Ofício divino
Dos Cadernos de Filosofia Adiada
Antes de explicar no vídeo abaixo os motivos que me levam a crer que a vida filosófica autêntica tende a se realizar de modo especial através de ritos, preciso fazer um breve relato sobre as origens dessa meditação.
Faz dois anos que conheci a obra de Peter Kingsley, veículo de uma das críticas mais penetrantes à filosofia de que tenho notícia porque realizada a partir do coração da Antiguidade mediterrânea, da cultura grega, dos primórdios da filosofia, na verdade dos primórdios de nossa civilização, cuja memória Kingsley resgata. É, forcemos um pouco a barra, uma filosofia para acabar com todas as filosofias, ou para fazer a filosofia involuir ao útero divino do qual saiu e se esqueceu. O filósofo britânico não quer corrigir o curso da história da filosofia; quer mostrar que a filosofia foi um erro.
Vicente Ferreira da Silva, do qual tenho tratado numa série de vídeos veiculados nesta newsletter, havia preparado minimamente o terreno para mim, de modo que a obra de Kingsley não me surgisse inteiramente alienígena. Também Vicente estava em busca de um discurso que nos oriente de volta para a Origem, que nos habilite a pensar não só para além de qualquer historicismo, como na verdade para além de qualquer consciência histórica. O pensamento histórico, para ele, é fundado, não é fundador; é algo que nos arrasta adiante análise a análise, silogismo a silogismo, mas não garante o acesso ao mundo a ser analisado, a ser montado em silogismo. A objetivação do universo atenuaria, pouco a pouco, a hierofania que, a princípio, seria intrínseca a qualquer conhecimento. O lógos não conduziria à alétheia; conduziria ao esquecimento de que existe à nossa frente algo a ser revelado, a ser trazido à tona.
De todo modo, Vicente Ferreira ainda é muito intelectual, muito paulistano, viveu imerso no universo letrado terminologicamente denso do idealismo alemão e do último Heidegger, o que acarretava problemas que já discuti.
É também valiosa, bastante estimulante para a história das mentalidades, a ideia de que a modernidade não nasce de um desvio do espírito cristão, ao contrário é a última e mais acabada realização de uma cosmovisão que projeta um Eu na transcendência que se posiciona diante de um universo no qual os deuses não mais falam, porque foram investigados, controlados, administrados: isto é, exorcizados. Vicente Ferreira leva essa ideia bem longe.
De minha parte, primeiro a tinha encontrado na obra de outro brasileiro. Em Saudades do Carnaval, aos descrever as diferentes paideias da história europeia, José Guilherme Merquior desenvolve a reflexão weberiana sobre o elo entre Reforma e capitalismo e identifica, já em antigos contrapontos à vida monástica ainda no primeiro milênio, a tendência cristã de atirar-se ao mundo para conquistá-lo. Também em Jung, que acusou o cristianismo de “domesticar o sagrado”, encontrei há muitos anos um clima intelectual semelhante.
Em resumo: por diversas vias, algumas bastante pessoais, vim a me preocupar com o paradoxo de que, quanto mais conhecemos, mais nos afastamos daquilo que é conhecido (tema insinuado, por sinal, já no título do meu livro Contra a vida intelectual); quanto mais pensamos nos elevar espiritualmente, mais nos trancamos num mundo puramente mental; quanto mais nos empenhamos em salvar nossas almas, mais cegos nos tornamos à experiência que a alma efetivamente deveria ter do mundo, visível como invisível, em sua máxima evidência aos nossos sentidos. Para alguns, como Kingsley, o abandono não só da fé cristã, como de toda a cosmovisão que ela supõe, talvez impedisse que a experiência humana se reduzisse à mera materialidade, historicidade, inumanidade.
Não acredito nisso; acredito inclusive que a cosmovisão politeísta leve muito mais rapidamente ao silêncio dos oráculos, à transformação do cosmos em mera paisagem da ação humana — justamente o que politeístas contemporâneos tendem a criticar, com seu desprezo pelo “antropocentrismo”, pelo que chegam a chamar de “antropoteísmo”. Como escreveu um autor ligado ao Círculo de Eranos: “A partir do momento em que Jesus morre na cruz (…), deixa de existir qualquer lugar sagrado sobre a terra. Sagrado é o homem (…)”.
Há, contudo, um elemento nas tradições filosóficas não cristãs de grande importância e que, por desatenção dos filósofos (mesmo dos pios) nos últimos séculos, pouco a pouco perdemos de vista. Conforme comentava na semana passada durante uma aula da Iniciação à Filosofia com Éric Weil, mesmo o filósofo francês, tão atento aos aspectos concretos da prática filosófica, foi capaz de escrever 40 páginas sobre a categoria “Deus” em sua obra-prima sem em ocasião alguma sugerir, sequer de raspão, esse elemento central na vida religiosa, o qual foi levado à perfeição no mundo cristão: a vida como rito, o reconhecimento do saber mais alto como algo a ser oficiado no altar, tema que une as filosofias de um pagão como Jâmblico e de um cristão como São Máximo Confessor.
Nesse caso, ainda estaríamos em terreno propriamente filosófico? É mesmo legítimo falar, no caso de Máximo, de filosofia? Não sei. Admito, como já admiti antes, que não estou certo de que a filosofia vá existir sempre; novas formas de vida poderão sucedê-la, assim como ela própria sucedeu a outras que lhe eram anteriores. Tudo está por ser decidido. Mas, venha o que vier, sei que virá sob a forma de novos ritos.
Filosofia, rito, sacerdócio. Alguns exemplos (vídeo)
Seminário Impermanente #7
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