Da Vinci e sua caverna

Preâmbulo

* Se ainda não conhece o novo programa de publicação de A Fantasia Exata, conheça.

* Em breve meus cursos não estarão mais disponíveis na Hotmart (para novos alunos, entenda-se; se você já for aluno, não se preocupe, tudo continuará lá). Somente até a próxima sexta-feira (10) será possível ter acesso por tempo indeterminado (muitos anos, talvez décadas, sei lá) a todo o material que dediquei à pesquisa do ”projeto humanista“ nos últimos anos. Depois só será possível assistir a essas aulas através do meu próprio site, no qual os inscritos contam com acesso de um ano apenas.

* Ora, aproveite para garantir acesso consideravelmente estendido por meio de um único pagamento. Leia aqui sobre o que se passou em Convivium e adquira seu acesso aqui.

* Paul Kingsnorth lançou um novo livro do qual, pelo jeito, irei discordar violentamente: Against the Machine. Certamente será uma leitura importante, contudo, pela qualidade literária que o autor dá a tudo que escreve e pela franqueza que enfrenta um dos grandes temas de nossa época. Qual? Assista ao evento de lançamento.


Da Vinci e sua caverna. A fantasia exata, parte 3

Dos Cadernos de Filosofia Adiada

Eu era adolescente quando, num momento talvez já um pouco tardio, ouvi falar pela primeira vez do “mito da caverna”, aquele que se encontra, como sabem, na República.

Para a maioria das pessoas, a ideia de passagem das trevas para a luz, do simulacro para a realidade, que o famoso entrecho do Livro VII da grande obra platônica traduzia num símbolo bastante expressivo, parecerá perfeitamente adequada quanto à sua orientação espacial.

Para mim, a história soou estranhíssima, quase uma inversão de como as coisas realmente se passam: afinal, eu não queria — em grande medida continuo não querendo — ir do fundo para a superfície. À minha sensibilidade parecia que qualquer compreensão mais profunda das coisas teria a ver com ir mais fundo, com abandonar a superfície, com ver o que está oculto pelas sombras, sempre convidativas.

Sem dúvida eu não sentia a verdade como dada de imediato em tudo que minha sensibilidade experimentava, mas tampouco eu tinha dúvida de que, no fundo, por trás das aparências, seria possível flagrar as coisas como elas realmente são. Possivelmente por influência de filmes (Indiana Jones?) e de uns poucos contos de fadas que povoavam minha mente, a maravilha teria de ser buscada no fundo dos oceanos, num baú enterrado no centro de um deserto, só poderia ser achada na mais inóspita das ilhas, que, prenhe de perigos de toda ordem, abrigaria um lugar sumamente secreto.

Um lugar, pois, perfeitamente escuro: uma caverna.

Na Antiguidade greco-romana, por sinal, os anjos, aggeloi, habitavam as profundezas, ao passo que os demônios, daimones, se deslocavam pelos ares, isto é, entre a terra e o empíreo. Há uma reminiscência disso na Carta aos Efésios, quando São Paulo se refere aos “espíritos malignos pelos ares”.

Portanto, a realidade angélica, a comunicação com o mais secreto e mais verdadeiro, teria de ser buscada no fundo de uma caverna. A filosofia naturalmente surgiu dessa paixão pelo escuro, à qual se dedicavam os que se cansavam do ouropel do dia e da falsa clarividência da luz diurna. Alguns intuíam existir uma espécie de luz noturna, ou de noite luminosa, na qual as coisas se acendiam e faziam luzir seu ser.

Recentemente tive a alegria de reencontrar essas minhas distantes impressões ao ler um pequeno livro de Alfredo Bosi, Arte e conhecimento em Leonardo da Vinci, no qual ele nos mostra esse operário da fantasia exata, esse homem-laboratório de ciência artística, como um verdadeiro fascinado pelo escuro, o fundo, o secreto, o ainda carente de luz, mas justamente por isso capaz de iluminar-se. Veja-se a sua “Virgem dos Rochedos” (1483):

Nesse quadro já se nota esta peculiaridade que Leonardo depois imprimiria com mais força às suas obras de maturidade, o situá-las num cenário cuja indefinição, sobretudo em seu fundo, sugere uma paisagem infinita. Temos rochas, aí, mas também caverna, claramente indicada pelas estalagmites. Onde se passa a cena? Passa-se, seja lá onde for, num local fundo, num local escuro, acizentado, ao qual o Menino vem trazer a luz, o que se nota com facilidade pelas tonalidades claras que o artista concentrou na região central da obra, em especial na Mãe, no Batista (orante, de joelhos) e no Filho. A veste do anjo, de tonalidade purpúrea, serve de espécie de anteparo à luz do Filho de Deus.

Essa boa vontade para com o escuro foi fixada pelo Leonardo investigador da natureza numa anotação que fez num de seus muitos cadernos, na qual recorda um passeio que fizera. Na tradução de Alfredo Bosi:

E arrastado pela minha ardente vontade, desejoso de ver a grande cópia das várias e estranhas formas feitas pela engenhosa natureza, girando eu algum tempo por entre escolhos sombrios, cheguei à entrada de uma grande caverna. Diante da qual, um tanto estupefato e ignorante, dobrei em arco os meus rins, pousei a mão cansada sobre o joelho, e com a destra cobri os cílios abaixados e cerrados, e muitas vezes me dobrei ora de um lado, ora de outro, para ver se ali discernia alguma coisa, o que me era vedado pela grande escuridão que havia lá dentro. E passado algum tempo assaltaram-me duas coisas, medo e desejo: medo da ameaçadora e escura espelunca, desejo de ver se lá dentro houvesse alguma coisa miraculosa.

Medo e desejo, ou desejo de ir ao local do qual se tem medo. Como se precisássemos levar a candeia débil, de desmaiada luz, da razão humana até àquilo que parece mais irracional no ser, a fim de que ele nos surja, agora ofuscante, como a verdadeira origem de nossa luz, momento no qual deixaremos de ter medo.

Bosi assinala a diferença entre a caverna de Platão e a caverna de Da Vinci: “Da primeira deve o homem libertar-se para ver o mundo à luz do sol, matriz de todo saber. Na segunda, sabendo-a embora escura e ameaçadora, o artista deseja penetrar para nela surpreender quem sabe quais segredos e prodígios: é um movimento de atração pela coisa ignota que o espírito perfaz animado pelo desejo de saber, bramosa voglia”.

Afinal, a prospecção de novas intuições só é possível por meio da introspecção. Todo filósofo carrega consigo uma caverna portátil, na qual se encaramuja para defender-se de falsos brilhos.


Mais Vicente Ferreira da Silva: filosofia como lembrança da Origem

Seminário Impermanente #2

Na semana passada tratei, em breve videoaula, do quanto a noção de uma “natureza” exterior e objetiva é, segundo Vicente Ferreira da Silva, um construto civilizacional muito recente e que nada tem de natural. Qualquer noção de maior ou menor conformidade entre esquemas imaginativos e possibilidades reais da existência, questão que está na base do conceito de fantasia exata, terá de mais cedo ou mais tarde haver-se com a oposição homem-mundo, história-natureza.

Agora, trato no vídeo abaixo do que seria, para Vicente Ferreira, o ato de “transcender” a tentação racional da transcendência, isto é, o que possibilitaria fazer cessar aquela objetivação unilateral e inadequada do “mundo”, da “natureza”. Para ele, como para Eudoro de Sousa, o movimento da consciência deflagrado pela filosofia consiste em retirar a Origem, essa espécie de “fundo” ontológico (a caverna do ser?), e lhe dar uma existência móvel, propriamente mítica e a-histórica. Assista:

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