De quando o Filólogo se perdeu na floresta e não encontrou mais o caminho de volta para casa – e 24 aulas sobre o que temos a ver com isso.
Se eu tivesse de resumir a história dos últimos mil anos por meio de uma fábula, contaria uma história mais ou menos assim:
A alegoria do Mundo
Era uma vez o Mundo. O Mago o tomou em seu colo e o nutriu, vendo-o crescer em seus poderes aparentes e inaparentes. Conheceu-o a fundo e o amou, e viu que o norte equivalia ao sul, o leste ao oeste. Avançou assim seguro sobre ele, certo de sua conquista, porém houve estranhamento. O Mago perturbou-se.
A cada vez que agia sobre o Mundo, mais distante se tornava seu sentido, mais alheio o seu significado lhe parecia. A oposição amorosa do Mago ao Mundo logo se tornou em conflito, e não muito depois em indício de um segredo. Todo o saber, na verdade, começou a parecer distante e inapreensível, ou pelo menos não facilmente apreensível. A investida sobre o Mundo agora requeria a pesquisa prévia dos caminhos até o seu segredo. Foi assim que o Mago, contristado, teve de retirar-se ao deserto e ceder lugar ao Filólogo, o senhor que vê para além das letras e conhece para além das aparências.
O Filólogo enamorou-se do Mundo e adoeceu de melancolia. Sonhou no passado as origens do Mundo e imaginou no futuro sua progênie, na qual viu a marca dos eleitos, dos portadores do mais penetrante arcano. Em ato de adoração construiu um Lar para o Mundo, mantendo-o aquecido com o fogo de uma imaginação erudita e a lenha do poder que oprime e liberta, madeiro de árvores que, embora seculares, não resistiram aos instrumentos de corte e análise do Filólogo.
Mas deu-se que um dia o Filólogo saiu a buscar mais lenha para animar o Lar do Mundo, perdeu-se na floresta, sobre a qual já desciam sombras, e jamais voltou a encontrar o caminho até o objeto de seu ardoroso culto. Sem quem por ele zelasse, o Lar tornou-se para o Mundo uma Prisão.
O Filólogo chorou por três séculos a sua imprudência e imprevidência, até que, andarilho naquela mata cada vez mais densa, entreviu um longínquo clarão marítimo e para lá rumou. Deitando-se promíscuo com as mulheres que encontrava em sua contínua andança, criou uma prole monstruosa mas heroica, da qual saiu o Colonizador. Ao Colonizador e sua raça forte foi dado finalmente chegar à praia, construir navios e atirar-se ao mar. Permanecia ainda viva a lenda do Mundo. Saíram em sua busca.
Como não poderiam supor que se encontrasse perdido num Lar ancestral em terra firme e vizinha, vasculharam os mais distantes mares e terras, mas sempre frustrados, sem nada encontrar. Restou ao Colonizador a solução final: se não encontrara aquele objeto lendário, nem por isso se consideraria incapaz de por sua própria conta construir um Novo Mundo. E assim passou a fazer.
O Mago transformara o Mundo em objeto e não mais conseguira alcançá-lo. O Filólogo criara para o Mundo um Lar que se reverteria em Prisão. O Colonizador abandonara a antiga esperança e construíra um Novo Mundo.
Mas o Mundo, o amável Mundo, permanecia na Prisão à espera de quem de lá o tirasse.
Entender essa alegoria será um dos objetivos do terceiro módulo de Convivium – Seminário Permanente de Humanidades, que se chamará “A Alegoria do Mundo: o Mago, o Filólogo e o Colonizador” e consistirá em uma investigação histórica e filosófica sobre as origens da modernidade e a rota de saída que o pensamento latino-americano oferece ao projeto humanista. Em virtude da importância que o pensamento alegórico assumiu no Ocidente, seja na literatura renascentista seja na nascente ciência moderna, nada mais apropriado que fazer a crítica desse ciclo histórico por meio do artifício de narrá-lo como uma fábula prestes a chegar ao fim. É o que farei.

12 aulas ao vivo + 12 aulinhas pré-gravadas
Embora Convivium receba a qualificação de “Seminário Permanente de Humanidades”, até o momento ele se mostrou bastante impermanente: após duas temporadas em 2022 (de março a maio e de julho a setembro, se bem recordo) e mais duas aulas na primeira semana de 2023, nada mais se passou.
Tomo agora a decisão radical de abraçar essa impermanência: em vez de centrar carga em três meses de aulas semanais, resolvi conceber um plano mais amplo e mais ritmado de um ano de aulas ao vivo mensais (ou mais ou menos quinzenais, se contarmos os breves vídeos complementares). Assim Convivium honrará aquilo que pensei para o projeto desde o início: não apenas “aulas”, mas a vivência de uma pesquisa longa; não apenas a exposição de conclusões já alcançadas, mas a experiência de incertezas e mudanças de rumo.
Em resumo, todo mês o aluno terá acesso a:
um vídeo pré-gravado de cerca de 15 minutos sobre algum tema pertinente aos nossos estudos;
uma aula ao vivo (as gravações ficarão disponíveis) de aproximadamente uma hora e meia, na qual os alunos poderão fazer comentários e tirar dúvidas.
Ou seja, no total teremos 12 aulas ao vivo e 12 aulinhas pré-gravadas. Mas não é só.
Acesso a trechos do livro inédito O destino do humanismo
Convivium é um meio de viabilizar pesquisas que me interessem e de comunicar aos participantes uma postura mais ativa e criativa para com a cultura, coisa que me parece rara hoje no Brasil. Mais que isso, é também um meio de levar essas pesquisas e essa inclinação criativa até a redação de livros. Em conformidade com essa meta, minha principal motivação para este terceiro módulo é concluir uma primeira versão do longo ensaio O destino do Humanismo, cuja redação já iniciei e do qual três excertos serão apresentados aos alunos.
Ao se inscrever neste terceiro módulo, portanto, você irá acompanhar os bastidores de uma reflexão acerca do Ocidente e do Brasil que tem, a meu ver, vários traços de originalidade e que poderá nos auxiliar, no futuro, a repensar nossa posição no globo e em meio às várias correntes culturais, porém o fazendo a partir de um radical e até mesmo inconveniente conhecimento de nós mesmos.
Ao disponibilizar aquelas três seções do livro aos alunos, irei comentar o estado atual de sua redação e as dificuldades particulares que oferecem; direi algo acerca da bibliografia e das obras literárias e filosóficas que abordo mais diretamente; e ficarei, claro, aberto a quaisquer dúvidas, sugestões ou críticas. Você pode me ajudar a escrever esse livro. Desde já manifesto minha gratidão.
Questiúnculas técnicas
Os vídeos pré-gravados, os excertos do ensaio inédito, os links de acesso às aulas ao vivo e os textos de apoio serão disponibilizados em um grupo no Telegram exclusivo dos alunos. É possível que eu realize transmissões de áudio ao vivo para responder questões postadas no grupo.
A princípio, as aulas ao vivo serão às quintas-feiras à noite. Às 20h ou às 21h. Ou quem sabe às 20h30? A definir.
As inscrições começam na terça-feira (2), quando voltarei a lhe importunar com novo e-mail no qual detalharei o programa das 12 aulas ao vivo e indicarei o link para inscrição.
Os assinantes pagantes desta newsletter e os alunos dos módulos anteriores receberão um cupom de 10% de desconto.
Sim, será possível ter acesso também aos módulos 1 e 2 de Convivium, caso você os tenha perdido: “O destino do humanismo: uma leitura do Fausto de Goethe” (12 aulas + extras) e “Os Livros da Vida: Abelardo, Dante, Cardano, Santa Teresa” (12 aulas + extras). O valor, garanto, será bastante atraente.
O curso se inicia no dia 22 de abril com um primeiro vídeo pré-gravado.
A primeira aula ao vivo será no dia 2 de maio.
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Boa e Santa Páscoa a todos. “Ó morte, serei a tua morte; destruir-te-ei, ó inferno”.
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