O visto e o tocado

O que aprendi com Mestre Pedro Augusto Castro Costa, criador do Zen Chuan Dô.

I.

Mestre Pedro Augusto, criador do sistema de defesa pessoal Zen Chuan Dô, disse-me certa vez uma frase que ouvira décadas antes, quando havia iniciado sua formação no kung fu estilo Wing Chun:

Aquilo que não é visto não pode ser defendido, e aquilo que não é tocado não pode ser quebrado.

A frase tem sabor de koan, de dito clássico e pedagógico transmitido pela tradição budista. Tem, sobretudo, uma qualidade muito comum em ensinamentos marciais: são parábolas de combate que visam comunicar algo de fundamental acerca da vida.

Mestre Pedro Augusto Castro Costa morreu no último 28 de fevereiro, com 53 anos incompletos.

II.

Toda legítima arte marcial guarda certos traços educacionais que foram abandonados pela pedagogia das últimas décadas. Antes de mais nada, nenhuma arte marcial pode razoavelmente equiparar aluno e professor. Há uma discrepância qualitativa evidente entre os movimentos do mestre e os movimentos do discípulo. E, se essa discrepância diminuir demasiadamente, a ponto de se tornar mais uma diferença de caráter que uma diferença de técnica, é porque chegou a hora de o discípulo se retirar e abrir o seu próprio dojô.

A hierarquia, tornada visível no colorido das faixas, da branca à preta, é contrabalançada pela disposição dos discípulos de memorizar uma série de posturas e movimentos que os levarão para um pouco mais perto dos estratos superiores da técnica.

Isto é, qualquer progresso dependerá de memorização, repetição e avaliação segundo um modelo preciso, aquele corporificado no mestre. Queremos ser como as pessoas que admiramos, e queremos ser capazes de movimentos similares aos do mestre que escolhemos.

A hierarquia, a objetividade dos modelos e o aprendizado pela repetição são marcas da educação tradicional. Nenhuma escola de artes marciais pode abdicar desses parâmetros, ou do contrário as artes ali praticadas morrerão.

III.

Mestre Pedro insistia na necessidade de estabelecimento de formas fixas em artes marciais para que, quando mais adiantado em seu aprendizado, o aluno pudesse se livrar delas, na medida em que as dominasse. Citava a definição que Bruce Lee deu às formas marciais: “desespero organizado”, isto é, uma falsa segurança, a qual levaria o lutador a iludir-se acerca de suas reais capacidades numa situação de confronto, na qual o imprevisto impera e o homem treme.

Lee chegou a vislumbrar a abolição das formas marciais. Mestre Pedro considerava isso coisa impossível e, pior, uma fuga da verdadeira questão: o objetivo da fixação das formas não é prender-se a elas, é livrar-se delas; aquele que domina uma grande variedade de formas e de situações paradigmáticas de combate está preparado para transitar, com menor perigo, por outras formas e situações análogas. O lutador precisa primeiro construir as formas, dizia Mestre Pedro, para depois desconstruí-las. Mestre é aquele que desconstrói. Aquele que em toda forma é capaz de perceber o seu vazio, a sua informidade fundamental.

Não é por outro motivo que um pintor deve dominar os princípios do desenho, mesmo que não os empregue rigorosamente em suas obras; que um poeta deve dominar os princípios da métrica, mesmo que pareça escrever os versos mais livres já ouvidos. As características dos gêneros literários, como sistema abrangente das possibilidades de conformação de limites numa obra, devem ser aprendidas para que em algum momento sejam esquecidas.

A naturalidade, em qualquer arte, é artificial. Toda espontaneidade deve morrer, a fim de que o rigor macere o espírito, crie uma disposição dúctil no indivíduo. Aquela massa amorfa será fixada, até mesmo violentada para que condiga com um molde. E por fim o molde será atirado ao lixo. A naturalidade, aquela senhora gorda, surge agora toda leveza, prontidão, maleabilidade ativa.

IV.

A ideia de forma nasce da ideia de limite, e a ideia de limite nasce da linha do horizonte: não somos capazes de ver além dela, nossas mãos não a alcançam. Quando pensamos em limite, pensamos em linha, e a linha, mesmo quando vista na vertical, é de algum modo compreendida por sua horizontalidade potencial.

Percebemos partes e todos, todos como partes, porque somos capazes tanto de concretizar quanto de abstrair os limites dados em tudo aquilo que percebemos. Consigo compreender a porta de minha casa como um limite entre esta e a rua. Mas também consigo compreender a porta de minha casa como uma continuidade entre esta e a rua, como a própria possibilidade de estabelecer uma ligação entre minha vida dentro de casa e minha vida na rua. Limite é a realidade metafísica mais patente. “Ser” e “forma” parecem, sob esse aspecto, realidades segundas, mais distantes.

Num confronto real, numa luta sem regras, as formas marciais se dissolvem e resta apenas a realidade do limite: o corpo do adversário com seu espaço de entrada e saída, de aproximação e distanciamento.

V.

Mestre Pedro, faixa preta em Wing Chun formado junto à Fraternidade Kung Fu (à época dirigida por Marco Natali), mais tarde se incompatibilizaria com a política de linhagens marciais.

Numa outra escola tradicional, mencionaria sua admiração por um praticante chinês de kung fu. Um conhecido representante de Wing Chun no Brasil, que o ouvia, abriu um livro, pesquisou nele o nome ouvido e disse em seguida: “Essa pessoa que você menciona não é mestre de artes marciais. Seu nome não consta em nenhuma linhagem”. Foi a gota d’água para Mestre Pedro: ele próprio aprendera mais por autodidatismo que por qualquer outro meio; não concebia que a maestria de alguém pudesse ser avaliada por aquele procedimento cartorial.

VI.

Várias vezes, ao repetir formas de Wing Chun, perguntou a mestres quais eram as aplicações daqueles movimentos. Respondiam-lhe mostrando golpes que lhe pareciam absurdos, de uma ineficiência total; outras vezes lhe diziam que não havia aplicações, que aqueles movimentos eram apenas “demonstrativos”.

Incomodado, começou a testar por conta própria as possíveis aplicações dos movimentos. Incorporava-os de tal maneira ao seu repertório, àquela naturalidade artificial, que passava a especular acerca deles como quem os tivesse acabado de criar. Para algumas formas encontrou aplicações imprevistas, fortes e eficientes em luta; para outras pensou encontrar suas prováveis aplicações, mas estas não lhe agradaram.

Numa fita VHS, assistiu a algo decisivo. Ali, um mestre chinês fazia justamente o trajeto que lhe interessava: retornava das formas fixas às atitudes marciais ofensivas ou defensivas de que haviam surgido. Aquele mestre mostrava que a intuição fundamental de Mestre Pedro era correta. Que o aspecto artístico não poderia se separar do aspecto marcial. Que o caráter artístico estava justamente na marcialidade.

VII.

Jonathan Clements explica em A Brief History of Martial Arts a origem da falsa oposição entre arte e técnica marcial. Defende que tudo o que conhecemos como arte marcial surgiu pura e simplesmente como técnica de matar. Na China, quando um clã de guerreiros se tornava dominante numa dinastia, seus representantes mais eminentes aposentavam as armas e passavam a só empunhá-las em apresentações na corte. Com o passar do tempo, aquelas técnicas de matar se tornavam não mais que um conjunto de adornos, ricos o quanto fossem, culturalmente estimulantes o quanto fossem, que identificavam certa nobreza. Grande parte das escolas mais antigas de kung fu sobreviveu dessa forma, a ponto de alguém como Mestre Pedro ter dificuldade em reencontrar a rota original do combate. Interessava-lhe não só meditação, mas também punho. Zen Chuan Dô: “O Caminho do Punho e da Meditação”.

VIII.

No Zen Chuan Dô, as aplicações marciais precederam sua fixação em movimentos a serem acumulados nos taos (ou katis), os “caminhos” ou conjuntos de formas correspondentes a cada faixa. Nenhum movimento nos taos é meramente “demonstrativo”: todos têm aplicação direta em combate, e muitas vezes aplicações de uma brutalidade marcante, bela.

Só quem tivesse experimentado extrair de meras formas a sua possível valia em luta poderia ser capaz de formalizar em movimentos fixos todo um sistema de defesa pessoal. Sozinho, em São Luís do Maranhão, sem nenhuma tradição marcial sólida ao seu redor, um homem conseguiu descobrir e refazer por conta própria o caminho que todo criador marcial faz, sem que saibamos nós muito bem como. Ao ver e ouvir Mestre Pedro, entendi qual é o processo cultural inerente à criação das artes marciais.

Inclusive porque ele não se fechou às ferramentas herdadas do kung fu. Como uns bem poucos outros mestres de artes tradicionais – ocorre-me agora o caso de Didier Beddar, na França –, Mestre Pedro não pôde ficar indiferente ao jiu-jitsu e ao escândalo que foi a atuação de Royce Gracie em três das primeiras edições do UFC. Naquele momento, por volta de 1994, ele estava estruturando os primeiros taos do Zen Chuan, estudando aplicações que iam além do repertório comum do Wing Chun. Percebeu que o kung fu, para sobreviver no Ocidente, precisaria incorporar técnicas modernas de confronto esportivo ao acervo de defesa pessoal. Logo, seria impossível continuar ignorando a luta de solo (sei que em certas escolas de kung fu existem alguns golpes e chaves muito antigos que se dão no chão, mas isso passa longe de sugerir um sistema inteiro de combate baseado no solo).

Mestre Pedro foi à biblioteca da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) em busca de livros sobre judô. Depois, caiu-lhe à mão um livro em inglês também sobre artes japonesas. Com o quase nenhum conhecimento que tinha à época desse idioma e com o auxílio de um amigo, foi vencendo a leitura e levando para a sua modesta academia – Instituto Garras – técnicas de projeção a serem testadas. Mas o que vinha após a projeção se tornava mais delicado de dominar. Naquele momento, existia em São Luís um único professor de jiu-jitsu, James Adler, ainda na faixa azul, se recordo bem. Era uma arte quase desconhecida; e, quando conhecida, mal vista.

Mestre Pedro travou amizade com alguém que lhe apresentou algumas técnicas e que lhe emprestou um VHS em que Renzo Gracie ensinava defesa pessoal. Assistiu àquelas lições incontáveis vezes, com caderno e lápis na mão. Depois veio uma circunstância favorável: alugou o espaço de sua academia, nas horas vagas, a um professor de jiu-jitsu que passou a dar sua aulas ali. Mestre Pedro agora tinha com quem treinar a luta de solo com frequência.

Se você olhar alguém do Zen Chuan lutando, terá a impressão de que assiste a um lutador de MMA que, para além disso, é dotado de grande capacidade criativa, pois se vale de um acervo de técnicas totalmente desconhecidas ao vale-tudo. É o kung fu a viver dentro de uma modalidade moderna de esporte de combate.

Feliz ou infelizmente, Mestre Pedro não tinha a ambição de formar lutadores para subir em ringue. Dizia até que quem quisesse fazê-lo, bom, que o fizesse, mas que seu interesse era educar gente. Talvez esse tenha sido um erro estratégico para quem, nas condições mais desfavoráveis, ousou desenvolver um sistema marcial em São Luís do Maranhão. Talvez.

IX.

Tive o privilégio quase imerecido de conhecer esse homem. Ao lembrar agora que está morto, que não poderei mais ouvi-lo, sinto uma leve punção de desespero que me entrasse como uma lâmina pelas costelas. Sua arte permanece, sem dúvida, ainda que sob os cuidados de um círculo muito pequeno de pessoas. Se o Zen Chuan desaparecesse da face da terra hoje mesmo, como ocorreu a incontáveis estilos marciais ao longo da história, ainda assim os esforços de Mestre Pedro estariam justificados. Muita gente aprendeu muito com ele. Aprendi a ver mesmo quando não sou capaz de defender, aprendi a tocar mesmo quando não sou capaz de quebrar.


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Comentários

2 respostas para “O visto e o tocado”

  1. Avatar de Felipe Rodrigues
    Felipe Rodrigues

    Magnífica exploração do tema, é pena que o afegão-médio brasileiro não esteja interessado em aprender algo realmente importante.

    Há algum tempo, lendo a respeito de metodologias ágeis – burocracias da área em que eu resolvi extrair dinheiro, deparei-me com o Shu Ha Ri. Como já era particularmente afeito à filosofia oriental, sobretudo a ‘Os Analectos’, pude regozijar-me com esta belíssima síntese de várias das sentenças de Confúcio.

    E eis que reencontro o tema aqui, despretensiosamente, procurando um material para uma futura aula.

    Shu – Apenas repita. Todo o esforço está em habituar-se meticulosamente nos movimentos propostos.

    Ha – Após longo período de práticas incansáveis, estás pronto para adicionar alguma particularidade.

    Ri – Liberte-se completamente das formas, elas já fazem parte de você.

    “(…) Aos 70 anos, sigo todos os desejos do meu coração sem transgredir nenhuma regra.” – Confúcio (Mestre Kong);

    Muito obrigado, Ronald.

    1. Avatar de Felipe Rodrigues
      Felipe Rodrigues

      Pequenas correções que o substack não me permite fazer:

      *Pensando bem, depois do “Magnífica exploração do tema” o melhor seria um ponto.

      **”meticulosamente AOS movimentos”

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