O diabo segundo São Marcos

Preâmbulo

* Em novembro, começarão as aulas do meu curso Iniciação à Filosofia com Éric Weil. Leremos toda a Lógica da Filosofia ao longo de seis meses, esse verdadeiro mapa de temas e estilos de filosofar. Informe-se e inscreva-se.

* Espere nas próximas duas edições desta newsletter textos e vídeos motivados por esse que é um dos livros mais esclarecedores sobre a técnica filosófica e cuja leitura atende tanto a leitores experientes quanto àqueles que ainda sentem ter problemas ao ler filosofia.

* A seção “d” das Notas abaixo traz um rudimento de resposta, ainda que resposta indireta, a alguns dos problemas que a obra de Peter Kingsley representou para mim num nível extremamente pessoal, comprometido e comprometedor, incontornável.

Notas de andar e ler (#002)

a. Magos muito poderosos

Quando minha filha tinha cerca de quatro anos, perguntou-me por que certos “padres diferentes”, que ela tinha visto mais cedo na missa, usavam gorros pontudos. Respondi:

— É porque padres são como feiticeiros, minha filha, feiticeiros que agem em nome de Jesus Cristo, do qual emana seu poder. Nada mais natural, portanto, que alguns padres utilizem capuzes, como magos, magos muito poderosos mesmo, para que todos testemunhem que há gente no mundo imbuída do Espírito Santo e capaz de ligar o céu e a terra através da Eucaristia.

Ela se deu por satisfeita e foi brincar.

b. A letra e o espírito

Talvez nada me faça mais falta, no catolicismo que hoje começa a reviver Brasil afora, que uma compreensão, ou uma maior busca, do elemento numinoso na liturgia, nos gestos, nas manifestações públicas de fé. Não noto com muita frequência a percepção de que coisas radicalmente estranhas estão no centro do cristianismo porque estão no centro da realidade; a percepção de que a missa é rito por ser ação espiritual direta de grandes consequências; de que a fé não é apenas um elemento interior sobre o qual se põem, como enfeites, algumas justificativas, mas a convicção profunda de que neste mundo visível e palpável o Sentido jamais pode se apartar inteiramente de suas Formas de apresentação. A crítica nietzscheana ao cristianismo, que supostamente nos faria pregar os olhos apenas noutro mundo futuro e nos acostumar a uma vida medíocre e sem heroísmo neste atual, só pode ser feita inteiramente de fora do cristianismo, radicalmente de fora, a ponto de não compreendê-lo. Na verdade, o cristianismo olha profundamente para este mundo. Disso, aliás, sabiam os críticos dos apóstolos.

Nos primeiros séculos de cristianismo, não eram incomuns os oráculos pagãos que reconheciam a divindade de Cristo, até atestavam as suas obras, a exemplo do que Porfírio registraria no livro — quase inteiramente perdido — A filosofia derivada dos oráculos. Mas esses oráculos, tomando Jesus à maneira de figuras como Apolônio de Tiana, compreendiam-no como apenas homem, extraordinário o quanto fosse, homem que fizera nada mais que divinizar-se através da busca da sabedoria e da ação direta sobre os arcanos que regem este mundo. Jesus era assim compreendido como um “herói”, segundo a religião grega primitiva, isto é, alguém que havia ascendido ao patamar dos deuses, mas que era essencialmente ser não divino. Profírio diria aquilo que judeus, mas especialmente muçulmanos (esses neoplatônicos crônicos), mais tarde não parariam de repetir: um homem não pode ser Deus; Deus não pode ser um homem.

Os pagãos tinham pelo menos a intuição correta de que o Deus cristão é, sim, um Deus de magos muito poderosos; só lhes era vedado compreender a natureza de sua magia, que pouco a pouco imporia limites à visão anárquica de correspondências analógicas entre todos e quaisquer âmbitos da realidade, controlando-as por meio de critérios de outra ordem, mais “realistas”, o que suscitaria a mentalidade científica ocidental. Não se pode tratar um ferimento de lâmina buscando a arma branca que o causou e aplicando nela determinado unguento sob determinada configuração dos astros (como ainda se faria na Idade Média); é preciso buscar causalidades mais específicas.

Mas a busca dessas causalidades mais específicas não pode obscurecer a percepção das causalidades mais gerais ou do fundamento de toda e qualquer causalidade. Esse fundamento jamais será inteiramente explicável: um sistema não pode explicar-se a si mesmo, não pode lançar mão de sua completa “imanência” para elucidar aquilo que configura a sua “transcendência”. Esse fundamento, por isso, sempre será numinoso, não por uma limitação da inteligência humana, não por uma privação de verdade revelada, mas por sua própria natureza. Do contrário, a letra (aquilo que é historicamente verificável e comunicável) seria capaz de matar o espírito (aquilo que propicia a história e sua verificabilidade, mas não é historiável, conforme venho discutindo ao tratar da obra de Vicente Ferreira da Silva aqui, aqui e aqui).

c. Procissão contra o “desencantamento do mundo”

Mas eu falava, mais acima, da falta que faz essa lembrança de quão estranho é o cristianismo e de quão radical é a relação que ele estabelece entre o ser humano (especialmente o sacerdote) e Deus. Embora sabendo que a letra não possa impor morte fatal ao espírito, fico desgostoso quando vejo um zelo tremendo pelo serviço litúrgico o mais engessado possível, com missas de rito extraordinário que parecem ainda estar sendo realizadas poucos anos após o Concílio de Trento, sem qualquer contato mais próximo com a realidade dos fiéis num esculhambado Brasil do século XXI. É claro que não quero bateria, baixo e vocal gutural na missa, mas compreendo que a resposta aos abusos que se vinha cometendo não pode, por sua vez, pesar a mão num formalismo excessivo que se esquece, por exemplo, das fontes populares da vida cristã no Brasil. Mais que populares: populares e portanto extremamente sacramentais.

Ora, em grande parte do país as procissões ainda estão presentes e possuem grande força. Nada une tão claramente a Igreja brasileira de hoje às suas raízes quanto as procissões. Aqui em São Luís, como em boa parte do nordeste, não se passa uma semana sem que haja procissão de alguma paróquia. Não estou falando daquelas caminhadas fajutas na porta da igreja, ou no pátio de um convento. Estou dizendo que em algum ponto da cidade, num ponto de grande circulação, haverá pelo menos algumas dezenas de fiéis (caso se trate de paróquia pequena) caminhando pelas ruas tendo à frente a imagem de um santo ou do próprio Cristo. A procissão oferece uma visão clara e inequívoca de nossa fé: um símbolo do Fundamento é posto ao centro e à frente do ser humano, que não fica estático diante dele, não se limita a adorá-lo, petrificando-o, mas o põe em movimento e segue em movimento com ele, assim acionando o motor da história. Cada procissão é uma imagem da história da salvação; é também uma conjugação da circularidade fundamental da inteligência, que em tudo busca o centro, com a linearidade da existência, fatalmente imersa no tempo: a procissão é um círculo que avança. E avança orando.

As ladainhas de velhas senhoras rezadeiras ainda sustentam as noites de nossas caminhadas lentas — cada um de nós à luz de sua vela — em direção ao destino, ao que deve ser. Imagine, reimagine por um instante, mesmo que você já tenha visto muitas vezes a cena: um grande número de pessoas, que caminham entoando hinos a santos de grande poder de mediação (na medida em que Cristo atua mediante eles) entre a eternidade e a temporalidade, cortando a noite com chispas de luz e se direcionando para um templo, onde um rito sacrificial será mais uma vez atualizado para que os ritmos da vida terrestre não percam o passo dos ritmos da vida celeste, conforme a liturgia cósmica descrita no Apocalipse de São João. No Brasil, mesmo a mais mirrada das procissões representa a morte de nascença, nestas terras, de qualquer teoria alemã sobre o “desencantamento do mundo”.

Mas o “católico tradicionalista” não conhece paróquia popular, só reza em latim e acha que procissão é coisa de padre de passeata. (Talvez os alemães tenham alguma razão.)

d. O diabo segundo São Marcos

Dos quatro Evangelhos canônicos, o de São Marcos é o que exibe de forma mais clara a compreensão de que Cristo é o Sacerdote dos sacerdotes e de que perante Ele as forças mais arcanas deste mundo se dobram. Com esse Evangelho posso justificar para minha filha os gorros pontudos de magos que oficiam na missa.

Pois esse Evangelho é, como se sabe, aquele no qual…

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