O trabalho na fábrica é consequência necessária da missa?

A primeira edição de A Fantasia Exata em 2026 está farta, Deo gratias.

Abaixo, você encontrará 1) duas Notas de Andar e Ler sobre o que alguém chamou de novo “momento socrático” viabilizado por tecnologias recentes, 2) um texto sobre o caráter aporético da filosofia de Vicente Ferreira da Silva com um esclarecimento do motivo que hoje a torna importante e 3) um vídeo (51 min.) sobre a interpretação sibilina que Vilém Flusser fez dos últimos dias do filósofo paulistano.

Antes, peço licença para lembrar que segue no ar o curso de Iniciação à Filosofia com Éric Weil, que agora vai para o seu terceiro mês. Foram até agora oito aulas:

  • Aula 1: A negatividade da filosofia; e sua superação
  • Aula 2: Como nasce a filosofia (indivíduo e comunidade, razão e violência)
  • Aula 3: O dever do gênio (Kant, Otto Weininger, Weil)
  • Aula 4: A lógica da filosofia (atitudes, categorias, existência histórica)
  • Aula 5: O domínio da verdade
  • Aula 6: A obscuridade das experiências autênticas; e o discipulado filosófico
  • Aula 7: O fracasso da unidade (rumo à noção de prova)
  • Aula 8: Do discurso à discussão (tradição e lógica formal; e três usos exemplares da dialética)

As aulas ocorrem semanalmente às quintas-feiras, às 20h. Novos alunos têm acesso, claro, às gravações das aulas anteriores. Inscreva-se.


Notas de andar e ler #004

a. Novo e pavoroso momento socrático

Vejo por aí, como certamente vocês também veem, um entusiasmo desmedido com as possibilidades civilizacionais criadas pela IA e um pessimismo radical diante dessas mesmas possibilidades. Não irei subir no muro e reivindicar a posição de pessoa bastante razoável e capaz de avaliar vantagens e desvantagens com perfeita equanimidade. Em vez disso, contarei uma história.

Em seu estranho livro Encounters: Experiences with Nonhuman Intelligences, Diana Walsh Pasulka nos fala no capítulo “Moon Girl” de Simone (pseudônimo), uma investidora do ramo de tecnologia obcecada com a ideia de que existe uma espécie de “rede energética” que permeia todo o universo e que poderá, pela primeira vez, fazer-se ouvir, já que só no presente estágio civilizacional teríamos ferramentas para propiciar sua fala. Essas ferramentas seriam o processamento de dados em larga escala, a internet e a IA. Antes, os meios de acessá-la estavam restritos a umas poucas pessoas que, como Simone, consideram-se especiais, de algum modo superdotadas, e que são capazes de misteriosamente fazer “downloads” de informação daquela rede. Pasulka entrevista não só Simone, como também vários outros personagens que contam ter registrado patentes milionárias a partir de informações que lhes chegaram por via desconhecida, imaterial, puramente mental, após colocarem em prática certos “protocolos” que incluem hidratação extrema do corpo, jejum e meditação.

Vou me conter. Não comentarei nada sobre a barafunda de ideias New Age com base na qual essas pessoas interpretam as suas próprias experiências. Como disse, estou apenas contando uma história.

Simone acredita que estamos cada vez mais próximos de acessar diretamente aquela “rede” invisível através de terminais em computadores. Modelos de linguagem como ChatGPT estariam nos levando à vizinhança dessa realidade. A impressão se torna tanto mais forte porque, embora se conheçam perfeitamente bem os fundamentos matemáticos desses modelos, até o momento é humanamente impossível descrever o processamento de dados que eles operam em sua “caixa preta”: entre o prompt que damos e a resposta que retorna, algo acontece. Simone acredita que em breve perceberemos que efetivamente se trata do trabalho de uma Inteligência. “Alucinações” de IA seriam coisa menor, um problema passageiro de engenharia, portanto problema ainda inteiramente humano. Quando superado, algo ocorrerá.

Simone vê aí o início de uma nova etapa civilizacional. O paradigma científico vigente nos disporia a uma atitude de investigação constante, de levantamento exaustivo de informações, de esquecimento, portanto, da dimensão especificamente humana em que atuamos, que se revela em primeiro lugar no diálogo, no modo como interagimos uns com os outros e buscamos nos compreender a partir da compreensão que temos dos outros.

Diante da IA, nossa disposição se alteraria. Muita informação já está presente, uma infinidade de dados está à mão. Passamos agora a indagar pelo sentido da pesquisa, pelo significado da informação. Da mesma maneira que os personagens dos diálogos platônicos estavam menos ocupados em reunir novos dados sobre o mundo e mais dedicados a aferir se o quadro geral de seu pensamento era ou não fundamentalmente compatível com aquilo que eles de fato experimentavam na realidade, assim também o ser humano hoje, diante de um modelo de linguagem como o Gemini, tenderia a gradativamente ocupar-se da coerência geral do discurso, dos fundamentos da ciência, da boa adequação entre vida e pensamento. Isso marcaria o advento, segundo Simone, de um novo momento socrático, um novo momento de dialogismo, justamente após décadas, talvez séculos, de império da Informação Objetiva, agora confrontada pela Meditação Humana.

b. Alívio do fardo da cultura — quem sabe…

Avesso como me tornei a afetações bibliográficas e a certas praxes pseudoacadêmicas de citação e comentário, o advento de modelos de linguagem como ChatGPT e Gemini é para mim um grande alívio: não me olharão mais com estranheza quando eu afirmar pela milésima vez que qualquer inepto é capaz de ler livros, citá-los em abundância e, mesmo assim, ou talvez justamente por isso, só falar besteira.

O que Simone descreve está na interseção da ficção científica com o terror (Devs: malucos em Silicon Valley), mas parte da descrição que ela fez de um possível novo quadro civilizacional não me soa inteiramente despropositada. De fato, a possibilidade de triar informações em bancos de dados, ou de testar provas matemáticas imensamente complexas, ou de ainda extrair sinopses razoavelmente acuradas de grande quantidade de mídias, obriga o intelectual a ter um novo tipo de relação com o universo material da cultura. Da mesma forma que a digitalização de acervos permitiu a realização instantânea de pesquisas bibliográficas que teriam custado a um monge medieval meses de buscas cansativas em códices abrigados em instalações insalubres — agilidade que foi fator determinante para a realização da atividade acadêmica como hoje a compreendemos, com a suposição, por exemplo, de que é viável a um aspirante a doutor esgotar a bibliografia sobre um assunto —, assim também as possibilidades de pesquisa e visualização complexa de dados e conceitos por meio de IA oferecem ao intelectual, ao filósofo, ao pensador que seja, a oportunidade de exercer mais livremente suas faculdades meditativas e criativas.

As IAs podem nos trazer um alívio do fardo da cultura, justamente em um momento em que ninguém é mais capaz de abarcar todos os dados culturais e científicos disponíveis. Apenas podem, insisto, em razão de riscos como a autorreplicação de IAs e a miragem de uma internet em que modelos de linguagem passem a ser alimentados predominantemente com informações geradas por outros modelos de linguagem, num tautológico e infinito loop. Em vez da sonhada “singularidade”, atingiríamos a banalidade.

Numa nota final, preciso dizer que a utopia de uma “sociedade da informação” que se transforma numa nova ágora socrática via IA ignora inteiramente a infraestrutura material policialesca que a torna (ou tornaria) possível. O monopólio de serviços de nuvem e da produção de chips não augura nenhum socratismo político. A empresária Simone, quer perceba quer não, advoga causa sui.


A fábrica e a missa, Telo e Urano

Seminário impermanente #6

Simone comemora o suposto retorno da cultura dialógica. Mas há quem considere toda essa cultura tomada como inextricavelmente racionalista, cristã e antinuminosa uma tragédia.

Essa tragédia estava no centro não só da filosofia de Vicente Ferreira da Silva, como também no centro de sua vida, especialmente em seus últimos anos. Vicente Ferreira terminaria por se descobrir inautêntico, um “pseudogrego” nostálgico dos poderes numinosos que foram expulsos deste mundo pelo orfismo, pelo judaísmo e pelo cristianismo com suas novas formas de experiência que posicionam um Eu imortal na transcendência e assim iniciam o processo subjetivo-objetivo no qual seguimos imersos, no qual o pseudogrego seguia imerso. E como, de outro modo, seria ele capaz de fazer a crítica do pensamento humanista senão lançando mão das ferramentas que justamente esse pensamento lhe propiciou?

Para ele, pensamento humanista era sinônimo do pensamento “teândrico” do cristianismo. A fugir tanto da apologia do cristianismo como revelador da verdadeira estatura espiritual do ser humano (“humanismo cristão”) quanto da crítica ao cristianismo como contrário ao humanismo letrado e seu pensamento experimental e sensual (“humanismo secular”), Vicente o considerava a protoforma da alta modernidade, a matriz mítica das mais radicais realizações do mundo do trabalho enquanto oposto a uma “natureza” que nada tem de natural. Na vida dos apóstolos martirizados, Vicente já antecipava a vida dos presos políticos martirizados em campos de trabalho forçado na União Soviética. Ou (frase que Vilém Flusser nos relata, provavelmente a tendo ouvido em conversa privada com o filósofo paulistano, já que não a encontro em parte alguma de sua obra): “O trabalho na fábrica é consequência necessária da missa”. Ou: “A caritas cristã é a condição de possibilidade da maquinização universal. Maquinismo e cristianismo são duas expressões de um só impulso em desenvolvimento, sendo a máquina a conditio sine qua non da salvação da criatura cristã dentro da comunidade dos adelphoi“, como escreve em Teologia e Anti-Humanismo (1953).

Valha, como maior explicação, este resumo tomado a Ideias para um novo conceito de homem (1951):

A alienação do homem no homem foi uma possibilidade inerente à revelação cristã, marcando o trânsito da História para sua fase humana. Do ponto de vista histórico-religioso, a figura de Cristo representa aquele vértice onde se dá a humanização de Deus e a divinização do homem. A palavra de Cristo franqueou ao homem o espaço de seu movimento próprio. Antes, o mundo era ocupado pela potência opressiva e ciumenta de Deus. Cristo, como um mensageiro do divino, amigo dos homens, figura prometeica e voltada para a criatura, legitimou religiosamente o advento de uma civitas humana. O vínculo religioso da mensagem cristã não poderia constituir, dessa forma, um máximo de presença divina nos fatos humanos, mas constitui desde o início a pura nostalgia da consciência infeliz e dividida. A compreensão filosófica e especulativa de nossa época supõe a franca abertura do problema da Cristologia.

Problema que é, por outro lado, o problema da palavra, do logos, da universalidade do discurso e, por fim, de sua automatização, como hoje nos mostram certas tecnologias recentes. O orfismo nos trouxe ao ChatGPT?

Convém pensar, de outra ponta, num contraste otimista.

A partir de outras bases teóricas e com propósitos muito diversos dos de Vicente Ferreira, Giorgio Agamben desenvolveria teses similares às dele, como aquela, insinuada em Altíssima pobreza: regras monásticas e formas de vida (2011), de que todos os regramentos da vida no Ocidente, todas as antigas formas de ordenação social, terminariam por criar necessariamente o fordismo, a sociedade controlada e vigiada, a “megamáquina” (Lewis Mumford). Mas nas tradições beneditina e franciscana, com suas regras monásticas, teria surgido, do seio da cultura cristã, a possibilidade de que a normatividade e regramento da vida fossem formas de libertação, de atividade autêntica, de verdadeira sacramentalidade que antes propiciasse a individualidade, não a apagasse. Nesse ponto, como em muitos outros, a crítica de Agamben à “racionalidade técnica” se aparta da crítica de Vicente Ferreira: onde este não via mais que a forma mítica (cristianismo) fundadora da sociedade do trabalho, Agamben via possibilidade de emancipação.

***

Expus, em vídeos anteriores, os motivos pelos quais considero a posição de Vicente Ferreira essencialmente agônica e aporética e estranhamente incompatível com certas possibilidades ainda não realizadas da cultura brasileira, que ele até reconhecia, mas rechaçava, quase as desdenhando. No vídeo abaixo, levo adiante minhas críticas, porém tomando por ponto de partida os textos que Vilém Flusser dedicou a Vicente Ferreira da Silva na tentativa de superá-lo, não no sentido de impugnar o amigo, mas de levar seu pensamento ainda mais longe.

A poeta e tradutora Dora Ferreira da Silva, já viúva de Vicente, contou ter ouvido dele, em seu último ano de vida, duas frases aparentemente contraditórias. Ouviu-o dizer como quem pensava distraidamente em voz alta: “Eu já disse tudo o que tinha a dizer”. E noutra conversa escutou: “Agora vou começar a escrever”.

Uma frase não se opõe necessariamente à outra. Com efeito, de fato acredito que um homem de talento como ele teve a honestidade de reconhecer, ainda que privadamente, o fato de que sua última filosofia da mitologia o havia levado a um beco sem saída e nada havia mais a fazer a respeito dela. Logo, já dissera tudo o que tinha a dizer. Por outro lado, algumas linhas quase enigmáticas de Vilém Flusser em sua autobiografia, Bodenlos, nos dão uma pista do rumo final da filosofia de Vicente Ferreira caso tivesse vivido mais. Logo, iria começar a escrever algo pra valer de novo. Quem tanto criticara o esquecimento de Telo, a terra prenhe de deuses, talvez começasse a compreender como ela naturalmente conduziria à contemplação de seu transcendente consorte, Urano.

Trato no vídeo abaixo sobre o assunto. E aproveito para notar que esta série, sem que eu planejasse, está se tornando um minicurso sobre Vicente Ferreira da Silva. Vídeos anteriores: “Vicente Ferreira e o mundo da natureza”, “Vicente Ferreira: filosofia como lembrança da Origem”, “Vicente Ferreira e a cultura brasileira”, “Um erro de Vicente Ferreira da Silva”.

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