Há meses, talvez até há mais de um ano, fiz um comentário breve no Nostr sobre o romance O deus oculto no canto do córner (Danúbio, 2023), de Milton Gustavo, em resposta a alguém que perguntava a um terceiro acerca do livro. Acontece que anteontem desencavei essa nota pouco elogiosa, junto a outros textinhos diversos, e a disparei numa newsletter. Hoje, para minha surpresa, amigos me mandam prints de comentários os mais engraçados e raivosos sobre mim — sim, sobre mim — de gente que adorou o livro e agora colhia mais uma prova de minha insignificância.
É curioso, porque começo dizendo que “Era para ser um romance muito bom, mas infelizmente é só decente, e olhe lá”, o que não me soa o jeito mais cabal de dizer que algo não presta. Entre os aspectos positivos, ainda aponto que 1) “O autor tem uma pegada razoavelmente boa da forma do romance” (o que já o coloca muito acima da maior parte dos seus pares, mas não podemos ter isso por parâmetro, vamos e venhamos); 2) utiliza com “alguma sobriedade” o idioma, ainda que sua sintaxe e o sabor vernacular geral sejam muitas vezes frouxos; e 3) às vezes ainda é capaz de “uns poucos chistes bons”. Todo o resto do pouco que escrevi se constitui, de fato, de restrições ao livro, mas não são restrições que o descartem como coisa qualquer.
Aproveito essas esparsas reações para me explicar mais um pouquinho sobre o principal problema do romance, já que algumas pessoas (uma delas, pelo menos uma!, sei que foi bem-intencionada: Pedro de Almendra, sujeito gente boa) afirmaram que só uma grave e essencial falta de compreensão do livro poderia justificar o meu comentário. Em resumo: eu não teria percebido que o romance se passa, digamos, em dois planos, um, o do narrador em primeira pessoa que nos conduz, outro, o do que a construção do romance nos revela sobre esse mesmo narrador e suas ideias. Não me incomodo com o fato de fazerem tão baixo juízo de minhas capacidades: ossos do ofício. Posso apenas dizer, de minha parte, que considero difícil imaginar que alguém leia o livro e não perceba logo nas primeiras páginas a distinção desses dois andares e o fato de que o autor (o autor, não o narrador) pretendeu estruturar o romance sobre esse subtexto que inverte o próprio texto.
Mas, como é costumeiro acontecer em literatura, o projeto não é o livro, e o livro cai muito abaixo do projeto. O deus oculto no canto do córner me lembrou, sob esse aspecto, um primo romanesco distante, mas igualmente falho: O paraíso é bem bacana (Cia. das Letras, 2006), de André Sant’Anna. Se no livro de Milton Gustavo o bronco é objeto do narrador (pelo menos do seu ponto de vista), no livro de Sant’Anna o bronco é o próprio narrador, neste caso não um boxeador, mas um jogador de futebol que faz desfilar à nossa frente em língua esdrúxula — mas pelo menos meditada em algum nível para o efeito calculado — o mais grotesco cortejo de ideias estapafúrdias, situações picarescas, pornografia explícita, especulação teológica propositalmente tacanha, tudo a fim de nos fazer ver não a pequenez daquele protagonista-narrador excepcionalmente brasileiro (ou pelo menos não só dele), mas a daqueles que o criticam, do meio que o educou ou deseducou, dos pretensos ideais nos quais ele deveria se ancorar e que, contudo, são igualmente criticáveis.
Ocorre, contudo, que o fluxo de baboseiras no livro de Sant’Anna acaba se tornando maçante, pouco estimulante, repetitivo (pois ele quer emular na língua até o tatibitati de uma inteligência deprimida); a narrativa vai se esgarçando, perdendo-se em miudezas quase bizantinas em sua insignificância, e ao final o que temos é uma proposta, é uma ideia, é um ensaio de crítica sociológica pobre que se experimentou vestir de forma romanesca. O projeto de mostrar ao nível inconsciente da narração aquilo que está conscientemente muito além da narração, e até contra ela, fracassou como romance.
Em grande medida é isso que ocorre no livro de Milton Gustavo, e foi a isso que aludi ao escrever que “a narrativa anda na corda bamba entre a baixeza que lhe é necessária, por questão de verossimilhança realista, e a vulgaridade da piada de tiozão”. Ora, basta essa frase para perceber que compreendo, sim, que a construção de O deus oculto no canto do córner pede, na verdade exige, que o narrador seja aquela figura tacanha e se expresse daquela forma; e para perceber, adicionalmente, que não acredito que o projeto tenha sido levado a bom termo, de modo que esteticamente acabarão se sobressaindo as limitações do narrador realmente postas na prosa, e não as sutilezas do autor que acabam soterradas pela sua prosa. Sobram as piadas de tiozão e o rame-rame reclamatório sobre o Brasil, que não são transcendidos e parecem agradar a certo público, no qual não me incluo.
Disse e repito: poderia ter sido um romance muito bom. Não foi. Mas o que o livro logrou, mesmo com problemas graves, me faz seguir aguardando bons romances de Milton Gustavo, e o digo não na condição de “fiscal da direita”, como alguém me chamou, mas simplesmente na condição de alguém que gosta de literatura e lhe dedica boa parte de sua vida.
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