Peter Kingsley e os lugares escuros da sabedoria

Texto veiculado no dia 14/03 pelo Boletim Cultural do Seminário de Filosofia, aqui apresentado com edições. (Aviso: desde o fim de setembro não escrevo mais os Boletins, os quais não sei se continuarão saindo pelas mãos de outro redator.)


Peter Kingsley, um dos mais importantes filósofos vivos, já não pode ser ignorado no Brasil. A editora Vozes acaba de publicar um dos seus livros decisivos: Nos lugares escuros da sabedoria, lançado originalmente em 1999. Foi esse título que marcou seu abandono das praxes acadêmicas usuais – nas quais o britânico havia há pouco se tornado um mago de erudição, com a publicação de Filosofia antiga, mistério e magia: Empédocles e a tradição pitegórica (1997) pela editora da Universidade de Oxford – para se tornar algo um pouco mais próximo de… um mago, o que para Kingsley é posição próxima à de filósofo.

É verdade que, antes de Kingsley publicar seus livros seminais na década de 1990, já tínhamos grande compreensão das fontes órficas, por exemplo, da filosofia grega, ou das relações entre neoplatonismo e sacerdócio religioso pagão. Mas não tínhamos compreensão da extensão desse fenômeno e do quanto ele põe de ponta-cabeça especulações costumeiras acerca da origem da filosofia e do modo de vida que lhe é próprio.

Parmênides não é, segundo uma leitura absolutamente original de seu poema Da natureza, o criador da lógica como desde Aristóteles a compreendemos. Para Kingsley ele é, em primeiro lugar e literalmente, o mensageiro de uma deusa dos ínferos. É um praticante hábil da incubação, do ato de deitar-se sobre uma laje de pedra numa caverna ou templo retirado das cidades – os “lugares escuros da sabedoria” – para dormir, sonhar e ser instruído. Parmênides, em algumas inscrições milenares, é justamente retratado como um “psicopompo”, um condutor de almas pelos diversos níveis de realidade. Ele praticava périplos oníricos e preparava outros para que também praticassem. Nisso consistia seu ofício de “Ouliades”, de sacerdote do “Apolo Oulios”, o deus encarregado de curar as almas.

A deusa envia através do seu mensageiro um presente para a humanidade, uma ferramenta para liquidar aquela que seria a maior das ilusões humanas: a de que existe “diferença”, “separação”, disjunção entre quem o indivíduo é e aquilo que ele experimenta do real. É a mente humana que cria esses abismos, essas falências de percepção, pois na realidade domina o Uno, aquilo em que tudo existe e se congrega. A lógica seria a arma com que fazer guerra à ilusão de que aquilo que conhecemos não está ao nosso alcance e já em nós.

Donde o destino trágico do Ocidente, pensa Kingsley, a partir do momento em que a lógica se tornou, com níveis cada vez mais altos de abstração, justamente um meio refinado de a mente se distanciar irremediavelmente da realidade. O real, para Parmênides (tal como lido por Kingsley), está no imediato, no que nos chega a todo momento, e a dificuldade está em decididamente prestar atenção ao real. Não existe nada mais difícil que perceber de fato o que nossos sentidos registram; passamos a maior parte do tempo distraídos. Parmênides não é o pai da metafísica idealista e rígida que os manuais de filosofia em geral registram. Ele é o pai de um realismo espiritual radical que lança uma flecha no coração da dualidade.

Esse imagem não é gratuita. Ela está no centro de outro livro de Kingsley, Uma História que Irá Transpassar Você (numa tradução um pouco livre de A Story Waiting to Pierce You: Mongolia, Tibet and the Destiny of the Western World, 2010). Esse ensaio, meio pesquisa arqueológica e filológica, meio fábula mística, conta como no séc. VI a.C. um xamã asiático percorreu milhares e milhares de quilômetros a pé, a cavalo, como pôde, até alcançar o sul da Itália. Ele precisava dar um presente a um homem de importância sobre-humana, cujo nome é hoje sinônimo de misticismo, matemática e filosofia. Esse homem era Pitágoras. E em suas mãos aquele xamã anônimo entregou o presente: uma flecha. É a flecha que, segundo a memória guardada por certas tradições budistas, o sábio atira no coração da Dualidade. O sábio quer matar a Distância, a Separação. Kingsley data do encontro daqueles dois homens a deflagração do processo histórico que viríamos a chamar de civilização ocidental.

Processo que, para Kingsley, está chegando ao fim. Ele próprio já providenciou o catafalco e tem feito preparações honrosas para o velório, das quais a principal é o seu longo estudo Catafalque: Carl Jung and the End of Humanity (2018). Os sonhos apocalípticos de Kingsley, alguns deles de vivo paralelismo com sonhos igualmente apocalípticos de Jung, aí lido como um mestre espiritual e uma encarnação autoconsciente de um arquétipo que ele tanto estudou (o trickster, o provocador que instala a contradição), são sonhos que apontam para o fim de uma era e o início de outra. Kingsley não lamenta o fim do Ocidente, que toma como a forma mais completa de humanidade, pelo menos em seus primórdios gregos. Sem aderir a nenhuma visão cíclica da história à maneira de tradicionalistas (aliás, ele leu Guénon ainda na adolescência, mais tarde traduziu um livro dele, mas logo se afastou de seu pensamento por considerá-lo apenas mais uma construção hiper-teórica e pouca atenta à experiência direta do sagrado), Kingsley disse numa entrevista se filiar a uma “tradição sem nome”: a daqueles que sazonalmente surgem para fazer o papel de mensageiros entre uma cultura que morre e outra que nasce. Há quem conte a história do Ocidente como a história do esquecimento do ser, ou ainda como a história do esquecimento de Deus. Kingsley a conta como a história do esquecimento dos deuses; nasce daí sua posição ambígua em relação ao cristianismo, o qual por um lado culpa de “domesticação do sagrado”, mas no qual vê várias linhas de continuidade em relação à revelação primordial da Unidade e da materialidade da vida como coisa sagrada – o que, aliás, pode soar estranho na boca de um gnóstico.

Kingsley, esse gnóstico, parecerá a muitos ter algo de megalomaníaco. Talvez. Mas o estilo encantatório da sua escrita, combinada a um vasto conhecimento histórico e filosófico e uma ativa desconfiança para com toda forma de racionalismo, recompensará o leitor de bom gosto que valorize a sinceridade de seus relatos e a originalidade de suas interpretações de filósofos acerca dos quais se pensava já ter sido dito tudo. Aqui e ali o leitor irá erguer as sobrancelhas desconfiado, sobretudo ao ler sua autobiografia, A Book of Life (2021), título sibilino e belo. Afinal, não é fácil engolir a história de que um jovem Kingsley um dia encontrou o espírito de Empédocles na sala de sua casa, ou que a deusa que seduziu eruditos para que criassem a Universidade de Oxford lhe apareceu em todo seu esplendor numa tarde, ou que testemunhou um índio fazer cair uma chuva diluviana após uma oração de poucos segundos ao volante de uma picape.

Mas isso é Peter Kingsley: um trickster, um escritor de proa, um filósofo desafiador, um gnóstico assumido, um acadêmico ao mesmo tempo prestigiado e rejeitado, um contador de histórias improváveis. Sua obra é um problema e até mesmo uma armadilha, mas não pode ser ignorada.


A edição brasileira de Nos lugares escuros da sabedoria tem origem numa história bem ao sabor do universo de Kingsley, no qual o conhecimento é sempre iniciação e envolve risco pessoal. O tradutor, o suíço Markus Hediger, um dia recebeu o convite inesperado para traduzir os Livros Negros (1913-1932)de Carl Jung, sete volumes de anotações pessoais que permaneceram inéditos até 2020 e nos quais se fixaram imagens, sonhos, conceitos e especulações metafísicas que serviriam de base caótica para o que o autor ao longo de décadas elaboraria na linguagem clínica da psicologia das profundezas. Hediger hesitou, por não possuir treino formal em psicologia ou análise, mas por fim se atirou ao projeto. E ao longo do processo se familiarizou com a prática jungiana da “imaginação ativa” e conheceu outros autores no entorno da obra do famoso analista. Entre eles, Peter Kingsley. E assim veio sua sugestão de que se publicasse Nos lugares escuros da sabedoria no Brasil. Mas não é só. Hediger publicou há pouco O universo no peito: o encontro com a alma na imaginação ativa (Vozes, 2024), reunião de visões e escritos poéticos que dão conta da “saudade da minha própria alma” que os Livros Negros despertaram nele e dos muitos exercícios de abertura a camadas mais profundas da consciência que passou a praticar. O universo no peito é, na trajetória de Hediger, um livro-irmão de sua tradução de Nos lugares escuros da sabedoria.


O famoso estudo de Marcel Detienne, Mestres da Verdade na Grécia Antiga (Martins Fontes, 2019), é outro título basilar para quem se interessa pelas origens do pensamento grego em conexão com as práticas religiosas de então. Detienne descreve um tipo social que poderia se confundir com o poeta, o visionário profético ou o rei-filósofo, mas que correspondia a uma função espiritual sem clara continuidade na cultura ocidental posterior. A seu modo, Detinne também quer conduzir o leitor aos “lugares escuros da sabedoria”.


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Comentários

3 respostas para “Peter Kingsley e os lugares escuros da sabedoria”

  1. Parabéns pelo artigo, me interesso muito pelo assunto, ganhou mais um seguidor! Também fico muito feliz em compartilhar contigo meu último artigo: https://davipinheiro.com/voce-e-escravo-e-nem-sabe-eu-vou-te-provar-agora/

    1. Obrigado pela leitura, Davi, e perdão pela demora em responder! Passarei já à leitura do texto que me mandou.

      1. É sempre uma honra encontrar semelhantes

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