Abaixo você encontrará um texto (aberto a todos) sobre alguns problemas do politeísmo filosófico contemporâneo e um vídeo (apenas para apoiadores de A Fantasia Exata) sobre uma estranha intuição de Vicente Ferreira da Silva acerca do papel de Kant numa possível filosofia da cultura cujo centro esteja na realidade divina, e não nas realidades matemáticas ou físicas.
Mas antes: que dizer da Iniciação à Filosofia com Éric Weil? Segue a toda para o seu quinto mês. Tivemos estas 15 aulas até o momento:
- Aula 1: A negatividade da filosofia; e sua superação
- Aula 2: Como nasce a filosofia (indivíduo e comunidade, razão e violência)
- Aula 3: O dever do gênio (Kant, Otto Weininger, Weil)
- Aula 4: A lógica da filosofia (atitudes, categorias, existência histórica)
- Aula 5: O domínio da verdade
- Aula 6: A obscuridade das experiências autênticas; e o discipulado filosófico
- Aula 7: O fracasso da unidade (rumo à noção de prova)
- Aula 8: Do discurso à discussão (tradição e lógica formal; e três usos exemplares da dialética)
- Aula 9: A insuficiência da formalidade racional; o mundo objetivado
- Aula 10: As intimações da interioridade
- Aula 11: A mentalidade religiosa: eu humano e Eu transcendente puro
- Aula 12: O mundo do trabalho; e a indiferença científica
- Aula 13: Poesia, cume da experiência consciente
- Aula 14: A contemplação da história (exemplos: Weber, Girard)
- Aula 15: A emergência dos valores perante a personalidade
Agora você pode se inscrever pagando em até 18x no cartão de crédito (com taxa e a depender da sua bandeira). Inscreva-se (clique e role até o fim da página).
De quando Carl Jung nadou até o Graal
Dos Cadernos de Filosofia Adiada
Acompanho com interesse, há alguns anos, o ressurgimento de uma religiosidade que talvez seja inadequado chamar de neopagã, mas que sem dúvida se pode chamar de não cristã, em certos redutos dentro e fora das universidades. Diria até que o principal reduto está justamente a meio caminho entre os que se situam dentro e os que se situam fora das faculdades de Ciências Humanas; refiro-me àqueles que tiveram formação universitária, muitas vezes até o doutorado, mas, insatisfeitos em maior ou menor medida com a filosofia acadêmica, optaram, ou foram forçados, a buscar meios de vida fora das instituições regulares. Pelo que diz a certa altura da aula inaugural de seu curso de “Introdução à Teurgia”, Petter Hübner é um desses casos.
Sem dúvida se trata de alguém que conhece bastante do assunto, a saber, “teurgia” segundo autores neoplatônicos como Jâmblico e Proclo, e por isso se pode aprender assistindo à aula, caso você se interesse, como eu, por esse período fascinante que foi o das filosofias e religiões no mundo helênico tardio. O que digo a seguir não é uma crítica a esta ou aquela informação da aula, nem a certas posições específicas que Hübner defende em seus textos e das quais discordo inteiramente, mas sim a certa postura geral que reconheço parcialmente não apenas nele, mas em quase todas as pessoas que hoje vejo se exercitarem numa espiritualidade neomediterrânea, ou neogrecorromana, ou pré-cristã, ou politeísta pós-cristã, ou como queira chamar.
De saída e de bom grado, reconheço que são pessoas ocupadas, às vezes até seriamente ocupadas, em recuperar alguma vivência dos estratos mais fundamentais da realidade, desejosas de acessar certa camada essencial da existência, pessoas que, depois de se frustrarem com a cultura cristã ou insuficientemente cristã de hoje, se descobrem dotadas de papel ativo, não apenas passivo ou receptivo, na ordem dos afazeres sagrados. São pessoas que não querem se contentar com estudos de religião comparada e filosofia hermética, à maneira inautêntica que apontei e critiquei no texto “Saudades do ateísmo”. São pessoas que percebem, Deo gratias, a necessidade de que rito e filosofia confluam, ou do contrário “filosofia como modo de vida” será não mais que um slogan cafona.
Assim, em vez de apenas se abrirem a qualquer revelação, ou esperarem que os deuses (ou qualquer coisa como “a voz do real”, ou a “alma do mundo”) lhes falem, passam a trabalhar devotadamente na construção dos próprios meios pelos quais humanidade e supra-humanidade se encontrarão. Quem assim faz descobriu que tudo no mundo humano tem história humana, quer dizer, história construída, e que não existe nada vagamente similar a uma “tradição primordial”, para sempre prístina e intocada e primeva. Ao contrário, percebe que toda tradição é coisa de certo modo concebida, e assim também o trabalho sagrado terá de hoje ser construção consciente de quem sente ser possível fazer com que este mundo não se contente consigo mesmo.
O raciocínio tem de correto, acerca dos afazeres humanos em geral, precisamente o que tem de incorreto acerca dos afazeres não humanos, ou divinamente não humanos. Você pode construir novos meios, ou adaptar meios antigos, para comunicar-se com seu daimon (caso você acredite nessa possibilidade e, mais ainda, na natureza benéfica dessa ação). Você é um pós-moderno incorrigível, vivendo para sempre um pós-realismo ingênuo, e portanto não irá cair na armadilha óbvia de buscar um método de realização religiosa perfeitamente isento de traços de capricho, volição, idiossincrasia. Está bem; mas também está mal.
Peter Kingsley insiste em quase todos os seus livros na necessidade de “cuidar dos deuses”. Queixa-se de que após o cristianismo a humanidade teria passado a dirigir-se a Deus o tendo sempre por seu protetor, mas nunca se vendo a si mesma como protetora dele. De fato, esta última ideia nos soa absurda, quase ridícula; não deveria soar, contudo. O cuidado dos deuses, ou, para nós cristãos, o cuidado de Deus, está ligado naturalmente ao modo como nos comunicamos com os santos, por exemplo, ou ao modo como aplacamos a ira divina.
Kingsley parece resumir o cristianismo às suas formas protestantes mais radicais, falha grave que só não é pior que a de não dar atenção ao que os protestantes dizem dos católicos e dos ortodoxos orientais. Dizem que são uns pagãos, que acendem velas para deuses; que presumem muito de si próprios e do poder de seus atos, a ponto de acreditarem poder salvar-se por suas próprias forças e direcionar neste ou naquele sentido a ação divina; que se comportam como se Deus precisasse deles, e não o contrário — numa palavra, como se cuidassem de Deus. E, de fato, que cuidado maior para com Deus poderia haver que esforçar-se diariamente para renovar o sacrifício sacramental do seu Filho?
Existem, como se vê, formas do cuidado de Deus bem próprias ao cristianismo; não são formas que se pretendem livremente criadas, contudo; nós as reconhecemos criadas por nós, sim, porém conforme a vontade divina; o cuidado humano de Deus é uma exigência não humana, e não uma gratuidade nossa. É algo que se atualiza em um terreno histórico razoavelmente controlável, mas por uma imposição quase terrível, vertical, definitivamente não histórica nem terrestre. Nós somos dirigidos à criação de meios de lidar com o que nos é incontrolável.
Isso equivale a dizer que nenhum daimon é perfeitamente controlável. Nenhum aspecto fundamental da realidade pode ser perfeitamente contatado por faculdades cognitivas e técnicas comunicativas às quais falte aquele traço de imposição divina. Quando vejo gente hoje, gente até filosoficamente muito instruída, dedicando-se à criação do que elas próprias chamam de brinquedos para se comunicar com deuses, não posso senão lamentar que acabarão falando nem sequer com demônios, mas apenas consigo mesmas. O que é do alto só ouve o que é gestado no alto; o inteiramente criado embaixo, embaixo permanecerá.
Penso nisso ao ler a defesa que Petter Hübner faz do que chama de “politeísmo crítico”:
Um politeísmo crítico compreende que nossas categorias cognitivas são historicamente condicionadas, mas nem por isso arbitrárias ou desconectadas das realidades divinas que buscam apreender. Elas são um material à disposição de uma “Engenharia do Sagrado” que sempre fez parte do processo criativo de qualquer religião, processo criativo que usualmente se aliena de si mesmo através da superstição da Tradição enquanto “dado”. Toda religião viva passou por processos de reconstrução, reinterpretação e ressignificação. O que distingue o politeísmo crítico é sua disposição para tornar este processo consciente e deliberado, recusando a alienação que o naturaliza como revelação imutável.
Como se vê, dois séculos de historicismo e de pesquisa histórico-crítica de textos sagrados na academia criaram uma disposição sui generis no campo religioso. As “categorias cognitivas” ascenderam ao nível da consciência transcendental que, agora purgada das impurezas da ingenuidade religiosa, pode se dedicar a uma muito autoconsciente “Engenharia do Sagrado”.
Vicente Ferreira da Silva, errado o quanto pudesse estar quanto à sua concepção de símbolo (sobretudo quando se lança a condenar o que vê como perda da percepção simbólica do mundo, momento em que vários pressupostos frágeis seus vêm à tona), estava correto em suas impressões acerca da origem dos símbolos e de sua função nas tradições religiosas e em suas respectivas “categorias cognitivas”. Os símbolos ou nasciam de uma vazante pré-discursiva ou supradiscursiva, que levava de arrastão o aparelho empático humano, ou não nasciam nunca. Dito de outra maneira, é preciso que uma cultura se configure como uma Protoforma da qual mitos particulares surgirão como atualizações de possibilidades suas; ao ser humano cabe atualizar essas formas míticas, e não controlar a Protoforma subjacente: esta é fundadora, jamais fundada, ela é fascinadora, nunca fascinada e dirigida.
Vicente Ferreira recorreria à obra de Leo Frobenius e ao seu conceito de Ergriffenheit (arrebatamento, ou a circunstância de sofrer profunda impressão de algo) para defender a ideia de que é a partir da “invasão da consciência por um aspecto da realidade” que todas as possibilidades de uma cultura se arranjam, ao homem depois cabendo, em meio a elas, elaborar seus modos de vida e suas ferramentas como derivações de um núcleo de vida não utilitário e até mesmo extramundano. Isto é, para Frobenius as culturas nascem simbolicamente complexas e materialmente pobres; com o tempo vão se tornando complexas nas práticas materiais e simplórias nas percepções simbólicas; e assim o que um dia foi a figura do sumo-sacerdote se torna a figura de um rei vulgar, o disco solar se torna um carro e o dragão marinho, um navio transatlântico. Tudo, desde o princípio, contido na matriz simbólica inicial, que não foi concebida ao bel-prazer do indivíduo. Ao contrário, “a força lúdico-criadora, que determina as formas culturais, é suscitada e induzida em nós por momentos transcendentes”. Continua Vicente Ferreira:
O homem representa, desempenha, “joga” com o aspecto da realidade, o Weltaspekt que se assenhorou de sua consciência; o poder demoníaco-criador é, portanto, desencadeado na forma de ações culturais pela “ordem cósmica” que invadiu sua alma. A cultura não é um simples jogo ou uma forma superior do jogo, como queria Huizinga. O estado de fascinação provocado por uma imagem do mundo, por uma epifania de realidades superiores, é essencial à ação criadora e instituidora de formas socioculturais (“Instrumentos, coisas e cultura”, 1958).
Há mais. Em outro texto, o filósofo advertiria justamente, vejam só, acerca da ilusão de liberdade no contato com as realidades mais básicas de qualquer religião, qualquer cultura. O poder decisório do homem, nesse setor, é mínimo; qualquer pretensão de estabelecer novos meios de vivência do que nos é dado viver por Deus, ou pelos deuses, é perigosa, pois “somos nós mesmos, no uso e gozo de nossas faculdades, emoções e aspirações, todas elas geneticamente ligadas à nossa matriz religiosa ocidental, que pensamos ilusoriamente relacionarmo-nos livremente com qualquer possibilidade religiosa”, escreve Vicente Ferreira. Prossegue:
Essa ilusória disponibilidade de opção religiosa é também vivida pelo homem atual que se julga apto para as mais exóticas conversões e militâncias religiosas. Assim desenvolve-se o interesse pelas religiões primitivas e pelas ondas de entusiasmo das práticas místicas mais excêntricas. Mas é sempre o homem cristão-ocidental, com sua alma naturaliter christiana que se defronta extrinsecamente com os emblemas numinosos e os numina de outros mundos. O átomo solto de uma cultura, que nasceu e se plasmou em seu âmbito, tenta sem qualquer transfiguração essencial emigrar para outros cadinhos mítico-religiosos sem dar-se conta que o credo religioso não é matéria de opção, mas sim de uma infinita transformação (“A origem religiosa da cultura”, 1962).
O que é dizer: a exaltação imaginativa pela qual uma pessoa “escolhe” ser neopoliteísta é, ela própria, uma prova viva da mentalidade existencialmente liberal que dirige suas as escolhas; trata-se de alguém que nasceu e cresceu na modernidade cristã, introjetou seus valores laicizados, mas ainda marcadamente “individualistas”, e assim se sentiu tentada a “emigrar para outros cadinhos mítico-religiosos sem dar-se conta que o credo religioso não é matéria de opção, mas sim de infinita transformação”. A ilusão de opção por outras religiosidades é, paradoxalmente, uma ilusão própria ao mundo cristão.
Isso, por sinal, foi matéria de reflexão angustiada de Carl Gustav Jung, ele próprio um heterodoxo que dificilmente alguém poderá acusar de preconceituoso cristão.
Durante sua visita à Índia, Jung teve um sonho que viria a se tornar famoso. Era uma noite de delírio febril, e era janeiro de 1938. Ele estava hospitalizado em Calcutá, debilitado por uma disenteria severa. No sonho ou visão, Jung se encontrava numa ilha, ou espécie de região costeira. Tomava conhecimento de que o Santo Graal estava em um casebre simples, desolado, onde ninguém suspeitaria se encontrar algo de valor. Parte então com um grupo de pessoas com a missão de trazer de volta o Graal. Eles caminham por horas e horas, cai a noite, e só então se dão conta de que a ilha está como que partida em duas, e não há ponte nem outro meio qualquer de chegar ao outro lado, onde se encontra o casebre do Graal. Todos, exaustos e com frio, vão caindo no sono; sobra só Jung acordado, que terá de despir-se e nadar até o outro lado. É quando ele acorda, ou volta a si.
Essa visão lhe pareceu um questionamento do que estava fazendo na Índia e uma sugestão de que sua verdadeira tarefa era buscar o “cálice da salvação” dentro da própria tradição ocidental e cristã, em vez de se perder no misticismo oriental; e assim se fortaleceu sua decisão de investigar o que considerou uma tradição ocidental contínua dos pré-socráticos aos cristãos gnósticos, dos hermetistas egípicios aos alquimistas medievais.
Em seu catatau Catafalque, Peter Kingsley lembra, a propósito daquele sonho, palavras que Jung escrevera anos antes numa carta a uma senhora. Dizia: “A gnose deve ser uma experiência realizada na sua própria vida, um rebento crescido na sua própria árvore. Deuses estrangeiros são um veneno doce, mas os deuses vegetais que você plantou em seu próprio jardim são nutritivos. Talvez não sejam tão bonitos, mas são um remédio mais forte.”
Seria ingenuidade minha sugerir, sem mais, que provem os novos politeístas desse “remédio mais forte”, que na verdade sentem ser fraco, fraquinho; mas é minha pretensão lhes sugerir outra coisa, isto é, que tenham cuidado para não incorrer naquilo que Kingsley chama noutro ponto de seu livro de “presunção”, ou de “inflação psíquica” (termo técnico de Jung), que resulta de “um ego minúsculo tentando se identificar com a marca do sagrado”. Não quero soar ofensivo, como tampouco quis Kingsley. Sei bem como é ser muito pequeno; e sei bem quão grande é a tentação de ser grande. Gostaria que mais gente também soubesse.
Kant: formas a priori do sagrado?
Seminário Impermanente #8
E se a filosofia crítica de Immanuel Kant, em vez de delimitar muito estreitamente o espaço de manifestação das realidades divinas — como em geral se pensa —, na verdade as situasse numa moldura mais propiciatória? E se fosse possível falar de formas a priori do sagrado enquanto sagrado?
Discuto esse ideia no vídeo abaixo com base em algumas observações de Vicente Ferreira da Silva e em conexão com a discussão acima acerca da autenticidade das experiências numinosas (ou, kantianamente, seriam apenas experiências fenomênicas?).
Assine para continuar lendo
Torne-se um assinante pagante para ter acesso ao restante do post e outros conteúdos exclusivos.