A cultura popular brasileira, fonte de algumas das maiores criações da inteligência nacional, tornou-se há décadas cativa ideológica de quem é incapaz de perpetuá-la.
Até meados do século XX, o estudo da cultura popular brasileira era domínio quase exclusivo de temperamentos conservadores.
Veja que falo de temperamentos conservadores, e não de conservadorismo ideológico ex professo. O promotor Celso de Magalhães, o poeta Gonçalves Dias e o historiador Silvio Romero são exemplos incontornáveis no século XIX. As inclinações liberais daquele primeiro não fizeram senão acentuar seu apego às tradições nacionais, às tradições do povo pobre, as quais ele começou a pesquisar quando estudante de direito na Faculdade do Recife e que continuaria a pesquisar quando, já regressado ao Maranhão, fez a sua trágica carreira de magistrado. O poeta nacional era um nostálgico completo, e suas pesquisas históricas e indianistas andavam de mãos dadas com um apreço pelo cancioneiro ibérico — vejam-se suas Sextilhas de Frei Antão, hábil monumento de anacronismo — e pela monarquia de D. Pedro II. E Romero, um retrógrado se comparado, por exemplo, ao maior crítico da época (Araripe Júnior) e ao antípoda José Veríssimo, mostrou-se de uma paciência beneditina na recolha de contos e cantos de todos os quadrantes da nação.
Para tomar ao acaso alguns nomes do século XX, Mário de Andrade, poeta péssimo e ficcionista débil — ainda que “Carta pras Icamiabas”, em Macunaíma, seja prosa impagável —, foi um pesquisador heroico que jamais conseguiu ir além dos hábitos atávicos do típico recompilador de informações pertinentes às práticas do povo: fez-lhe bem na investigação folclórica o que lhe fez mal na invenção literária, isto é, sua relativa incapacidade de ser moderno (o que inclusive discuto no ensaio “Elegia inacabada”, presente em O que restou de 22). E mais ultimamente José Ramos Tinhorão, por mais progressista que se acreditasse com suas ideias de esquerda, foi um reacionário cultural, felizmente capaz de recusar méritos à bossa-nova e à Tropicália.
Precisarei citar os nomes de Gilberto Freyre e Câmara Cascudo? E de Gustavo Barroso, autor do enciclopédico Ao som da viola (1921) e fascista, radicalmente fascista, a ponto de ser malvisto pelos colegas de integralismo? Precisarei lembrar que meu conterrâneo Antonio Lopes, autor de Presença do romanceiro (1967), tinha ojeriza de falsos modernismos?
Se é verdade que a pesquisa da cultura popular no Brasil foi ocupação especial de temperamentos conservadores, nem por isso deixa de ser verdade que, maravilhadas no século XIX com tudo quanto vinha de Paris, nossas classes mais abastadas passariam a recusar o elemento negro, indígena ou vagamente “popular” nas formas de expressão do povo e até da cultura de elite, problema que volta a nos afligir, conforme discutirei ao fim do texto. Mas falo por ora de outro: a par dessa discriminação mais antiga, no último meio século surgiu outra talvez ainda mais nociva.

No artigo “A arte popular no Brasil” (1969), Ariano Suassuna assinala o que, a meu ver, é um ponto de viragem no tratamento de nossas tradições por parte dos progressistas. Escreve ele (às pp. 154-155 de Almanaque armorial):
Infelizmente, porém, não é este o único equívoco, a única discriminação existente na Cultura brasileira por causa das paixões políticas [referindo-se àquela das elites à francesa]. Existe, também, a discriminação contrária: os meios radicais e sectários da Esquerda criam também a sua. Quando nós afirmamos a existência de uma Literatura popular brasileira, os críticos e teóricos de Esquerda na mesma hora batem palmas, juntando entusiasticamente suas vozes à nossa. Mas, a partir daí, não se conformam com as liberdades amplas da criação: querem, também, “purificar e expurgar”, limitando os interesses dos artistas e do Povo, de acordo com cartilhas e esquemas. Não se conformam com o fato de o Povo não se pautar, em suas criações, por tais cartilhas, e querem nos impor, por outro lado, outra discriminação, desta vez a deles, dirigida contra toda a nossa cultura europeia, contra toda a tradição da Cultura mediterrânea, aquela mesma identificada por Mao Tsé-tung com a “cultura burguesa”, numa interpretação abusiva e sem dúvida tendenciosa. Primeiro, porque a cultura europeia, principalmente a ibérica, que forma uma raiz-tronco da Cultura brasileira, está povoada de elementos populares. Isto desde começos, como já mostrei: se Virgílio e Camões pertencem a uma corrente mais polida, erudita e livresca, Homero, Cervantes e Gil Vicente são clássicos mais ligados à áspera e forte corrente da Literatura popular — aos cantos dos aedos, às gestas do Romanceiro, às novelas, contos e racontos orais, às festas populares representadas nos tablados das praças públicas.
A atenção do progressista à cultura popular não se traduziu em um empenho com os modos de vida que fizeram nascer essa cultura. O progressista quis aproveitar do povo apenas o que superficialmente se poderia tomar como arma de protesto contra as classes dominantes (ou pelo menos contra a moral dominante), como documento antropológico de uma contradição capaz de esgarçar o tecido social. O resultado mais imediato desse equívoco foi, como percebe Suassuna, cortar o nó umbilical que unia algumas das mais altas produções da inteligência brasileira, rejeitadas como elitistas ou pelo menos desinteressantes pelos ativistas (obras como Os Sertões, Cangaceiros, Casa Grande & Senzala, Grande Sertão: Veredas, ou a Bachiana nº 5), àquele veio popular que ia dar no cancioneiro ibérico medieval e até nas raízes da cultura mediterrânea, da cultura ameríndia e de povos africanos.
O resultado mais nocivo, contudo, só poderia ser percebido décadas depois. O progressista que sai de seu apartamento em bairro de classe média ou classe alta e vai até o barracão de um batalhão (ou grupo) de bumba-meu-boi, aqui em São Luís, considera esteticamente aprazível — ou revolucionariamente empolgante — que uma toada seja cantada diante de uma imagem de São João, embora ele estivesse horas antes escrevendo em suas redes sociais que a Igreja Católica é uma instituição opressiva que impede ao povo notar os grilhões que impedem sua libertação. Mas quem vive de fato os fatos básicos, fundadores de festas como a do São João ou a do Divino Espírito Santo, tem outra experiência do tempo e da tradição. Os grilhões lamentados pelo jovem de esquerda eram celebrados por um cantador como Ivaldo Onça, que esteve muitos anos à frente do batalhão da Madre de Deus. Chamou festivamente a um álbum do boi, justamente, Grilhões da Tradição.
Dos Centros de Cultura Popular (CPCs) que o Partidão articulou na década de 1960 até os Pontos de Cultura que os governos do PT espalharam pelo país nos últimos 20 anos, abriu-se a estrada que hoje leva ideólogos universitários até os centros de produção cultural das periferias mais ligadas às tradições locais. Como o homem do povo, pobre, que sofre muitas dificuldades para colocar seu boi todo ano no terreiro não pode se dar ao luxo de recusar o dinheiro que políticos lhe oferecem, acaba tomando gota a gota, concessão a concessão, o veneno que mais à frente matará a fé católica e a naturalidade de vivência que tornaram possível o bumba-meu-boi.
Não me entendam mal. Cresci acompanhando meu pai por arraiais, ele que desde a infância brincou boi (embrenhando-se na mata à noite com um guia para chegar a um quilombo em festa) e por 17 anos foi cantador e compositor do Boi de Axixá, do qual hoje só sobrevive o nome, tantas as alterações pelas quais passou de 2010 para cá, o que ainda é causa de muito desgosto a papai. Cresci vendo caboclo beber leite de onça (conhaque de alcatrão misturado com leite condensado) e bordadeira dando ponto nos canutilhos de um couro de boi. Assim como ele, que vivia em dois mundos, o de bancário e o de boieiro, tive de nos meus últimos 15 anos de vida atar as pontas de mundos muito diversos, ao me dar conta da extensão em que minha sensibilidade fora ferida — e repetidamente sarada — pelo bumba-meu-boi. Sei como é me sentir parte de algo em que sou estrangeiro; sei como é urgente buscar recuperar algo cujo valor hoje mal somos capazes de aquilatar.
Por isso realmente sinto simpatia e união com o brincante de esquerda que frequentemente encontro ao meu lado quando bato matraca ou esmurro pandeirão acompanhando o Boi da Maioba ou o Boi Unidos de Santa Fé. Sem ele, a brincadeira não teria a força que hoje tem. Mas sei também que, com ele, amanhã ela já não terá força alguma. Já se veem em vários grupos os efeitos de ideias da pior esquerda contemporânea chegarem às letras e às danças, desfigurando de todo o bumba-meu-boi. A brincadeira já vinha há quase três décadas sendo acossada pelo mercado turístico, que a assedia para torná-la kitsch e domesticá-la (como aconteceu ao boi de Parintins, no Amazonas), isto é, capaz de ser aprazível a sensibilidades afeitas ao brilho fácil — esse é, em especial, o caso dos bois de certo estilo mais recente, o sotaque de orquestra, como o mencionado Boi de Axixá. Nos últimos anos, por outro lado, as pautas de minorias e o discurso identitário têm mostrado com clareza cada vez maior o quanto são incompatíveis com algo como o reinado de Maracanã.
O Boi de Maracanã, um dos mais tradicionais no sotaque da ilha (ou de matraca, pelo imenso volume sonoro que esse instrumento popular tem no estilo), difundiu desde os anos 1980 uma mitologia toda particular. Décadas à frente do batalhão esteve o cantador Humberto, o “Guriatã”, em referência ao pássaro belíssimo preto-amarelo-azulado (tradicionalmente, cada cantador desse sotaque tinha o seu pássaro totêmico).
Em suas toadas, Humberto invocava a “Musa dos Poetas” para que o auxiliasse a melhor celebrar a “encantaria”. Para ele, como para o homem do povo de certas partes costeiras do Maranhão, o Rei Sebastião permanece encantado. Não tendo morrido na Batalha de Alcácer-Quibir, encontra-se nos Lençóis Maranhenses, de cujas águas emerge sob a forma de um touro negro com uma estrela na testa para brincar sob a luz da lua no mês de junho. Paralelamente, em Cumã, a capitania que hoje é a Ilha de Alcântara, vive uma sereia: é a Sereia de Cumã a quem Humberto dedica tantas toadas, unindo o mito português a um mito maranhense. O Maranhão onde pregou o Padre Antonio Vieira seria o abrigo natural do poderio espiritual português, e nos cantadores de bumba-meu-boi o malfadado rei luso teria os seus servidores mais fiéis. Esses cantadores terão de disputar a primazia junto ao encantado. E a primazia, pensava Humberto, caberia ao Boi de Maracanã, como canta nesta toada (da qual há também uma versão bonita de Maria Bethânia):
A coroa ainda existe
O rei Januário não levou
Velho amo do boi, já falecido, Januário não levou consigo a coroa. Mas ela tampouco ficou sob a guarda de outros batalhões, conforme Humberto vai enumerando, até reivindicá-la para si:
Não está no Iguaíba
Não está na Maioba
Não está na Pindoba
No Ribamar piorou
Quem usa ela é o Guriatã
Está no Maracanã
Que São João entregou
Agricultor e boieiro, Humberto morreu em 2015, após ser por 34 anos amo de Maracanã. E a coroa? Ribinha, filho seu que hoje está à frente do boi, canta pelos arraiais:
A coroa ainda existe
E o nosso Rei Humberto não levou
(...)
Quem usa ela são os filhos do Guriatã
Está no Maracanã
Que nosso pai nos deixou
E é de se imaginar que o Reinado sobreviverá aos filhos do Guriatã. Sobreviverá?

A questão me angustia, não só porque a fé em Jesus Cristo e a vivência da espiritualidade cabocla (e algo pagã, “espírita”) de um Humberto são coisas inacessíveis ao progressista que não resiste ao chamado dos pandeirões, assim como são inacessíveis ao conservador brasileiro de hoje, pelo menos ao conservador típico, a expressão rústica das toadas e a ritualização festiva de boi e brincantes a correr o terreiro. O conservador hoje no Brasil é um indivíduo desterrado, uma espécie de millennial paulista arquetípico que não sabe a história do bairro onde mora e só descobre aquilo que se torna o centro de seus interesses olhando para muito longe do que está ao seu redor: olhando para a Europa, onde ouve um Roger Scruton; ou olhando para a América do norte, onde ouve um Jordan Peterson. De saco cheio de décadas daquilo que Lobão acertadamente chamou de “Máfia do Dendê”, tudo o que cheire a cultura popular (que ele irá confundir, por exemplo, com o que a indústria fonográfica chama de “MPB”) irá lhe causar desconfiança. Ele está interessado em alta cultura — e nisso está tão correto quanto está equivocado ao fazer uma oposição total (lembrem-se da citação de Suassuna mais acima) entre esses estratos da cultura e aquilo que é legítima expressão das tradições populares. O problema do funk proibidão não é que ele seja uma expressão popular. Seu problema é que não seja realmente popular, isto é, tradicional e naturalmente nascido da vivência de uma comunidade.
A solução do problema não se encontra em reunir nos arraiais mais pandeireiros de direita do que pandeireiros de esquerda. Não se encontra em simplesmente viver o período junino de forma ritual, o que aliás é perfeitamente possível sem recurso a bumba-meu-boi, e me desculpo pela obviedade. De certa forma, não acredito em nenhuma solução clara, e pode ser que daqui a 50 anos só sobrevivam resquícios inautênticos da brincadeira, de todo reduzida a um entrudo genérico. É bem possível.
Sei de uma coisa, porém, e é esta. A cultura popular pode ser ignorada por gênios criativos muito peculiares, mas não pode ser ignorada pela maior parte do povo sob pena de grave desorientação cultural e anomia social. Na modernidade, desde os primeiros filólogos compiladores de fábulas no início do século XIX, o intelectual muitas vezes desempenhou um papel salvífico na manutenção de um patrimônio comum, o qual torna possível ao criador cultural sofisticado compreender o criador cultural mais rústico, o qual, às vezes, ainda será capaz de apreciar algo da criação cultural daquele primeiro. A vitalidade de algumas culturas, como a russa, explica-se pelo processo constante de retroalimentação que erudito e homem do povo mantiveram por séculos.
Se não formos capazes de criar novas formas de expressão de nossas vivências mais simples, se não formos capazes de restaurar alguma percepção mais direta da paisagem e dos problemas morais brasileiros, de nada valerá todo o discurso em defesa da tradição e da alta cultura. Você pode ser progressista ou conservador, mas precisa de todo modo olhar o que se passa ao seu redor, inteirar-se da história de sua família e de sua cidade, e esforçar-se para perceber quais outras vozes falam através da sua voz.
A tradição, a verdadeira tradição, está em você. E, se você não a conhece, é por desconhecer-se.
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