Uma investigação histórica e filosófica sobre as origens da modernidade e a rota de saída que o pensamento latino-americano oferece ao projeto humanista.
O retorno de um seminário impermanente
Uma história só subsiste em nossa consciência quando pode ser contada, e só pode ser contada quando, dotada de começo, meio e fim, começa a exibir seus contornos finais.
De minha parte, acredito que a história moderna já pode ser contada; mais que isso, que pode ser contada por meio de uma alegoria, bem aos moldes de um conto renascentista: é o que denomino Alegoria do Mundo, na qual comparecem como protagonistas o Mago, o Filólogo e o Colonizador. Estamos há quase um milênio presos nos limites dessa fábula, e essa situação entre desesperadora e iluminadora define o que chamo de ciclo hermenêutico moderno.
Não será hora de contar essa história? Não será hora de vislumbrar uma saída desse ciclo?

Quando dei início a CONVIVIUM – Seminário Permanente de Humanidades, no primeiro semestre de 2022, avisei aos alunos que eu necessariamente teria de em minha leitura do Fausto de Goethe – o guia de nossas aulas à época – ir além de posições consabidas e engessadas de exaltação ou rechaço da modernidade. A modernidade, eu dizia, deve ser em primeiro lugar tomada como um fato bruto; deve ser vista como a condição primeira, nossa terra inalienável, a partir da qual se tornará possível qualquer outra experiência alternativa a ela. Não é que “restaurar” uma situação pretérita não seja possível; não é sequer desejável. A nostalgia é o abrigo de toda imaginação preguiçosa.
Dei um passo além no segundo módulo de CONVIVIUM quando, justamente para aferir novas possibilidades de experiência humana para além da moldura humanista (aquela ao mesmo tempo celebrada e criticada por Goethe, criatura e criador culminante dessa corrente), retornei às origens da sensibilidade moderna com a análise de um tipo de texto especialmente expressivo de nossos hábitos mentais: as autobiografias. Lemos as vidas de Pedro Abelardo, Dante Alighieri, Girolamo Cardano e Santa Teresa d’Ávila como se buscássemos zonas ocultas dentro de nós mesmos.
Essa investigação me permitiu estabelecer conexões inesperadas entre o renascentista que se atira sofregamente ao palco do mundo (como Fausto no “grande mundo” da segunda parte do poema) e nossa experiência mais impessoal e “científica” do conhecimento. Ou entre a exasperação romântica e melancólica do típico intelectual moderno (em especial o “gênio” oitocentista) e a prosa convulsionada de metáforas de uma santa e mística do século XVI que optou por retirar-se do mundo. Ou ainda entre a imaginação hiper-simbólica do fim da Idade Média (atrofiada, entregue a automatismos alegóricos) e os procedimentos usuais do cientista moderno que só lida com o mundo quantificável.
O projeto humanista, termo que considero mais preciso que “humanismo” (pois há muitos “humanismos”), pôde ser afinal caracterizado como uma doutrina civil do conhecimento. Retrata a ambição contraditória de alcançar por meios exclusivamente humanos um saber tão só natural que prescinda da testemunha humana. O ideal científico moderno de objetividade seria apenas a derradeira e mais explícita encarnação desse desejo paradoxal (ver o conhecimento como se ele não precisasse ser visto por alguém), mas sua primeira formulação clara a encontrei em lugar inesperado: nos Pensamentos (1669), de Pascal, conforme expus no primeiro módulo de aulas e conforme voltarei a tratar neste terceiro módulo.
A investigação, no ponto em que a deixei, restou promissora, mas incompleta. Daí a dupla necessidade do módulo “A Alegoria do Mundo”: prover a novos e antigos alunos uma visão final dos problemas tratados e registrar essa visão em um livro, cuja redação, já iniciada, transcorrerá ao longo dos doze meses de atividades.
Do que, mais detalhadamente, tratarei no terceiro módulo de Convivium

Em “A Alegoria do Mundo: o Mago, o Filólogo e o Colonizador”, pretendo em primeiro lugar reparar certos saltos temporais nas aulas pretéritas (que também ficarão disponíveis; em texto próximo falarei a respeito). Fui do século XII ao XIX, de Abelardo a Goethe, mas com muitas irregularidades: pouca atenção dei, por exemplo, ao século XV; menos ainda ao XVII e ao XVIII. O tratamento da ficção de François Rabelais e da filosofia de Giambattista Vico, por exemplo, me permitirão remediar minimamente essa falta.
Em segundo lugar, pretendo rever e aprofundar as conclusões de “O Destino do Humanismo: uma leitura do Fausto de Goethe” e “Os Livros da Vida: Abelardo, Dante, Cardano, Santa Teresa”, nomes que dei aos dois módulos anteriores de CONVIVIUM. Gostaria de dar maior clareza aos conceitos de projeto humanista, nova aposta de Pascal, ciclo hermenêutico moderno, técnicas da melancolia e sono da cultura.
Achei pertinente rever esses conceitos como parte da narrativa que vejo na modernidade. Daí a escolha de três personagens-tipos que, historicamente localizáveis numa miríade de autores e agentes políticos, dão carne àqueles conceitos: o Mago, o Filólogo e o Colonizador.
Por fim, de nada me interessaria refazer e reavaliar a história da erudição moderna se não fosse para dar conta de minha situação particular de brasileiro, de latino-americano. E a isso dedicarei algumas aulas. A alegoria do mundo encontra seu fim justamente no novo mundo: não é só o indígena americano que assiste ao fim dos seus deuses, não é só o escravo africano que vive o exílio de seus manes familiares, é também o europeu alguém que, ao engendrar os povos latino-americanos, aciona a manivela da história que encerrará quase um milênio de projeto humanista.
Hoje assistimos um pouco confusos à crise das democracias liberais e nos entediamos com as técnicas universitárias de pesquisa (última degenerescência das técnicas da melancolia, como as chamo). E, desorientados, julgamos desfavoravelmente nossa cultura e nossa situação no cenário global sem percebermos que essa cultura e essa situação são preciosas precisamente por escaparem a impasses próprios à modernidade europeia.
Conforme defenderei, somos pós-modernos de nascença e estamos aptos como poucos a desenvolver um novo estilo de universalidade literária que aponte formas mais naturais de experiência do mundo da cultura. Os tristes trópicos terão a felicidade, se para isso nos esforçarmos, de criar novas formas de ler e de criar.
As inscrições para o terceiro módulo de CONVIVIUM terão início no dia 2 de abril.
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