Quando a forma encontra o sentido

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Preâmbulo

Criei um novo site.

Gravei um vídeo mais ou menos desordenado sobre João Francisco Lisboa e sua Vida do Padre Antônio Vieira.

Tenho publicado com mais frequência no Nostr. O feed completo pode ser acessado aqui; e um espelho na web, com meus textos mais longos lá divulgados, se encontra aqui.

(Não sabe o que é Nostr? Morte ao Algoritmo.)

Está no ar o site de FLUSSER_project, iniciativa que lançarei em agosto de 2026. Agora não tem mais volta, ainda mais depois de levá-lo a uma exposição de projetos de Humanidades Digitais na Universidade de Oxford, no mês passado, quando participei da Digital Humanities at Oxford Summer School (DHOxSS 2025), mediante bolsa que me foi concedida pela Gale / Oxford. Veja o pôster que expus.

Só há poucos dias tomei conhecimento desta resenha interessante de meu livro Contra a vida intelectual, ou iniciação à cultura.


Quando a forma encontra o sentido. A fantasia exata, parte 1

Dos Cadernos de Filosofia Adiada

Uma lenda

Dos muitos contos e lendas que envolvem a Virgem Maria, para o meu gosto o mais surpreendente, em sua versão mais bem-composta, não saiu da Legenda Áurea, não o fixou o gênio do catolicismo popular. Vem de terras germânicas, em época moderna, e pela pena de um autor de moral calvinista, mas ideário positivista.

Penso no holandês Gottfried Keller, pois penso em seu conto “A Virgem e a Freira”, recolhido em Sete Lendas (Civilização Brasileira, 1961), livro traduzido e editado no Brasil pela dupla Paulo Rónai e Aurélio Buarque de Holanda (dupla que também inseriu um conto de Keller, oriundo de outro livro, num dos volumes de Mar de Histórias).

Gostaria de falar dessa lenda, desse conto, como meio de comunicar o que penso sobre o difícil equilíbrio e o feliz casamento de forma e sentido expressos no termo fantasia exata, proposto por diferentes autores com base nas anotações de Leonardo da Vinci (seu principal divulgador foi, provavelmente, Ernst Cassirer).

Keller toma uma versão que lhe desgostou desse conto medieval — mais adiante falo de um texto galego-português da mesma lenda — e a altera, deturpa, desvia e enfeita. O argumento sumário é este. Uma freira, após muitos anos no claustro, decide conhecer o mundo e suas paixões; assim foge do convento, tem relações mundanas, até filhos, mas depois decide retomar a vida de total dedicação a Deus. Eis que retorna ao convento. A porteira, a mesma de muitos anos antes, agora bem envelhecida, lhe dá passagem sem expressar maior estranhamento; a freira vai direto orar diante da imagem da Virgem, que toma vida e lhe revela: durante todo o tempo em que passara fora, ela, a própria Mãe de Deus, havia assumido sua forma física, suas vestes, seus modos, e desempenhado normalmente suas funções para que ninguém se desse conta de sua ausência. Agora competia a ela, a religiosa novamente consagrada, reassumir o posto.

Assim narrada, em sua forma mais geral, a história é de uma beleza simples e comovente. É bonita por ser bem-proporcionada: o ponto de partida, a normalidade da vida religiosa, é sucedido pela intriga, pelo rompimento daquela normalidade, a qual depois é recuperada num nível mais elevado no ponto de chegada. É simples por ter um fio narrativo bastante claro: a heroína passa, muito harmonicamente, apenas por etapas de uma mesma e compacta história que gira em torno de sua vida consagrada. E é comovente: incorpora alguns dos temas mais sensíveis do cristianismo, o sacrifício substitutivo e a redenção, à história de uma devota da Virgem.

Uma versão galego-portuguesa

Todos esses traços se assinalam com clareza já numa versão medieval que nós, falantes de português, temos a felicidade de poder ler no original, ainda que com ocasional dificuldade. Uma das Cantigas de Santa Maria (século XIII), do Rei Afonso X, o Sábio, glosa justamente a lenda da Virgem que substitui a freira, mas neste caso não assumindo no convento as suas obrigações, mas ocultamente — e para ocultar um pecado da devota — a sua função de mãe. Afinal, não é ela a Mãe?

A freira, não nomeada (embora em outras versões do período já levasse o nome de Beatriz), é das mais fervorosas. Tomo o texto que consta em Fremosos cantares, antologia organizada pela professora Lênia Márcia Mongelli:

Esta dona mais amava d’outra ren Santa Maria,

e porend’ en todo tempo sempre sas oras dizia

mui ben e conpridamente, que en elas no falia

de dizer prima e terça, sesta, vesperas e nõa.

Que ocorre? O de sempre: “Mais o demo, que sse paga pouco de virgiidade, / fez (…) que sse foi con un abade”. A monja foge com o padre para Lisboa, onde vive por um tempo e acaba por engravidar. Mas “enton o crerig’ astroso leixou-a desamparada”, ela que se viu assim “andando senpre de noite, come sse fosse ladrõa”. Decide então voltar ao convento, onde a madre a recebe bem e a despacha de imediato para as orações.

Mas o tempo passava, e em breve sua gravidez estaria à vista de todas as irmãs. Por isso muito ora à Virgem, a sua “Sennor”:

Con sennor, assin dizia, chorando mui feramente:

“Mia Sennor, eu a ti venno como moller que se sente

de grand’erro que á feito; mas, Sennor, venna-ch’a mente

se che fiz algun serviço, e guarda-me mia pessoa.

Atant é Santa Maria de toda bondade bõa…

A Senhora a atende “e a un angeo disse: ‘Tira-ll’aquel fill’agyna [logo] / do corp’ e criar-llo manda de pan, mais non de borõa [com pão, mas não com broa de milho]. (…) Foi-ss’ enton Santa Maria, e a monja ficou sãa”. Já não tinha o filho em seu ventre, a Virgem o levara para si e o pusera sob os cuidados de um anjo.

Muitos anos se passam. Estão as monjas cantando e lendo, quando “viron entrar y un moço mui fremosyo correndo / e cuidaron que fill’era d’infançon e d’infançõa [filho de nobres]”.

E pois entrou eno coro, en mui bõa voz e crara

começou: “Salve Regina”, assi como lhe mandara

a Virgen Santa Maria que o gran tempo criara,

que aos que ela ama por ll’errar non abaldõa.

“Pois aos que ama não os abandona por errarem”. A monja reconhece que o vistoso rapaz é seu filho e todos ficam sabendo do grande milagre. Os pecados cometidos pela religiosa são desse modo aproveitados para engrandecimento da fé.

Como se nota, a versão recolhida por Afonso X — que teria também acolhido uma segunda versão, à qual não tenho acesso — já traz variações bastante drásticas na substância da lenda, se tomada em sua forma mais difundida (como a tomou bem mais tardiamente, por sinal, Keller). Mas os traços essenciais se assinalam: a protagonista é uma religiosa que foge do mosteiro; ela experimenta a vida do mundo e especificamente a maternidade; ela, como o filho pródigo, retorna para a casa da Mãe; a Virgem intercede por ela para que não passe pela humilhação de ver seus pecados caírem no conhecimento de todos; por fim, a religiosa se reencontra com o filho, e nesse momento o reconhecimento (no sentido aristotélico do termo) encerra o conto, com todos descobrindo o que se passara e a vergonha do pecado sendo transfigurada pela sublimidade do milagre.

As variações na narrativa, ou sua “fantasia” própria, em nada alteram o que ela possui de “exata”, de formalmente precisa e identificável como aquele conto, aquela lenda que atravessa séculos.

A versão de Gottfried Keller. Sua inventividade

As Cantigas apresentam uma versão simplificada, uma variante curta da lenda em sua forma mais difundida. De sua parte, Gottfried Keller teria outras fontes — em especial as Lendas (1804), de Kosegarten, de caráter mais apologético que artístico — e não se contentaria meramente com reproduzi-las. Por meio de sutis acréscimos à forma tradicional da narrativa, Keller alcança sentidos imprevistos.

O narrador de “A Virgem e a Freira” começa por situar o convento no alto de um monte e por retratá-lo preenchido por uma “multidão de mulheres, lindas e não lindas, todas as quais serviam, segundo regras severas, a Deus e à sua Virgem Mãe”. Ora, “lindas e não lindas”: nessa observação ligeira, muito de passagem, já se sente a sensibilidade peculiar de Keller.

“A mais bonita das freiras chamava-se Beatriz e era a sacristã do convento”. É ela quem “contemplava com o olhar úmido o movimento da paisagem azul”, “ouvia a trompa dos caçadores na floresta e os gritos claros dos homens, e o coração se lhe enchia da saudade do mundo”. Numa noite de julho, toma a decisão de partir, mas não sem antes se dirigir à Virgem: “— Por vários anos tenho-te servido bem (…) mas agora toma conta das chaves, pois já não suporto o fogo do meu coração”. Nisso insiste a arte de Keller: nesse fogo do coração.

Beatriz não tardará a conhecer um cavaleiro, Wonnebold, que lhe ofereceu o favor de levá-la aonde quisesse. Como ela não se manifestasse, oferece estadia em seu castelo, à distância de um dia de viagem. Ela monta e eles vão:

A uma distância de duzentas ou trezentas vezes o comprimento do cavalo, a dama levantou o busto, sem desviar os olhos do horizonte, enquanto a sua mão escorava o peito dele. Daí a pouco, porém, o seu rosto repousava naquele peito e, volvido para cima, recebia os beijos que o cavaleiro lhe prodigava. Depois, ao cabo de mais trezentos passos, retribuía-os com tanto fervor como se nunca tivera ouvido o tilintar de um sino de convento. Em tais circunstâncias, nada viam da paisagem nem da luz que atravessavam, e a freira, que almejara ver o mundo lá fora, fechou os olhos diante dele e limitou a sua curiosidade a um setor que cabia nas costas de um cavalo.

“Como se nunca tivera ouvido o tilintar de um sino de convento”. E ainda: “limitou a sua curiosidade a um setor que cabia nas costas de um cavalo”. Nesses dois passos, o narrador de Keller é irônico sem ser maldoso, o que não é nada fácil.

E o castelo? “Os pais de Wonnebold tinham morrido; a criadagem dispersara-se toda, salvo um velhíssimo mordomo”. “Wonnebold abriu as arcas da mãe, e Beatriz vestiu-se com os ricos trajes da falecida, ornou-se com as joias desta, e os dois foram levando a vida alegres e felizes”.

Um dia, porém, foi “um barão estrangeiro” jantar na propriedade de Wonnebold. Começam os dois a jogar dados e a apostar após o jantar. Ganhando seguidas vezes, Wonnebold torna-se arrogante e aposta o seu bem mais precioso, Beatriz, que “empalideceu, e não sem motivo; pois o primeiro lance desfavoreceu o insolente, tornando o Barão vencedor”. Ele a leva consigo, e ela, secretamente, leva escondidos em seu vestido os dados. Ao alcançarem um bosque, ela aplica nele esta desconversa: “— Quem há de pleitear o amor de uma dama sem nada lhe oferecer em troca e sem fazê-la crer em sua coragem? (…) Dai-me a vossa espada, tomai os dados e lançai-os; assim poderemos ficar unidos como dois amantes verdadeiros!”. Ele lança os dados e tira onze; e Beatriz, “enquanto dirigia à Virgem Maria um suspiro secreto”, igualmente os lança: tira doze, vence, fazendo ver ao barão que isso assegurava a liberdade dela, para grande espanto dele.

Ela parte, mas, esperta, dá a volta e retorna para dentro do bosque por outro caminho; intuiu, com acerto, que o barão se revoltaria e mandaria seu séquito apanhá-la. Assim faz, mas os homens retornam ao bosque sem resultado, acomodando-se. É aí que ela parte de vez, retorna ao castelo de Wonnebold, encontra o amante “atormentado pelo arrependimento e pela raiva, envergonhado também ante a amada que ele tão levianamente perdera no jogo”. Ela lhe conta o sucedido, e ele, após boas gargalhadas, decide casar-se com ela. Casam-se e têm oito filhos. “Daí em diante Beatriz desempenhou o papel de uma fidalga”, com dar renovada vida ao reino do esposo, que andava descuidado de sua vida e das propriedades de sua família.

Chega o dia, porém, em que Beatriz se dá por satisfeita:

Certa noite de outono, quando o [filho] mais velho fez dezoito anos, levantou-se Beatriz da cama sem que Wonnebold o percebesse, arrumou cuidadosa todos os seus trajes profanos nas arcas de onde os tirara outrora, e, depois de fechá-las, colocou as chaves ao pé do adormecido. Descalça passou pelas camas de seus filhos e em silêncio beijou-os um por um, reaproximou-se do leito do marido, beijou-o também, e só então cortou os longos cabelos, vestiu o escuro burel de freira, que zelosamente guardara, deixou às escondidas o castelo e, através do bramir dos ventos outonais, por entre as folhas que caíam, endireitou para o mosteiro de onde fugira havia tantos anos. Seus dedos faziam rolar incansáveis as contas do rosário, enquanto ela rezava, relembrando a sua experiência.

Beatriz é recebida com normalidade no convento, o que lhe causa grande estranheza. Tudo se esclarece quando se põe a rezar diante da imagem da Virgem, a qual cobra vida e movimento: “— Ficaste fora muito tempo, minha filha. Durante estes anos todos eu mesma desempenhei as tuas funções na sacristia; mas agora me sinto satisfeita de ver-te regressar e poder devolver-te as chaves”. Maravilhada, Beatriz só pode recebê-las de volta e reassumir suas atividades.

Passam-se dez anos de normalidade e, por ocasião de uma festividade, cada uma das freiras terá de dar um presente a Nossa Senhora. Esta faz artesanato, outra compõe um hino latino; há até quem cozinhe um bom prato. Mas Beatriz nada faz e é recriminada pelas irmãs. Foi então, enquanto cantavam, que “passou pelo convento um fidalgo de cabelos brancos, seguido de oito lindos mancebos armados, montados em fogosos corcéis e seguidos, por sua vez, de outros tantos pajens. Era Wonnebold, que levava os filhos ao exército do Imperador”, e que ao ver que celebravam missa decidiu ali parar para rezar à Virgem.

Entanto Beatriz reconheceu os filhos e o marido, correu para eles com um grito, e revelou o seu segredo, contando o grande milagre que lhe acontecera.

Todas, então, tiveram de reconhecer que fora ela quem levava à Virgem o presente mais rico; e que tal presente foi aceito, mostraram-no oito coroas de frescas folhas de carvalho que de chofre apareceram nas cabeças dos mancebos, impostas pelas invisíveis mãos da Rainha do Céu.

Assim termina o conto, com estas marcas de inventividade: Beatriz vai para o mundo, mas não se torna mundana; ao contrário, torna-se arrimo de feudo, torna-se esposa e mãe. Não é, contudo, santa distraidamente; é muito astuta, como se vê no episódio de sua fuga do barão, episódio que insere um conflito dentro do conflito: o conflito mais amplo é a partida do convento, todo o período que passa com o esposo; e o conflito mais restrito é o seu quase cativeiro nas mãos de um estranho. E, de um conflito a outro, a atuação de Beatriz, Senhora em miniatura, é redentora.

Ela tudo fez piedosamente e não volta para o convento como quem busca escapar do pecado. Na verdade, e aqui está grande originalidade, na narrativa de Keller ela incide em conduta pecaminosa precisamente aí, nesse retorno que implica o abandono da família. Mesmo assim, é acolhida pela Virgem. Se o conto terminasse logo após as palavras que Maria lhe dirige — “A estátua curvou-se e entregou as chaves a Beatriz, em quem tamanho milagre incutiu jubiloso espanto. Logo depois, voltou a tratar de seu ofício, a dispor tudo como convinha” —, seria um mau conto. Por quê?

Porque o milagre da Virgem que substitui a freira teria sido uma gratuidade, a quase recompensa de um pecado. Keller percebe que, se dá a Beatriz uma vida nobre e venturosa fora do claustro, seu retorno ao claustro implicará em imoralidade, em incongruência com os valores da fé. O conto precisa então prosseguir, a fim de que aquelas alterações num entrecho da lenda ganhem o seu apropriado contrapeso, qual seja: o presente que Beatriz oferece à Virgem sob a forma de oito rapazes de fé católica. Dessa forma, a fantasia, com as liberalidades de Gottfried Keller, mostra-se mais uma vez exata.

Na próxima semana

Toda narrativa possui uma forma, que abriga concretamente o seu sentido. Por mais difícil que seja comunicar qual é exatamente esse sentido, ele sem dúvida é exato, preciso, particular.

Da mesma maneira, toda ideia possui a sua musicalidade, e não raro uma ideia primeiro nos chega como uma figura abstrata, uma imagem, um modo de falar e distribuir as palavras, antes de preencher-se de sentido, de discurso compartilhável. A fantasia vai se tornando exata, a exatidão vai reforçando o elemento fantástico. E assim somos capazes de perceber que, embora diversas, as criações tanto de Afonso X como de Zeller atingem a fatura estética necessária.

Na próxima sexta-feira, tratarei mais diretamente do conceito de fantasia exata e do que nos autoriza a dizer se uma determinada criação, seja de ordem estética seja de ordem científica, é marcada por real necessidade ou por mal disfarçada gratuidade. Isso equivale a pesquisar quais as condições nas quais a forma encontra o sentido.


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Comentários

3 respostas para “Quando a forma encontra o sentido”

  1. Avatar de Vania ferrari ramos
    Vania ferrari ramos

    O que posso dizer é que minha imaginação voou e percebeu nos mínimos detalhes toda a vida de Beatriz como se eu estivesse ao lado dela. Belo texto, obrigada.

  2. Avatar de Guilherme Q.
    Guilherme Q.

    http://www.cantigasdesantamaria.com/

    Não se pode achar aí a outra versão que Afonso X recolheu da lenda?

  3. […] * O texto abaixo dá continuidade àquele veiculado na newsletter anterior: “Quando a forma encontra o sentido”. […]

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