Da sala de estudo ao laboratório, do laboratório às terras coloniais, a trajetória de Fausto resume a história do Ocidente.
Muitas pessoas, por lerem apenas a primeira parte do Fausto de Goethe, não sabem que o destino do mago e erudito é tornar-se, no Ato 5 da Parte II, um empreendedor colonial, responsável por uma gigantesca obra de natureza hídrica.

Antes, no Ato 4, Fausto olha para o mar e se dói por não deter poder sobre ele:
E me aborrece aquilo! É-me um tormento!
O poder vão do indômito elemento!
(Fausto II, vv. 10.218-10.219, trad. Jenny Klabin Segall)
Deseja, logo, dominar o “indômito elemento”, as águas do mar:
Criei plano após plano na mente,
Por conquistar o gozo soberano
De dominar, eu, o orgulhoso oceano,
De ao lençol áqueo impor nova barreira,
E ao longe, em si, repelir-lhe a fronteira.
(Fausto II, vv. 10.227-10.233, trad. Jenny Klabin Segall)
A obra concebida por Fausto e administrada por Mefistófeles terminaria no sacrifício simbólico do casal Filemon e Baucis.
Estes anciãos são tomados ao oitavo livro das Metamorfoses, de Ovídio, no qual desempenham papel de bons zeladores das antigas tradições, em meio a uma comunidade que havia degenerado na cobiça e no desleixo para com a natureza e o próximo – especialmente para com a figura arquetípica do próximo, o peregrino que busca pouso (no mito fixado por Ovídio, os dois velhinhos acabam por dar acolhida ao próprio Zeus, que, embuçado, ali aparecera acompanhado de Hermes, cuja identidade também é ocultada).
No fim do Fausto II, a cabana de Filemon e Baucis representa a última parte do mundo que a vista de Fausto alcança mas ele não pode dominar. Isso o atormenta, e lhe dói especialmente o tinir de sinos que vem daquela região, como emblema da conduta pia e devota do casal.
O Peregrino, que no passado tinha sido assistido por aqueles bons anfitriões quando naufragara ali perto, havia há pouco retornado àquelas paragens e encontrado tudo mudado: onde antes havia água, agora há terra, visão diante da qual o Peregrino emudece, enquanto ouve de Baucis o relato de quanta desgraça aquilo era prenúncio. E justamente na morte desses três personagens – executados por capangas de Mefistófeles, a mando displicente de Fausto – muitos veriam uma prefiguração de cataclismos políticos vindouros.
O crítico e sociólogo Marshall Berman escreveria:
O primeiro projeto-show desenvolvimentista de Stálin, o canal do Mar Branco (1931-1933), sacrificou centenas de milhares de trabalhadores, número mais que suficiente para superar qualquer projeto capitalista contemporâneo. E Filemon e Baucis podiam perfeitamente servir de modelo para os milhões de camponeses assassinados entre 1932 e 1934 porque se postavam no caminho do plano estatal de coletivização da terra que eles haviam ganho durante a revolução, havia pouco mais de uma década. Mas o que torna esses projetos muito mais pseudofáusticos do que propriamente fáusticos e bem menos tragédia que teatro do absurdo e da crueldade é o fato doloroso – com frequência esquecido no Ocidente – de que eles simplesmente não funcionam.
Como pôde Fausto ir do humanismo ao terror? Por que aquele velho erudito tinha de deixar seu quarto de estudos, aventurar-se no mundo (para desgraça de uma moça, Margarida), empreender nas finanças e na guerra, viajar oniricamente pela Grécia antiga e, num ato decisivo final, tornar-se empreender colonial inescrupuloso, que justamente em sua falta de escrúpulos crê trazer liberdade para aqueles que ele destrói com seus projetos titânicos?
Fausto II se encerra, pois, com a despedida de um velho mundo: o humanista lança-se à destruição das próprias bases sociais e culturais que tornaram a existência dele possível. Fausto é um índice do potencial autodestrutivo da cultura do Ocidente; o mundo histórico tem a tentação de se tornar puramente historicista, fechado em si mesmo, e o intelectual tem a tentação de tornar o universo do saber um microcosmo autorreferente, uma espécie de cubo mágico a ser manipulado de maneira gratuita – mas não sem graves consequências.
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