade da experiência, e a tal ponto que mesmo a crítica costumeiramente feita a ele — a de querer “fazer o mundo caber em um sistema” — é, na base, de natureza hegeliana.


Filosofia moderna, coisa nossa. Breve meditação

Pensem nos sofistas da Grécia antiga. O mundo seguia num rumo incontroverso de bonança retórica. A nobreza era educada e estava preparada para discursar em qualquer foro, os sacerdotes seguiam fazendo sacrifícios, os escravos e os militares acatavam ao que lhes era mandado e ocasionalmente se rebelavam, mas tudo bem.

Surge, contudo, uma gente esquisita, antitradicionalista. Surgem Sócrates, Platão e Aristóteles, que não se sentiam bem naquela cultura dominada por Górgias e Protágoras.

Pois bem.

Penso às vezes que, de forma imodesta e verdadeiramente megalomaníaca, muitos de nós nos sentimos novos Sócrates a olhar para os supostos sofistas de anteontem, um Kant e um Hegel. Eu mesmo, há coisa de uns 15 anos atrás, me sentia assim.

Ao olhar para trás, ocorre-me aconselhar os menos habituados à filosofia dos últimos séculos algo um pouco óbvio, mas não dispensável: antes de formarmos qualquer opinião, ainda mais uma opinião em bloco, sobre a filosofia moderna (se é que isso é possível, assim a tomando como uma coisa só), é necessário deixar claro que o filósofo antimoderno não é, hoje, um representante da tradição. Hoje, os verdadeiros tradicionalistas são os idealistas e os fenomenólogos, os marxistas e os analíticos. Um Eric Voegelin é, frente a eles, mais que moderno, é quase modernista.

Invocar o fato de que muitas vezes se resgatam ideias prévias à modernidade para contrapor-se a ela não quer dizer que sejamos mais “antigos”, mais “medievais”, “menos modernos”. Somos radicalmente modernos ao fazermos críticas tradicionalistas. O guardião do bom senso moderno será um Descartes. Ele é status quo, você é um rebelde. Ele está mais ancorado na tradição do que você.

Isto sugere que a primeira coisa a fazer com a filosofia moderna é compreendê-la como coisa nossa, como uma possibilidade do espírito humano de que não deveríamos abdicar facilmente. Ela é um estágio da sucessão apostólica laica em que consiste a filosofia e na qual assumimos posição de acusadores. Pois os católicos, hoje, fazem o papel do diabo. Nós somos o gênio mau de Descartes. É uma posição ironicamente confortável, pois nos permite uma liberdade de trânsito pelas ideias mais disparatadas sem que, por um senso frágil de fidelidade, tenhamos de nos ligar definitivamente a esta ou àquela doutrina.

Felizmente, percebo que começa a surgir aqui e ali, em diversos pontos do espectro político, uma maturidade mínima em matéria de crítica da história das ideias. Muita gente cansou de falar mal de coisas pelas quais no fim das contas não têm interesse algum. Eu mesmo, lá por volta de 2014, sucumbi ao peso da percepção de que eu na verdade sabia muito pouco sobre ciência moderna, lógica e matemática, as quais eu era capaz de criticar longamente enquanto esvaziava uma grade de cerveja. Minhas leituras de alguns filósofos modernos seminais, como Kant e Hegel, era na melhor das hipóteses descuidada.

Não que em algum momento eu tenha sido “tomista”, “tradicionalista” ou qualquer coisa assim. Mas por preconceitos longamente nutridos demorei, por exemplo, a ler o Novum Organum de Bacon sem pressupor de saída que, veja só, “aí está a raiz da concepção moderna de ciência como controle da natureza e não como conhecimento do cosmos, do homem e das realidades superiores; a desgraça começou aqui, galera não sabe que o mundo acabou no século XVII”. Se você ainda é jovem, não cometa o mesmo erro.


O universal concreto

No que é uma das passagens mais bonitas de sua obra, a meditação de Hegel sobre a contemplação de ruínas históricas ilustra a sua compreensão da prioridade do existencial sobre o abstrato. É um dos temas de que trato na segunda aula de Hegel e a Morada do Espírito, com especial atenção ao que um estudioso contemporâneo chamou de “paradigma artefatual” de Hegel.

A terceira aula, “Bases para o estudo de Kant e do jovem Hegel” (dia 27, às 20h), já será de acesso restrito aos inscritos no curso. Portanto, inscreva-se.

Você também tem a oportunidade de ter acesso às 24 aulas da Iniciação à Filosofia com Éric Weil em conjunto com o curso sobre Hegel mediante um pagamento único e promocional (clique aqui).


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