A alegoria contra o mundo

O pensamento alegórico tem na existência material a última barreira ao seu ímpeto de tudo tornar alheio, distante e, no limite, inalcançável. Saiba mais no novo módulo de Convivium.

Quando alguém afirma que hoje vivemos em um mundo materialista, muito provavelmente quer dizer que a maior parte das pessoas não necessariamente descrê de alguma realidade imaterial, mas se comporta como se descresse: centra toda a sua atenção no imediato, no aqui e agora, no prontamente dado, e não se preocupa com nada que escape a essa faixa material e sensorial da experiência.

Tenho minhas dúvidas. Tenderia a pensar, ao contrário, que a maior parte das pessoas hoje é pouco materialista. A compreensão desse fato requer a explicitação de alguns pressupostos.

O primeiro deles diz respeito ao termo “materialismo” tomado em sua máxima literalidade: o materialista que tenho em mente, esse tipo raro, será um indivíduo permanentemente consciente da realidade material ao seu redor, pouco importando se é crente ou descrente, por exemplo, de algo como o mundo espiritual. Nesse sentido, creio não conhecer mais que dois ou três materialistas.

Muito da cultura popular brasileira, por outro lado, nasce desse zelo consciente pela matéria, pela terra, pelo que existe de mais telúrico e naturalmente vital em nossa realidade. É fácil perceber algo disso no bumba meu boi ou na Festa do Divino Espírito Santo, e não será difícil perceber que o mesmo se aplicará a outros povos e outras épocas. Uma das correntes de estudo da Idade Média de maior influência nas últimas décadas centrou-se em sua “oralidade”, no aspecto “performático” que símbolos, crenças e comportamentos assumiram ao longo de séculos na Europa. Paul Zumthor, alguém poderá lembrar, dedicou vários estudos importantes à centralidade do corpo humano — sim, o corpo em seu sentido mais palpável — na cultura popular. O homem medieval era bem mais materialista que nós.

Até porque, na medida em que o termo “materialismo” é derivado de “matéria”, é derivado em última instância da palavra grega para “madeira”. O mundo material é construído dessa madeira primordial, que pode ser empregada na construção desta forma aqui ou daquela outra forma lá. Mas o materialista, tal como hoje o entendemos, seria incapaz de perceber isso. Ele está na floresta da realidade, mas não consegue sustentar a atenção por tempo suficiente no madeiro de que são feitas todas as coisas. Profeticamente, Baudelaire escreveu que o homem está no “templo da natureza” e que o “cruza em meio a uma floresta de símbolos”. O poeta celebrava aquilo que por uma inversão inesperada se tornou não nosso gozo, mas nossa desgraça.

Chegamos a esse ponto quase distraídos, sem atinar muito bem com a via percorrida, a qual ainda deixa à mostra algumas de nossas pegadas. Ao investigá-las, historiadores e filósofos não deixaram de notar, vez ou outra, que a modernidade se ancora em uma base simbólica em tudo contrária à imagem que ela faz de si mesma: em vez de ser a era do realismo total e da atenção exclusiva à realidade imediata, é uma era de fantasias progressivamente complexas, quase ficcionais, e de atenção canalizada para objetos marcados de abstração, ideação, magreza de corporeidade. A razão de ser desse quadro se encontra — a meu ver, e este “a meu ver” visa apenas precaver o leitor quanto ao teor polêmico a seguir — na apropriação muito natural e displicente do pensamento alegórico pela intelectualidade europeia nos últimos séculos.

Alegoria, numa definição provisória, é uma forma de expressão puramente lógica e discursiva que assume, por esta ou aquela conveniência, uma estrutura narrativa. Vocês conhecem a alegoria da caverna, aquela lá da República. Para ser compreendida, ela precisa ser contada. Mas você também compreenderia o sentido do que Platão quer nos comunicar caso alguém lhe falasse, com palavras simples, que vivemos como se em dois mundos, um de coisas reais e outro só de aparências, e que a passagem de um para o outro é coisa difícil, rara e geradora de cizânia.

Menciono essa alegoria específica por um motivo: é que, ao colocar no centro dela a clivagem de dois mundos, Platão tornou manifesto — não sei se de propósito ou não — o mecanismo de toda alegoria. A alegoria fala de uma coisa para referir outra ausente. Ela usa de um mundo de sombras para falar de um mundo de luz. Mas, na medida em que o faz, ela afasta o mundo — este aqui, o mundo que habitamos — do real sentido buscado. A alegoria só funciona na medida em que assinala e alarga a distância entre signo e significado.

A determinada altura histórica, talvez a recuar até o século XIII, o pensamento de tipo alegórico começou a dominar a mente dos eruditos. Longe de mim propor uma antítese total entre símbolo e alegoria, como fazem alguns autores, para depois afirmar o abandono daquele primeiro em prol desta última (ainda que eu reconheça a distinção fundamental: o símbolo, diferente da alegoria, não comporta paráfrase). Na verdade, noto que a absolutização do pensamento alegórico veio como consequência direta do uso exacerbado e generalizado de símbolos. No princípio da ciência moderna, mas também já na arte renascentista e até mesmo nos sermões dos padres e na correspondência privada dos eruditos, para não falar das narrativas iniciáticas e das visões dos místicos, foi aos poucos se instaurando uma espécie de excesso barroco de simbolismos, os quais, tão repisados e tão reafirmados, acabaram por perder todo sentido. Como o sentido não parece mais estar dado de saída, o homem de letras se torna um buscador de sentidos que só com muito esforço se manifestarão. O mundo se transmuta num local distante e pouco frequentado. A alegoria se insurge contra o mundo que a tornou possível. Ao celebrar os deuses da Grécia, Friedrich Schiller só poderia lançar a pergunta: “Onde estás, ó belo mundo?”. Pois é, onde estará?

Todas as áreas de nossa experiência foram afetadas por esse fenômeno. A política das grandes monarquias, por exemplo, era regida por uma implacável hierarquia mas também por alguma transparência, da qual as guerras corpo a corpo, homem a homem, eram a amostra mais decisiva. As democracias modernas alteram esse quadro: a política real se torna a política que não aparece, a política dos bastidores, ao mesmo tempo que se fala de transparência e participação pública como nunca antes. A guerra não é mais uma experiência pública e carnal, mas algo falsamente civilizado que se passa atrás de computadores: um clique, um drone, muita morte. E que são as ideologias senão um conjunto de metáforas que, ordenadas e passíveis de redução a uma narrativa, perderam inteiramente o contato com as realidades que supostamente descrevem? Toda ideologia é potencialmente alegórica.

“Não existe software”. O código — o real — está no bare metal do hardware.

Para me valer de uma metáfora de Friedrich Kittler que já empreguei anteriormente, vivemos presos ao nível do software, incapazes de perceber que este só funciona porque os comandos essenciais — na verdade, os únicos reais — estão sendo executados ao nível do hardware. Daí a conclusão de Kittler de que “não existe software”. De minha parte, soará muito estranho dizer que não existe alegoria?

Alegoria após alegoria, o mundo inteiro vai se tornando menos material, em certo sentido menos real, até o ponto em que a ideia de simulacro, simulação ou avatar se torna a metáfora mais fácil e conveniente para expressar nosso estilo de experiência. Vivemos sob o medo de que aquilo que conhecemos, experimentamos, sentimos, na verdade não tenha substância alguma. É também por isso que poucas ideias hoje podem ser tão tentadoras quando a de “realidade virtual”: se vivemos a todo momento ameaçados de inautenticidade e a sentir uma separação cada vez maior entre nós e o mundo, talvez não seja má ideia darmos o passo final na direção de algo que nos pareça um novo mundo, construído, sim, mas de todo modo um mundo dotado de novas finalidades. Essa realidade adventícia não parecerá virtual; tenderá a parecer a verdadeira realidade, aquela da qual a nossa experiência comum no dia a dia será apenas uma pálida alegoria. Logo, nada há de estranho nesses garotos que falam em “sair da Matrix” ou “tomar a redpill”. Eles são incapazes de um verdadeiro materialismo.

Esse é um dos problemas que discutirei em “A Alegoria do Mundo: o Mago, o Filólogo e o Colonizador”, terceiro módulo de Convivium — Seminário Permanente de Humanidades que contará com 24 aulas, ao longo das quais concluirei o livro O destino do humanismo (excertos serão apresentados e discutidos com os alunos). As inscrições estão abertas e manterei até amanhã o melhor valor promocional (isto é: prorroguei até amanhã a promoção, que se acabaria hoje, já que por inépcia me passou batida a necessidade de lhes recordar esse prazo com alguma antecedência).

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Comentários

Uma resposta para “A alegoria contra o mundo”

  1. Avatar de Francisco Neto
    Francisco Neto

    Ronald, então essa febre atual, principalmente nos “filósofos” de Internet, de em tudo tentarem conceber o simbolismo disso, o simbolismo daquilo, é, digamos, maléfico para o pensamento filosófico? E desculpe-me pela rudeza do estilo.

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