Neste momento de transição, novos circuitos de difusão do saber nos permitem repensar as ferramentas usuais das Humanidades e das artes. O Ocidente — adeus! — ficou para trás.
Se você estiver lendo este disparo como um e-mail em sua caixa de entrada, clique aqui para assistir ao vídeo acima. O texto abaixo é uma versão paralela — em parte coincidente, em parte divergente — do que exponho nessa gravação.
Convivium – Seminário Permanente de Humanidades nasceu em 2022 do entendimento de que vivemos um momento de transição. Como em toda época de incertezas, de contornos indefinidos, vemo-nos um tanto confusos, em geral incapazes de alcançar alguma criação original tanto em espaços institucionais tradicionais (as universidades, por exemplo) quanto em novos espaços que começam a se firmar (as iniciativas independentes online).
Por um lado, as instituições universitárias, mesmo em seus melhores departamentos, tornam-se cada vez mais incapazes de produzir trabalho de valor perdurável que vá além das rotinas estabelecidas numa área de pesquisa. Os males da especialização excessiva são os mais conhecidos: quanto mais o indivíduo conhece um único aspecto de um único tema em determinado campo do saber, menos aquilo que ele alcança se parece com um conhecimento autêntico, pois paira no ar, sem contexto, origem nem destino.
Também são muito conhecidos os males da politização das Humanidades, pela qual a militância assume o lugar do ócio. O ócio, recordem, está no origem do termo grego para designar o erudito, o “skholiastês”: o indivíduo que cessou de agir para tornar-se capaz de compreender o que está diante dele. As ideologias matam esse saudável ócio.
Acredito, contudo, que a superespecialização e a ideologização do conhecimento, por piores que sejam, estão entre os males menos nocivos com que deparamos hoje, ou na verdade são só sintomas de males bem piores.
Existe uma realidade mais abrangente e opressiva. A vocação intelectual autêntica, com todos os seus riscos e bem-vindos imprevistos, tem se transformado nas universidades em não mais que uma profissão entre outras, com currículos artificiais e planos de carreira que cada vez mais se tornam o objeto principal de preocupação de quem supostamente se dedica com liberdade à busca do conhecimento. “Publish or perish”, “publique ou pereça”, é a regra na academia, a qual sofre, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos, de uma superabundância de doutores desempregados. Há gente demais a buscar emprego num mesmo setor, e então ocorre nesse setor, o setor universitário, o desemprego que conhecemos em incontáveis outros setores. No Brasil há quem busque remediar essa situação criando a sua própria pós-graduação a distância (lato sensu). Assim têm surgido aos montes as pós-graduações de um homem só e sua meia dúzia de colegas. Isso não é um remédio: é apenas um reforço da situação calamitosa em que nos encontramos.
Mas é possível pensar em alternativas.
Quando o profissionalismo encontra o amadorismo
Para o intelectual verdadeiro, para a pessoa que não sabe fazer outra coisa além de empenhar-se em compreender o que está ao seu redor e viver a realidade à máxima potência, esse desemprego formal se torna uma oportunidade. E é através dessa oportunidade que o amadorismo hoje dominante nos meios on-line de autoeducação poderá encontrar um caminho até o amadurecimento, até a pesquisa original, até o gênio criativo.
Não acredito, vejam bem, que seja possível melhorar a situação das universidades mesmo a longo prazo. As universidades como as conhecemos talvez ainda perdurem institucionalmente por décadas ou mesmo séculos, mas estão desde já feridas de morte. A época história e as condições sociais que tornaram a universidade moderna possível ficaram no passado. Não admitimos mais com a mesma facilidade a ideia de que uma única instituição possar centralizar a produção de saber, como antes de nós admitiram os escolásticos e os filósofos que arquitetaram o sistema universitário alemão.
Pior ainda, não existe mais consenso entre os acadêmicos acerca da finalidade da própria academia. Foi esse consenso mínimo que permitiu às universidade sobreviver às mais diversas modas acadêmicas. Hoje, o multiculturalismo e a ideologia identitária questionam a própria ideia de que uns saberes possam ser mais importantes que outros. Se é assim, por que uma universidade deveria gozar de mais prestígio que uma roda de amigos conversando de maneira desinteressada acerca daquilo que leem e estudam?
A situação é confusa: professores universitários despejam ano a ano incontáveis artigos e teses pelos quais defendem profissionalmente a sua posição de privilégio, mas ao mesmo tempo combatem a própria ideia de conhecimento de elite que torna defensável essa posição de privilégio. E, de sua parte, as iniciativas independentes, principalmente as que ocorrem em ambiente on-line, são marcadas por imenso amadorismo e por uma vaga comunidade de desejos e ideais.
Convivium pretender agir nesse contexto.
Neste momento de transição, cada vez mais professores, pesquisadores e alunos mundo afora buscam criar de forma independente os seus próprios meios de realizar-se intelectualmente e garantir as mínimas condições para a sua sobrevivência. Dos muitos exemplos possíveis (aos quais ainda irei retornar no futuro), recordarei agora apenas o de Justin Murphy e seus projetos Other Life e IndieThinkers.
As ferramentas da pesquisa erudita precisam ser transportadas para novos meios, novas comunidades, novos círculos de consenso mínimo acerca da finalidade da vida intelectual. Precisamos desenvolver modelos descentralizados de rotina criativa e de pesquisa que sejam ao mesmo tempo exigentes e livres. A liberdade precisa reencontrar o rigor. E não é só: precisamos repensar as próprias ferramentas do erudito e verificar se a ideia de conhecimento suposta nelas nos será de alguma serventia neste novo momento histórico.
Projeto humanista
Grosso modo, chamo de projeto humanista o impulso de alcançar com a mente humana o conhecimento maximamente objetivo, porém o alcançando de um modo que simula não recorrer à mente humana.
É um projeto autocontraditório, um projeto que entra em curto-circuito na medida em que desconsidera que toda objetividade, para nós, só pode ser alcançada por meio da subjetividade, da “mente”. O problema da modernidade não é tanto o “individualismo”, o “subjetivismo”, a pretensão de tudo conhecer a partir da mente humana; o real problema está em fingir que conhecemos a realidade como se fôssemos seres de impessoalidade absoluta, e não como se fôssemos aquilo que de fato somos: indivíduos humanos. O conhecimento dito “impessoal” é uma descoberta feita por pessoas.
Dito de outro modo, o projeto humanista falha ao não ser radicalmente “subjetivista” e “individualista”: se o fosse mesmo, teria alcançado um nível mais alto de pessoalidade. Faz contudo cerca de mil anos que encetamos uma rota contrária a essa pessoalidade, e desde então construímos barreiras e mais barreiras que nos impossibilitam recordar o caminho até ela.
Essas barreiras, essas verdadeiras represas de conhecimento que se identificam historicamente com vários “humanismos”, não surgem já prontas no ar. Elas precisam ser construídas. Nós sabemos bem como construí-las, nós nos tornamos muito bons em construí-las, sabemos de que ferramentas precisamos nos valer para tanto: as ferramentas da pesquisa erudita.
Toda a tradição mais ou menos contínua de estudo das letras humanas e das letras divinas que vai da Antiguidade ao Renascimento pode ser, bem ou mal, abrangida sob o nome de filologia, a disciplina geral de estudo das línguas e de toda e qualquer realidade atinente a textos. A filologia está na base das Humanidades modernas, tais como se estruturaram universitariamente no século XIX. É nela que se formaram — e a partir dela se disseminaram — as ferramentas da pesquisa erudita que empregamos, como construtores cegos, no projeto humanista.
A filologia carrega consigo os três critérios básicos de pesquisa que construíram nossa civilização no último milênio: o critério histórico, segundo o qual a avaliação de um acontecimento ou dado depende de sua perfeita situação na sucessão histórica; o critério comparatista, segundo o qual é possível e necessário estabelecer relações entre dados diversos em diversos campos do conhecimento segundo algum padrão de analogia; e o critério linguístico, segundo o qual está na linguagem, especialmente na linguagem escrita, a marca principal de uma cultura ou modo de pensar, modo esse de pensar que será mais expressivo que os indivíduos em particular que se valem dessa linguagem. Nesses três princípios — que hoje nos parecem óbvios tão logo expressos, coisa acima de qualquer controvérsia — estão as vigas mestras das Humanidades e do pensamento próprio ao projeto humanista.
A alegoria do mundo
Qualquer revisão de nosso percurso histórico deve passar pela revisão desses três critérios. Justamente neste momento de transição, penso ser boa oportunidade para revisitarmos essas bases da erudição e meditar o quanto elas expressam ou não o destino do humanismo até este momento histórico. Acredito, mais ainda, que seja possível rever toda a história da modernidade como uma grande alegoria, o que chamo de Alegoria do Mundo. O pensamento alegórico se tornou o mais distintivo modo de expressão nos últimos séculos, das artes às ciências. Esse fato pode ser enxergado por meio do protagonismo de três personagens-tipo, o Mago, o Filólogo e o Colonizador. São eles que nos acompanharão neste novo módulo de Convivium.
Neles estão condensados os quadros sociais mais particulares da modernidade nos séculos XIV, XVI e XIX, respectivamente. Neles vemos com clareza diferentes facetas do projeto humanista e daquilo que venho chamando de nova aposta de Pascal, uma doença espiritual que resiste a secularizar-se. E é também a partir deles que nós, latino-americanos e brasileiros, segundo a apropriação que fizemos e ainda faremos das ferramentas que eles criaram, poderíamos rever nosso lugar do mundo e o destino de nossa criatividade.
A Alegoria do Mundo dos europeus encontrou o seu fim no Novo Mundo, isto é, nas Américas. Nós já fomos o futuro do Ocidente. Hoje será mais correto dizer que o Ocidente é o nosso passado. Somos pós-modernos de nascença, mas nossas verdadeiras potencialidades ainda estão à espera de realizar-se. Cabe a nós fazê-las acontecer.
O terceiro módulo de Convivium é o passo mais audaz que dou nesse sentido. Inscreva-se (com desconto até quinta-feira).
Sobre o terceiro módulo de Convivium
O sucesso de Convivium depende de que os participantes adquiram uma postura mais ativa e criativa perante o universo da cultura. A pesquisa e a criação não ocorrem de súbito; necessitam de esforços, tempo e paciência, necessitam de humildade e disposição para mudar de rumo sempre que novos problemas assim exigirem.
Por isso, Convivium irá mostrar aos participantes uma pesquisa em andamento ao longo de um ano. Todo mês, teremos uma aula ao vivo, na qual os alunos poderão fazer comentários e tirar suas dúvidas (as gravações ficarão disponíveis). Além disso, os alunos também receberão em um grupo exclusivo no Telegram uma aula pré-gravada que servirá de complemento. No total, portanto, teremos 24 aulas ao longo de 12 meses.
Num nível mais pessoal, meu principal objetivo neste novo módulo (que pode ser acompanhado sem problemas por quem não tiver sido aluno dos módulos anteriores) é concluir o ensaio O Destino do Humanismo, registro final de quatro anos de investigação do projeto humanista. Três excertos do livro serão apresentados aos alunos, a fim de que o discutam, comentem e critiquem. Eles (isto é, vocês) me ajudarão a escrever esse livro.
A primeira aula ao vivo será nesta quinta-feira (2 de maio). Aqueles que assim quiserem poderão garantir seu acesso também aos dois módulos anteriores de Convivium. O primeiro se chamou justamente “O Destino do Humanismo: uma leitura do Fausto de Goethe”. Já o segundo se chamou “Os Livros da Vida: Abelardo, Dante, Cardano, Santa Teresa”.
Para conhecer melhor os módulos anteriores e ler um programa detalhado do novo módulo, baixe o e-book de Convivium.
Leia mais textos pertinentes à investigação que realizo em Convivium:
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