Hegel e a Morada do Espírito

Uma leitura da Fenomenologia em 9 aulas.

Início: 15.07.26 | Valor promocional até 30.06:

de R$ 290 por R$ 250.

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G. W. F. Hegel não tem fama de ser um autor fácil, ainda que isso muitas vezes se deva aos obstáculos que os tradutores inadvertidamente acrescem aos seus textos. Grande parte da dificuldade, contudo, tem origem no próprio projeto de sua filosofia, como o deixam claro o Prefácio de sua Fenomenologia (1807) e a Introdução de sua Ciência da Lógica (1812): toda a desafiadora escalada metafísica, de extrema abstração, que se está prestes a conduzir, tem por fim uma penetração mais funda no solo do real imediato, histórico, existencial; a abstração não é uma fuga do real, não é uma diluição do sujeito concreto, é ao contrário o terreno no qual a realidade deve reclamar vitória para que as cisões de sujeito e objeto não nos separem ainda mais de nós mesmos e da existência. O paradoxo da empreitada a torna, sim, mais improvável, mas também a põe em movimento.

Assim vista, a obra de Hegel desconcerta menos pela estranheza do seu vocabulário, menos pela abrangência às vezes confusa dos temas tratados, do que pela ambição de superar aquilo que ele via como um problema lamentável legado pela metafísica dos séculos imediatamente precedentes, a alcançar seu ápice na obra de Kant. Onde este último vê os limites do conhecimento, Hegel vê apenas os limites de quem se contentou com pouco e não foi além, não atendeu à intuição de que esses próprios limites são redimidos pela faixa do real em que o ser se conhece como conhecimento. A “apercepção transcendental”, de Kant, teria de encontrar sua forma superior no “Conhecimento Absoluto” de Hegel.

O chamado de Hegel a que pesquisemos a história humana, como coisa mais que humana, se por um lado pode conduzir a novas formas de redução abstrata das coisas e dos indivíduos a conceitos que lhes são alheios e contingentes (o que poderia servir de definição ao “historicismo”), por outro lado abre caminho à investigação não só do Espírito, mas da sua Morada, o lugar pessoal, histórico e específico no qual ele se manifesta. As variadas interpretações do Espírito segundo Hegel (das concepções panteístas às mais naturalistas, até materialistas) não devem nos distrair do fato fundamental de que a racionalidade, como ele a entende, obriga o visto a ser revisto em sua especificidade, o consciente a ser autoconsciente em sua circunstância, o ideal a ser localizado em sua concretude.

Ler Fenomenologia do Espírito fora da moldura usual do “idealismo” não a isentará de seus problemas, mas certamente poderá nos tornar mais conscientes do assédio que a Abstração da cultura atual renova contra nós. Se ao fim Hegel sucumbiu a esse mesmo assédio, como muitos poderão argumentar, nada nos impede de tomar como exemplo a sua disposição combativa, a fim de preservar o espaço em que cada um de nós seguirá se reconhecendo como pessoa, e não como dado, estatística, grafo digital, produto ideológico ou… sujeito filosófico.

Programa de aulas

Aula 1 | 15.07 | Gravação aberta a todos no Youtube:

O chamado de Hegel à vida concreta

Aula 2 | 23.07 | Aula ao vivo | Daqui em adiante, apenas para inscritos:

Bases para o estudo de Kant e do jovem Hegel

Aula 3 | 30.07 | Gravada:

O projeto da Fenomenologia do Espírito

Aula 4 | 06.08 | Gravada:

Fenomenologia: Consciência e autoconsciência

Aula 5 | 13.08 | Ao vivo:

Fenomenologia: Razão

Aula 6 | 20.08 | Gravada:

Fenomenologia: Espírito

Aula 7 | 23.08 | Gravada:

Fenomenologia: Religião e Conhecimento Absoluto

Aula 8 | 27.08 | Ao vivo:

A superação da Fenomenologia e o projeto da Ciência da Lógica

Aula 9 | 31.08 | Ao vivo:

Que fazer de Hegel hoje

Bibliografia

a. Textos de Hegel

(Os títulos assinalados ao fim com asterisco constituem as traduções mais recomendadas.)

Phenomenology of Spirit. Trad. A. V. Miller. Oxford University Press, 1977 (inúmeras reimp.). *

Fenomenologia do Espírito. Trad. Paulo Meneses. Rio de Janeiro: Vozes, 2003.

Phänomenologie des Geistes. Ed. E. Moldenhauer; K. M. Michel; H. Reinicke. Berlim: Suhrkamp Verlag, 1989.

Ciência da Lógica. O ser: Edição de 1812. Trad. Henrique de Lima Vaz. São Paulo: Loyola, 2021.

Ciência da Lógica: excertos. Sel. e trad. Marco Aurélio Werle. São Paulo: Barcarolla, 2011. *

Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio (1830). Volume 1: A Ciência da Lógica. Trad. Paulo Meneses. São Paulo: Loyola, 1995.

b. Textos de apoio

(O texto de David Walsh é de primeira importância para a interpretação de Hegel oferecida no curso.)

Joãosinho BECKENKAMP. O jovem Hegel: formação de um sistema pós-kantiano. São Paulo: Loyola, 2009.

Stephen HOULGATE. Hegel’s ‘Phenomenology of Spirit’: A Reader’s Guide. London: Bloomsbury, 2013.

Dietmar KÖHLER, Otto PÖGGELER (org.). Phänomenologie des Geistes. Berlim: Akademie Verlag, 2006.

José Henrique SANTOS. O trabalho do negativo: ensaios sobre a Fenomenologia do Espírito. São Paulo: Loyola, 2007.

Klaus VIEWEG. Hegel: o filósofo da liberdade — Biografia. Coord. da trad. Marco Aurélio Werle. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2024.

David WALSH, “Hegel’s Inauguration of the Language of Existence”. In: The Modern Philosophical Revolution: The Luminosity of Existence. New York: Cambridge University Press, 2008.

Éric WEIL. Lógica da filosofia. Trad. Lara Christina de Malimpensa. São Paulo: É Realizações, 2012 (esp. “Introdução”, Cap. 13, “O Absoluto”, e Cap. 16, “A Ação”).

W. Clark WOLF. Hegel’s Inversion of Philosophy: The Metaphysics of the Made. New York: Cambridge University Press, 2026.