Shem the Penman: escrever de volta para casa

E se o sentido máximo a ser alcançado pela fala fosse um derradeiro emudecimento maximamente significativo…? Velho tema místico, velho como quase tudo em “Finnegans Wake”.

Por ocasião do Bloomsday 2022.

No segundo livro de Finnegans Wake, somos apresentados aos irmãos Shem, o escritor (the Penman), e Shaun, o carteiro (the Postman). O leitor que tiver chegado a essa altura do livro, seja munido de comentários, traduções ou só de paciência, já os conhece por referências esparsas e está pronto para observar em Shem figurações míticas de Caim ao longo da história universal. Também estará habituado ao fato de que vários personagens são um mesmo personagem em diversas épocas e lugares. Não estranhará que a história da família do casal Finn McCool e Anna Livia Plurabelle – instáveis nomes para uma montanha e um rio de Dublin – ambicione explicitar, quem sabe até explicar, uma culpa fundamental que repercutiria por todos os atos humanos e que é sonoramente relembrada no livro com onomatopeias de um trovão primordial. A história da cultura se inicia com a Queda e vive de sua lembrança, de modo que todas as histórias são uma e a mesma história: “There extand by now one thousand and one stories, all told, of the same” (5:28-29).

Uma dessas histórias é a de Glugg, um dos nomes de Shem que se identifica com o diabo e é reiteradamente posto em oposição a seu irmão Chuff, um dos nomes de Shaun, identificado a São Miguel Arcanjo. A guerra de ambos é descrita como uma discussão: “An argument follows” (222:21). O que está muito bem posto: a língua, o aspecto discursivo da realidade, é a faixa de atuação demoníaca, e por isso mesmo Dante nos diz que o diabo é um lógico, e por isso mesmo a Igreja ensina que não se deve discutir com ele.

Na discussão, o lado intrinsecamente conflituoso, ou histórico, será o de Shem-Glugg: “the devlin sulph was in Glugger, that lost-to-lurning” (222:25-26). A fugacidade de tudo quanto existe, “the brividies from existers” (222:27-28), aborrece Glugg. Ele toma parte do lado noturno da existência como quem busca um último refúgio, ou como quem busca no avesso das coisas aquela sua possível essência não fugaz que, porque essência, não pode ser exibida à luz do dia sem que se fragilize ou se torne irreconhecível, não mais essência.

O interesse de Glugg está em “darktongues, kunning” (223:28); enigma é seu negócio. Pois ao escritor cabe ocupar-se com “howtosayto itiswhatis” (223:27), isto é, em seu horizonte sempre está presente a pergunta: “But what is that which is one going to prehend?” (223:25). Em resumo: o que é, como dizer, a fatalidade de ter de dizê-lo sempre na língua da noite, em “darktongues”.

Glugg será naturalmente infeliz: “This poor Glugg!”. E o motivo é simples: “It was so said of him about of his old fontmouther” (224:9-10). A fim de habituar-se à vida, essa confusão dos diabos, “life’s robulous rebus” (12:34), nada pode fazer senão buscar tristemente sua “fountmouther”, sua fonte maternal da declamação, da nomeação original das coisas. Sente nisso um chamado, mas é um chamado que o ludibria: “Sheˋs promised heˋd eye her. To try up her pretti. But now itˋs so longed and so fared and so forth” (225:32-33; atentem à musicalidade do texto de Joyce, sem cuja beleza, bom, sequer seria possível ler FW). Prometeu que se mostraria a ele, que lhe daria a ver sua beleza, mas isso faz tempo e nada se cumpriu. Sua mãe, essa proteica Anna Livia de muitas belezas (“plurabelle”), o abandonou no mundo, e agora ele precisa achar o rumo de volta para casa.

Para melhor compreender esse fato acerca do escritor – Joyce, por sinal, diria identificar-se com Shem, o que torna o presente caso bastante ilustrativo do processo de escrita e sua finalidade em FW -, é bom lembrar que o aspecto feminino da existência responsável pelo metamorfosear-se dos personagens e da história universal inteira é identificado com Anna Livia, isto é, o Rio Liffey, isto é, a mãe de Glugg; e um narrador difícil de identificar nos informa que ela era dada a “to steal our historic presents from the past postpropheticals” (11:30-31). Ela é a mãe das assincronias, das superposições temporais, do anacronismo dos arquétipos. Ela vai roubar às origens o presente, o qual é sempre um “pós-profético passado”.

Desvendamos tudo isso ao ler um texto que nos informa de si mesmo: “The proteiform graph itself is a polyhedron of scripture” (107:8). “Escritura”, nesse caso, traz a ambiguidade de apontar para seu caráter possivelmente sacro, de Sagradas Escrituras. E é bem isso mesmo, desde que entendamos que, joycianamente, será sagrado aquilo que sempre recue, que vá às origens, mas o faça obrigando a regredir a própria língua, pondo-a sob o risco da completa desarticulação para que expresse algo impossível de ser expresso: o nascimento das coisas, a infância do sentido.

Shem the Penman está em busca de um tartamudear fundamental como o que acompanhamos no diálogo figurado de surdo e mudo logo no início (16-18), no qual Jute (Shaun) é surdo e Mutt (Shem), ainda mudo. Pois é: e se o sentido máximo a ser alcançado pela fala estivesse em encontrar um derradeiro emudecimento maximamente significativo…? Velho tema místico, velho como quase tudo em FW.

Na sequência imediatamente seguinte da segunda parte, assistiremos à educação de Shem e Shaun, a passar por trivium e quadrivium, e com acesso às anotações de um e outro. Ingressaremos no mundo da cultura, mas Shem, sempre jocoso, resistirá. Ele quer voltar para a mãe, à maneira e imagem do pai, HCE, Here Comes Everybody.

O caminho do escritor é o de todo mundo, é de volta para casa, mas ele o sabe, os outros talvez não.


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