Olavo em uma edição italiana

O livro “Os Estados Unidos e a Nova Ordem Mundial” recebeu um tratamento fino nas mãos de Massimo Pampaloni, S.J.

Massimo Pampaloni, S.J., prestou grande serviço à difusão da obra de Olavo de Carvalho na Itália ao traduzir e apresentar Os Estados Unidos e a Nova Ordem Mundial. Deu à edição o título sugestivo de Oltre il Sipario delle Ombre Cinesi: Un Dibattito tra Aleksandr Dugin e Olavo de Carvalho (Valore Italiano, 2020), isto é, “Para além do teatro de sombras” [literalmente: “Para além da cortina de sombras chinesas”]. O título se justifica – embora Pampaloni deixe que o próprio leitor se aperceba disso – por Olavo empregar três vezes ao longo do livro a expressão “sombras chinesas”. Designa assim a ação das figuras tradicionais da geopolítica, “nações”, “impérios”, “organismos internacionais” etc., as quais remeteriam apenas à superfície rotinizada e esvaziada da realidade do poder, que se processaria numa camada mais material e específica (a dos “sujeitos da História”, termo que tem acepção técnica na obra de Olavo).

A edição é primorosa. De boa qualidade gráfica, traz um texto introdutório no qual Pampaloni apresenta a obra e a figura de Olavo, “Consciência individual e imbecil coletivo” (p. 7-30); uma “Advertência à edição italiana” (p. 31); e, de resto, uma tradução exata – que em alguns pontos até corrige a edição original brasileira – do debate, com algumas notas que atualizam links e complementam referências. Na “Advertência”, somos informados de que Pampaloni cotejou o texto de Dugin com o original inglês, corrigindo ligeiras imprecisões de sua tradução para o português; e de que fez o mesmo com o texto de Olavo, porém a buscar, ao contrário, que a versão inglesa – o debate transcorreu originalmente em inglês, on-line, mediante texto escrito – esclarecesse alguns pontos da versão original em português (mea culpa: participei da revisão da primeira edição do livro: Vide, 2012).

Em sua apresentação exata e oportuna, Pampaloni optou por centrar-se apenas na obra de Olavo, por sabê-lo menos conhecido do público italiano do que Dugin. Ficamos logo sabendo que Pampaloni, professor de teologia patrística oriental junto à Faculdade de Ciência Eclesiástica Oriental do Pontifício Instituto Oriental de Roma, travou contato com o pensamento de Olavo em 1997, quando veio transferido para o Brasil. Leu tudo o que pôde dele; traduziu alguns textos seus para o italiano, fazendo-os circular entre amigos e alunos em formato samizdat; e veio a ser aluno do Curso On-Line de Filosofia (COF), que Olavo iniciou em 2009. Pampaloni pretende mostrar um Olavo diferente daquele dos “jornais mainstream”, daquele “guru de Bolsonaro” que é um “louco delirante, astrólogo e terraplanista”. (Chega a mencionar que o anúncio de publicação de meu livro Conhecimento por presença no Instagram da editora Âyiné, em agosto de 2019, foi apagado devido a “discurso de ódio” nos comentários ao post. Meu livro acabaria por ser publicado pela Vide em 2020. Pampaloni indica ainda, em uma nota, meu curtíssimo estudo “Elementos da filosofia de Olavo de Carvalho”.)

Nosso autor começa, pois, por remover os possíveis preconceitos que o leitor italiano pudesse ter com Olavo. Faz um retrato das reações da universidade e da imprensa ao autor de O imbecil coletivo; e, a esse propósito, compara numa nota atraente, à p. 10, a prosa de crítica cultural de Olavo com a de um grande compatriota seu, Giovanni Papini, nos ensaios de intriga reunidos em Stroncature (1916). Mas, diz Pampaloni, “diferentemente do fogoso florentino, que maneja sua pena como um martelo, Olavo utiliza a sua argúcia e inteligência como uma navalha afiada, graças à qual, com dois rápidos movimentos, corta os banais suspensórios invisíveis que seguravam os trajes vistosos com os quais o sujeito em questão se pavoneava, e num átimo o coitado se vê numa (metafórica) penúria, exposto à verdade de sua inconsistência”.

Cumprida a precaução de desarmar o leitor, Pampaloni passa a apresentar a “obra em muitas dimensões” de Olavo: sua atuação nas redes sociais, nos artigos jornalísticos, nos livros e na docência, com especial atenção ao COF. Destaca o estudo sobre a “mentalidade revolucionária” (com tradução de bom trecho do artigo “A mentira estrutural”); apresenta brevemente os livros Maquiavel ou a confusão demoníaca, Visões de Descartes e A filosofia e seu inverso. “Mas o núcleo pulsante de todo o sistema de Olavo de Carvalho”, diz Pampaloni, “é seu Curso On-Line de Filosofia”. Apresenta-o como oportunidade de “compreender a fundo o [ato de] fazer filosofia de um verdadeiro filósofo”. Refaz os principais momentos do “percurso formativo e existencial profundamente original” de Olavo: sua adesão ao marxismo, sua educação à margem das universidades, seu estudo de ciências tradicionais. Com base na aula 94 do COF, remete a motivação filosófica de Olavo a duas perguntas: “qual a condição para que a consciência humana possa alcançar a verdade e gozar do dom da consciência objetiva, que é o dom humano por excelência?” e “qual a relação entre a consciência humana e o Absoluto, Deus?”.

O texto se encerra com comentários sobre o impacto de Olavo sobre a política e cultura brasileiras – mencionam-se a eleição de Bolsonaro, a insistente denúncia do Foro de São Paulo e a inspiração de muitas vocações intelectuais – e sobre a conveniência de editar na Itália o debate com Dugin. Este teria uma “presença difusa, ainda que sempre discreta”, naquele país. Diz:

Encontramo-lo convidado pela Liga [do Norte, partido de direita], lido em círculos nostálgicos comunistas, encontramo-lo ouvido em círculos católicos “tradicionalistas”; vemo-lo presente em alguns departamentos universitários, feito assistíssemos ao surgimento de círculos eurasianos. O próprio fato de que no debate Dugin soubesse dar uma expressão italiana já pronta ao slogan de  “chamada às armas” significa que se sente bem em casa na Itália, e não é de agora.

A Olavo coube a sorte, prossegue Pampaloni mais adiante,

de neste momento histórico ter tido as habilidades intelectuais e a experiência de vida necessária para abranger todo o espectro estratégico duginiano com competência e poder reconhecer, sim, sua genialidade de estrategista, mas sobretudo advertir de sua periculosidade. Profundo conhecedor de Guénon e de Evola, do Islã esotérico, do marxismo e da mentalidade revolucionária, bem como do conservadorismo clássico americano, Olavo pôde ler Dugin a nu e oferecer-nos um quadro de síntese que de outro modo seria impossível em sua amplitude e complexidade.

A iniciativa editorial de Pampaloni, como se vê, está mais que justificada, e desfaz a impressão que se poderia ter, num primeiro momento, de infelicidade na escolha de um primeiro livro com o qual apresentar Olavo aos italianos. Alunos e estudiosos de Olavo de Carvalho estão, desde logo, em débito com o Pe. Massimo Pampaloni, que não fez pouco pela difusão desse filósofo de fundamental importância para o Brasil, a Itália e o mundo.


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Comentários

Uma resposta para “Olavo em uma edição italiana”

  1. Parabéns, excelente trabalho

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