O romance do Norte do Brasil precisa ser redescoberto. Talvez só Josué Montello ainda tenha maior fama fora do seu estado natal, mas sua literatura, ainda que universalmente humana, é pouco “nortista”, é muito própria da vida de mar aberto de São Luís e Alcântara, com mentalidade litorânea. Norte mesmo, no sentido amazônico até miudamente metafísico, é o que se encontra em Dalcídio Jurandir, o Montello do Pará, com seu Ciclo do Norte e seus pontos altos em Chove nos campos de Cachoeira e Marajó. Que prosa a dele. Difícil encontrar outro autor que registre de forma tão viva e rica a fala do brasileiro.
Mais sertanejo já será o Assis Brasil da Tetralogia Piauiense (não confundir, portanto, com o Assis gaúcho), que de todo modo ainda tem algo daquele Brasil amazônico. Aleatoriamente também me ocorre citar, sem considerar títulos menores, Galvez, Imperador do Acre, de Márcio Souza, saga pícara boa.
§
Sonhei que Antonio Telmo era, sim, um Encoberto, como ele gostava de dizer, mas não por ser marrano, não por ser maçom. Na verdade ele era um brasileiro disfarçado de português. Era o Encoberto da filosofia escrita na língua de Vieira.
§
Das muitas ironias discretas da série Pluribus, talvez a menos óbvia, porém mais surpreendente, é que seja justamente um paraguaio, um homem que ainda acredita em anjos e demônios e age segundo uma ingenuidade prática e rigorosamente ética (mesmo quando agressiva), que irá empreender uma viagem de milhares de quilômetros do seu país até os Estados Unidos, ora a pé ora de carro, para salvar a humanidade da última grande utopia, a qual nos é mostrada como coisa que literalmente não é deste mundo e nos infecta como um vírus. A narrativa não pesa a mão nesse sentido alegórico; detém-se em episódios específicos e os desenvolve até os limites do absurdo, procedimento já conhecido do criador da série. De modo que o arco narrativo maior, com sua ironia mitigada, está lá, sim, mas não cobra atenção.
§
Sempre que uma cultura começa a ruir, é de suas franjas, de seus territórios limítrofes e desprestigiados, que nascem as possibilidades de uma nova civilização, em parte porque quem está à margem é menos “contemporâneo”, sofre menos do esquecimento de suas origens do que quem está no centro, na metrópole, a viver segundo o espírito da época.
§
“Hegel dirá que ‘o erro é apenas um momento da verdade’, pois, se o próprio movimento para alcançar a verdade é um movimento interno a ela, os erros no caminho serão momentos seus. Afinal, é pelo ‘trabalho do negativo’ que chego à verdade. Cada coisa irá se revelar verdadeira na medida em que vou lapidando-a, até mesmo a dilapidando, alterando-a, ou assistindo a ela desdobrar-se até que se revele em sua verdade para mim, pois em mim aquela coisa aparecerá como ‘sujeito’, em mim ela ascenderá à condição de ‘sujeito’. Descobrirei em mim o processo interior da sua verdade, e os percalços desse processo também contam.
Essa ideia é fundamental, jamais a esqueçam. Se vocês esquecerem tudo da Fenomenologia do Espírito, tratem pelo menos de não esquecer isto: que a fenomenologia nos familiariza com a percepção — ou a aprofunda em nós — de que a filosofia é um movimento, de que a filosofia não é uma apreensão de meras ideias prontas; é a percepção de que a gente deve mergulhar na vida do ‘conceito’, ou do contrário tudo será coisa morta e em nada o Espírito habitará.
Em Hegel, a filosofia se existencializa profundamente.”
(Trecho de “O projeto da Fenomenologia do Espírito”, aula 4 de um curso em andamento sobre Hegel, no qual você ainda pode se inscrever.)
§

Não é meme, não é IA, a Hegel Beer realmente existe. Justa homenagem a um filósofo strong lager.
Mas Hegel era conhecido por apreciar especialmente vinhos, não cerveja, e é conhecida sua afirmação no parágrafo 109 da Fenomenologia:
pode-se dizer aos que asseveram tal verdade e certeza da realidade dos objetos sensíveis que devem ser reenviados à ESCOLA PRIMÁRIA DA SABEDORIA, isto é, aos mistérios de Eleusis, de Ceres e de Baco, e aprender primeiro o segredo de comer o pão e de beber o vinho (trad. Paulo Meneses, caixa alta por minha conta).
Há quem prefira as uvas de Baco, há quem prefira a cevada de Ceres. Mas é tudo da mesma escola de epistemologia.
§
Chamei de “pensamento alegórico” um dos temas mais importantes a que me dediquei nos últimos anos. Ele nos permite perceber a continuidade entre as últimas etapas do pensamento helenista e o início da modernidade, sem cair nas facilidades das narrativas de ruptura que abundam na literatura histórica e filosófica sobre os últimos séculos.
Nascido de um excesso — e não de uma carência — de simbolismo, o pensamento alegórico está na base dos mais diversos modos de afastamento da experiência direta da realidade e da despersonalização dessa experiência.
Ele se manifestará seja através de esoterismos pelos quais a substancialidade das coisas se dissolve em supostos sentidos secretos e mais elevados, seja através de ideologias que restringem nossa cognição por meio de analogias cada vez mais limitativas (tudo remeterá ao “capital”, p. ex., ou ao “marxismo cultural”), seja através da experiência de avatar que caracteriza grande parte de nossa vivência online e offline no século XXI.
O pensamento alegórico sempre dependerá da tradução de uma determinada rede de significados para outra rede cujos nexos de analogia com a primeira são arbitrários.
§
One of the most annoying things in the bitcoin community is the idolatry of “liberty”. This alone won’t lead us very far. Is it that difficult to perceive that the whole worldview that anchors the fiat system was articulated centuries ago precisely in the name of “liberty”? Bitcoin needs a high moral purpose, not just one more juvenile and impractical fantasy.
§
I have a hard time understanding bitcoin supporters who want it to be universally illegal. It strikes me as an childish desire. I don’t believe these people are truly interested in the betterment of society; they seem to just want to be different.
§
In Brazil, we call this book “Botar o Pânico”, “Tocar o Terror”, or “Menino Chora e Mãe Não Vê” because as people born in the Tropics our dialectical minds are almost genetically equipped to cope with it.

§
Newsletter platforms and social media blogging will pass; good old simple blogs will endure.
§
E-mail é o futuro da internet.
§
Amazed to know that Rabelais’ hilarious character Panurge was modeled after Pico della Mirandola, who spent some time in Paris before setting out to defend (which would never happen) his 900 Theses.
§

Era para ser um romance muito bom, mas infelizmente é só decente, e olhe lá. O autor tem uma pegada razoavelmente boa da forma do romance (embora com as limitações de uma narrativa em primeira pessoa sem grandes novidades em matéria de artifício), mantém um uso algo frouxo do idioma, mas com alguma sobriedade, porém põe tudo a perder com o excesso de tiradas pretensamente engraçadas do narrador, e ainda com o vício de a todo momento criticar (segundo sua imaginação) o Brasil. O resultado é uma voz faladora demais com chistes ruins (há uns poucos bons) e um excesso de comentário; é até possível abstrair o enredo e imaginar o livro como um longo tweet com o título “Bostil”. De resto, a narrativa anda na corda bamba entre a baixeza que lhe é necessária, por questão de verossimilhança realista, e a vulgaridade da piada de tiozão.
§
The area of investigation that centuries ago was known as ‘Natural Philosophy’ concerned with various aspects of reality and human action that for a while seemed just ‘esotericism’, but now are recognized under the umbrella-term ‘Sciences and Technology’ (not all of Natural Philosophy was just that, of course). I have an impression that today we’re facing the opposite process: much of what now seems just cute-edge bare materialist science (e.g. AI, quantum, DNA editing) will be regarded in the future as hardcore occult applied science.
§
Deve haver um círculo do inferno no qual os condenados passam a eternidade revisando um mesmo texto compulsivamente.
Ó São Jerônimo, ajudai-nos a escapar desse destino.
§
Estava um dia lendo mais ou menos distraído umas páginas do Padre Vieira, quase a desprender-me inteiramente do assunto, quando de repente fui puxado de volta ao texto pelo comentário de que as sibilas, aquelas sacerdotisas semi-infernais gregas, eram sim dotadas do poder de profetizar, conforme é amplamente reconhecido pelos primeiros padres da Igreja.
Será que ainda há alguma profecia das sibilas a se realizar? Será que alguém está fadado a sacrificar um bode a Dioniso para dar um fim à Nova República?
§
Napoleão Bonaparte tinha uma espécie de anjo da guarda que o aconselhava e protegia. De vez em quando ele assumia a forma de uma esfera brilhante, às vezes se fazia presente como um anão de roupinha vermelha.
É o que o próprio Napoleão conta.
§
Talvez interesse a alguém saber que nem tudo de Paulo Leminski é besteira. Há cerca de dois anos o reli e o juízo é este: há coisa boa nas biografias (Vida), em parte do Catatau, na Metaformose (é assim mesmo, não “metamorfose”) e em alguns ensaios (o posfácio a Mishima é digno). A prosa era bem menos tola que a poesia.
Um documento único da matemática brasileira (e da história de Bourbaki)
Texto que originalmente escrevi como uma avaliação do título em questão na Livraria do Diabo, e ora apresento ligeiramente ampliado.
Teoria dos Corpos Comutativos, de Jean Dieudonné, é um documento único da matemática brasileira, e na verdade não só brasileira.
Jacy Monteiro, maior difusor da álgebra abstrata nos primórdios da USP (e com laços com pesquisadores do IMPA), seria ele próprio autor de um Elementos de Álgebra (1969) que segue sendo de muito valor, principalmente pela sua exposição clara, rigorosa e em português correto (avaliem o quanto esse último quesito é hoje coisa rara entre matemáticos), sem falar nos mais de 1.000 exercícios bem dosados. É do tempo em que matemático queria escrever como matemático, não como mero expositor, coisa que o mercado acadêmico e editorial acabou impondo mesmo a pesquisadores de valor.
Mas recuem no tempo, e pensem nesse homem de talento, que seria doutor sob orientação de ninguém menos que Zariski, tomando notas de aula de um curso que Dieudonné deu na USP em 1946. Disso nasceria Teoria dos Corpos Comutativos, publicado originalmente em três partes (1946, 1947, 1958). Temos neste volume essas três partes reunidas, que cobrem um terreno vasto: não só o que se espera de cursos intermediários de teoria de grupos e de anéis, mas material pesado como teoria de Galois relativamente avançada e os teoremas de Artin-Schreier, assunto ainda muito especializado na época.
Esse, por sinal, era um traço marcante de Dieudonné, que, se não via fraturas no mundo da cultura a separar as artes das ciências (e por isso intitularia seu ensaio sobre a matemática moderna Pour l’honneur de l’esprit humaine, 1987, título-manifesto tomado a uma citação de outro matemático humanista, Poincaré), tampouco conseguia escrever livros de matemática que fossem restritos a uma área.
Este, portanto, não é apenas um livro de álgebra; é também de teoria dos números, também de geometria algébrica, também um pouco de análise. E disso será ainda melhor exemplo o seu livro mais famoso, Fundamentos de Análise Moderna (1960), que, mais que um livro de análise, é uma resposta à pergunta: o que uma pessoa precisa saber para se sentir habilitada a entender a criatividade matemática hoje e, quem sabe no futuro, até fazer matemática? Nessa verdadeira caixa de ferramentas que são os Fundamentos, vai muito de topologia, análise funcional, espaços especiais (como os de Hilbert) e teoria espectral. Tudo em honra do espírito humano, sem circunscrições arbitrárias deste ou daquele campo.

Não se enganem com as datas de publicação de Teoria dos Corpos Comutativos. Não é por serem aulas antigas que não possam servir de base ao aprendizado hoje. Na verdade, em minha prática de estudante amador de matemática, aprendi que é mais proveitoso estudar os mestres, com dificuldade pela distância do tempo, do que se contentar com exposições mais didáticas e contemporâneas. A linguagem de categorias não está presente; não encontramos diagramas ou reticulados ao longo da exposição; Dieudonné não está olhando para assuntos da moda como cohomologia de corpos. O curso dele precedeu tudo isso. Mas ele nos ensina a reconstruir a álgebra por dentro, como quem tivesse acabado de a descobrir — e é isso que interessa.
Estamos aí, vejam bem, nas origens do jeito Bourbaki de fazer matemática. Não é surreal pensar que também aí encontramos as origens de certa matemática brasileira? Cerca de 25 anos depois, Dieudonné seria o principal redator dos seminários de geometria algébrica de Grothendieck. E este, dois anos após o curso que Dieudonné deu na USP, também passaria pela universidade paulista. Era de ouro.
O livro poderia ter sido melhor revisado. Sob esse aspecto, a editora LF é péssima. Mas os deslizes não chegam a comprometer a beleza da exposição.
Deixe um comentário