Quando a maré da história sobe

Ou: uma nova vida é possível. Este texto serve de diagnóstico de nosso tempo e introdução a alguns assuntos a que darei atenção no próximo módulo de Convivium – Seminário Permanente de Humanidades.

1. Que significa isto de acelerarem-se os tempos

É lugar-comum a observação de que na modernidade o tempo se acelerou. Mais que lugar-comum, é mesmo um fato. E isso é assim porque o tempo amadureceu em novos frutos que resistem a cair do galho da História.

Quanto maior a altura histórica de uma época, maior será sua necessidade de desenvolver meios de registro mais complexos. Esses meios não são naturais, não se assemelham a nada que se encontre na natureza, ainda que nasçam de elementos dela. O passado, nos tempos míticos, está sempre ancorado no presente, está sempre a emoldurar os atos aqui e agora, motivo pelo qual os gestos primordiais de criação que o sacerdote repete são efetivamente não atualizações de algo primevo, mas sim uma nova e inteiramente única manifestação sua. Se o sacerdote não praticar seu ofício o cosmos se desarticulará, os tempos não se equivalerão e seremos atirados à História, e da História ao historicismo, e do historicismo ao desconstrucionismo.

Há pelo menos dois séculos, os meios de registro se atrofiam no presente e assinalam cada vez mais sua distância do passado, que se torna coisa morta. O mito se mostra cada vez mais mítico e a nota de rodapé cria no erudito o vício de afastar-se da linha atual de vivência e recuar permanentemente à sua fonte ou fundamento, que já não será coisa presente nem tampouco atualizável desde o passado. A biblioteca é arquitetonicamente a segregação do saber que, antes oral, não tinha prédios, não tinha âmbitos, tinha no máximo locais privilegiados de enunciação, aonde a audiência acorreria com maior facilidade. A altura histórica sobe conforme cresce a memória de registros e conforme esses registros segreguem o momento atual de todos os pretéritos, insisto.

À mancha tipográfica saturada, hiper-articulada com títulos, subtítulos e rodapés, com remissões a fontes e índices, corresponde a sensação de que os tempos correm, se atropelam, se precipitam adiante. De um texto maximamente verídico antes se esperaria uma elocução direta, uma frontalidade de expressão em tudo contrária ao que hoje concebemos como trabalho sério (o símbolo não era confuso: era apenas claro demais). Do texto de maior autoridade hoje queremos a demonstração ostensiva de sua autoridade; e ele nos dá o que pedimos, mas ao custo de afastar o passado e de acelerar o presente.

A sensação de maior ou menor velocidade do tempo tem a ver com o quanto nossa atenção é solicitada. O leitor contemporâneo de Heródoto poderia lê-lo com a atenção centrada num foco só, num encadeamento único de fatos, comentários, interpretações. O leitor de Heródoto hoje terá sua atenção solicitada continuamente por nuanças de tradução, por notas explicativas, por remissões a outros autores, por paratextos auxiliares, pela própria dificuldade que um texto antigo impõe, impondo assim também a sensação de carência de tempo para dar conta de tudo isso – e o tempo que falta é o tempo que se acelera. Ler Heródoto se torna uma tarefa análoga, porém ainda mais exaustiva, que ler um acadêmico contemporâneo. A solicitação excessiva de atenção extenua o leitor; o tempo necessariamente transcorrerá mais rápido para ele, pois necessita dar conta de uma gama de informações bem maior do que necessitaria um leitor de 500 ou 1000 anos atrás.

Ele sabia: uma outra vida é possível. Estamos cansados, as notas de rodapé nauseiam, mas não há nada a fazer senão acelerar a chegada de uma nova era.

2. Que fazer das ferramentas do erudito

Há pouca clareza hoje, no Brasil, acerca do que fazer em matéria de educação superior, de pesquisa erudita.

Por um lado, há os que vão violentamente contra quaisquer das orientações costumeiras nessa área, a tudo abranger e atacar sob a forma de vida acadêmica. A universidade é sentida como uma falsificação da vida do espírito e a produção dos acadêmicos é vista como, vá lá, talvez técnica e, quando muito, exata, mas fundamentalmente desprovida de maior sentido e capacidade de orientar o indivíduo em sua vida. E, se de nada serve para isso, para que mais servirá senão como plano de carreira e adorno social?

Por outro lado, há os que vão violentamente contra quaisquer convites a uma vivência mais natural do que se empedrou em monografias, dissertações e teses, e de tal maneira que – leva-nos essa posição a crer – nos bastaria uma década de produção acadêmica realmente decente, acima do nível atual, para que a cultura brasileira se robustecesse. As ferramentas do erudito seriam fundamentalmente boas e sua difusão nacional seria maximamente desejável.

Aquele primeiro, portanto, é um nostálgico de uma vivência de tempo mais espaçada e meditada; este último, de sua parte, pretende acelerar os tempos e acertar o passo do Brasil com certa concepção profissional de vida do intelecto.

Uma coisa é certa, contudo: para nós, a maré histórica subiu, e talvez tenha subido até mais do que subira na década de 1930, quando a meditação sobre a origem e o destino da nação brasileira se tornou não apenas interessante, não apenas moda, mas uma necessidade vital para toda uma geração de intelectuais. Que não tenhamos hoje muitos intelectuais do mesmo calibre não significa que nossa maré não possa estar ainda mais alta, como se a responsabilidade a que somos chamados fosse demasiada para nossos ombros.

Embora eu não acredite que seja possível fazer qualquer coisa de culturalmente original e vital desconsiderando toda a tradição erudita dos últimos 200 anos, toda aquela profissionalização do saber que atingiu sua altura cimeira na universidade alemã de fim do século XIX e princípio do século XX (leiam Fritz Ringer, O declínio dos mandarins alemães), nem por isso considero que repetir a experiência de ingleses, franceses e alemães nos será de muita valia. Estar na margem do globo tem suas vantagens: podemos ver de longe a história europeia, delinear suas linhas de força e meditar o fato de que a música de Mozart e a filologia de Schleiermacher não impossibilitaram o nazismo, assim como no pós-guerra a poesia de Trakl e o ensaísmo de George Steiner não impediram que hoje a Europa faça novamente experimentos em crianças (agora com hormônios) e se apronte para segregar os dissidentes das ideologias civis dominantes. Essa meditação talvez permita perceber que nós, se nos apegarmos tão só à letra da erudição, talvez sejamos capazes de dar novas e mais altas contribuições ao museu de iniquidades humanas.

Nossa condição marginal nos permite, dizia, ver em nova perspectiva a história dos últimos séculos e recolher, a partir de nossas vivências, de nossos problemas mais particulares, um conjunto de pistas para experimentar novos modos de relacionamento com o universo do saber. A maré histórica para nós subiu e temos a chance de ler o cânone ocidental com novos olhos. O cansaço da erudição e da aceleração dos tempos, quando casado a certa fome de saber mais alto e, por que não?, mais técnico, pode propiciar que uma nova geração de intelectuais e criadores avance sobre terreno virgem. Décadas atrás Vilém Flusser já havia nos convocado a tanto e até muito recentemente Olavo de Carvalho nos refez o convite. Mas continuamos paralisados pelas visões históricas dominantes (reacionárias ou progressistas) e pelas tecnologias do saber que mais nos apontam nossas carências que oferecem soluções a elas.

3. Um primeiro convite

Descrevo esse quadro geral de nossas angústias – razoavelmente críptico, sei bem – como um primeiro convite que lhe faço, leitor, para participar do novo módulo de Convivium – Seminário Permanente de Humanidades. Ao longo de 12 aulas irei propor, através de uma revisão do itinerário cultural da modernidade (matéria de um longo ensaio que pretendo concluir ao fim dessas aulas), novas rotas de experiência humana e criação erudita que façam jus à nossa condição de brasileiros e latino-americanos, nós que por vocação vivemos uma situação de fronteira, esse tema clássico do ensaísmo de interpretação nacional. Vivemos um exílio permanente, mas talvez já seja hora de abandonar o deserto.

Se você ainda não está inscrito em minha newsletter, inscreva-se através do botão abaixo para receber em breve mais informações sobre o próximo módulo de Convivivum.


Descubra mais sobre A Fantasia Exata

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.


Comentários

4 respostas para “Quando a maré da história sobe”

  1. Avatar de Vinícius de Oliveira
    Vinícius de Oliveira

    Muito boa reflexão.

    1. Avatar de Ronald Robson
      Ronald Robson

      Obrigado! Talvez lhe interesse o novo texto que disparei hoje, pois lida de algum modo com os mesmos assuntos.

  2. Avatar de Márcio War
    Márcio War

    Bravo! que texto, obrigado! E o que você considera erudição?

    1. Avatar de Ronald Robson
      Ronald Robson

      Obrigado pela leitura, Márcio! Vou escrever — ou gravar — algo a respeito. Mas diria rapidamente que chamo de erudição (a erudição moderna, pelo menos) uma educação que atende a três princípios: o princípio histórico (todo problema passa a ser enquadrado de um ponto de vista evolutivo), o princípio comparatista (as estruturas de um fenômeno são realçadas e postas em confronto com as estruturas de outros fenômenos) e o princípio linguístico (a linguagem é vista como o principal meio de construção de sentido, até dirigindo o indivíduo à sua revelia). São marcas distintivas do saber cultivado pelo típico intelectual moderno. Em breve, como disse, irei disparar um texto a respeito.

Deixe um comentário para Márcio War Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Descubra mais sobre A Fantasia Exata

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading