Toda sexta-feira o Seminário de Filosofia tem distribuído, via newsletter, um Boletim Cultural editado por mim. Os textos não se cingem apenas à obra de Olavo de Carvalho nem são apenas e-mail marketing. Já apareceram por lá breves ensaios sobre a literatura de Graciliano Ramos, as filosofias de Peter Kingsley e David Walsh, o cinema de Carl Theodor Dreyer e a antropologia de René Girard. Bitcoin, fim do liberalismo e epidemia de fraudes científicas são temas que também apareceram em edições anteriores (até agora saíram vinte e uma).
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Tenha em mente que sou editor do boletim; o que é dizer: é provável que em futuro próximo nem sempre seja eu o autor de todos os textos.
Reproduzo abaixo parte da edição veiculada ontem.
Ainda em busca de Mensonge
Para não poucas pessoas familiarizadas com expressões como “gênero desconstruído”, ou mais particularmente “masculinidade desconstruída”, será clara a conexão entre esse universo de ideias e o que se convencionou chamar de “teoria de gênero”, que muitos – inclusive feministas históricas como Camille Paglia – chamariam logo de “ideologia de gênero”. Mas é possível que para essas mesmas pessoas não seja clara de maneira alguma a filiação dessas ideias ao que na década de 1960 se passou a chamar de “desconstrucionismo” ou simplesmente “desconstrução”.
Um dos motivos para tanto é bastante razoável: se inspecionarmos os escritos de Jacques Derrida, por exemplo, em busca de uma definição clara e explícita do conceito, ficaremos frustrados, confusos. Ou seja, mesmo quem está familiarizado com o termo “desconstrução”, nessa acepção teórica específica, não tem muita clareza a respeito. A desconstrução está sempre “negando a si mesma” e, portanto, recusa-se a uma definição; e não raro um desconstrucionista, quando confrontado com as consequências absurdas e inevitáveis de suas ideias, sai de fininho, como o próprio Derrida ao dizer – frase, aliás, citada numa edição anterior deste Boletim – que, ao contrário do que é claro e transparente a todos, em seus escritos não se encontra “traço algum de relativismo” ou de “crítica à Razão”.
Outro motivo é que essa corrente é contemporânea e sob muitos aspectos irmã mais nova do “estruturalismo”, o qual pelo menos tem a vantagem de ser metodologicamente mais preciso: como se escreve num livro do qual já se falará, para o estruturalismo “pensamento e cultura não são entidades transcendentais, mas só podem ser entendidos como estruturas de poder e dominação, exigindo que a filosofia abra mão de seus antigos interesses em nome dos incautos para se transformar de uma vez numa ciência de signos”. Reduzir todo o universo a uma gratuita manipulação de signos, retirando-lhes quaisquer valores intrínsecos, é uma filosofia amoralista que conforta o ego do intelectual, que assim se sente mais “livre”.
Esse é dos protestos que se encontrará no aguerrido e perspicaz estudo Contra a Desconstrução (1990), de John Martin Ellis, que aplica os princípios desconstrucionistas ao próprio desconstrucionismo. Livro que segue sem edição no Brasil, e sua ausência, e de outros similares, responde em grande medida pela inconsciência nacional acerca da origem de determinadas ideias advindas de pequenos círculos intelectuais franceses, difundidas em departamentos de Humanidades dos Estados Unidos e transformadas em políticas públicas até no Brasil.
Essa anemia bibliográfica e crítica foi há pouco combatida pela editora Sétimo Selo com uma dose cavalar de duas vitaminas: clareza e humor. Pois com Minha inusitada busca por Mensonge: o herói oculto do estruturalismo (1987), do britânico Malcolm Bradbury (1932-2000), do qual se extraiu a citação feita mais acima, tem o leitor acesso a um dos mais inventivos esforços de aclarar os fundamentos e consequências do estruturalismo e do desconstrucionismo. Não se trata de simples ensaio nem de panfleto de protesto, e tampouco seu tom é tão-só polêmico. De que se trata?

Trata-se literalmente, como diz seu título, da busca de Henri Mensonge por um narrador não identificado (o que, como se verá, é bem apropriado). Mensonge (“mentira”, em francês) é o autor fictício de um clássico do qual jamais se ouviu falar, A fornicação como ato cultural, lançado em 1965, ou 1966, já que nada é certo a seu respeito e tudo está à espera da desconstrução. Ele teria levado às últimas consequências a tese da “morte do autor”, de Roland Barthes, e assim foi aos poucos desaparecendo e desaparecendo, até tornar-se um autor não-autor, um existente não-existente, um instável significado sem significante material, tal qual as estrelas da intelectualidade francesa das décadas de 1970 e 80, que assinalavam o fim do indivíduo mas não perdiam uma oportunidade de exibir suas esfuziantes individualidades num programa de TV.
Talvez o leitor não conheça a tese fundamental do livro A morte do autor (1968). Nele, Roland Barthes parte de um dado perfeitamente razoável. Observa que as noções de autoria e indivíduo imperantes desde o Renascimento seriam incompreensíveis à mentalidade histórica anterior e se ligariam, de algum modo, à emergência do capitalismo. De fato, na Idade Média – comentário feito, aliás, por Michel Foucault no texto programático A ordem do discurso (1970) – havia um total descuido para com a autoria. Assim como para o leitor de então a materialidade do mundo importava mais que as abstrações de textos, também nos textos importava mais a qualidade e veracidade do seu conteúdo do que sua procedência ou autoria. Sentia-se como coisa natural atribuir uma ideia aos “antigos”, sem maior particularização do autor, o que é coisa hoje impensável, por exemplo, em uma tese universitária.

De uma ideia verificável e razoável como essa Barthes deduzirá o absurdo: que a autoria é, na verdade, uma ilusão; que não é o autor quem fala a língua, mas é a língua que fala através do autor; que seu pensamento não se assenta em determinadas estruturas linguísticas, mas que essas estruturas linguísticas é que se expressam através do seu pensamento. O autor, pobre coitado, não seria mais que um office boy inconsciente, a levar e trazer mensagens da eterna conversa da língua consigo mesma. E o leitor, por sua vez, estaria dispensado de buscar o sentido que o autor quis comunicar, pois afinal ele não teria como dizer coisa nenhuma com sentido estável. “Os ventos das mudanças”, observa o biógrafo de Mensonge, “sopravam por toda parte, e o dia do leitor que não lê livros chegou”.
Chegou e não acabou mais. Mas onde começou? Bom, suas origens “nos levam de volta aos primórdios da civilização indo-europeia e, provavelmente, também às cidades-estados gregas; no entanto, viajar para lá é caro e exigiria uma bolsa de pesquisa em uma escala que não cheguei nem perto de conseguir”, escreve o narrador, a marcar o tipo de nonsense cheio de sentido com que pontuará quase todas as suas ideias. Na impossibilidade de contar a história por completo, passa a narrá-la a partir de Genebra, à época da Primeira Guerra Mundial, quando lá se imprimiu o Curso de linguística geral, de Saussure, livro “publicado postumamente em 1916, e não sem motivo, já que o próprio autor havia morrido três anos antes sem escrevê-lo”. O comentário malicioso se refere, como é óbvio, à circunstância de o livro nascer sobretudo de anotações detalhadas feitas por alunos do falecido professor, cuja tese da relação arbitrária entre “significante” e “significado” teria alcançado uma estranha evidência: “A grande prova do seu argumento é a publicação do seu livro”, nota o narrador, ao constatar a separação entre um significante, o livro, e o seu significado, que estaria na mente de um autor ausente.
Minha inusitada busca por Mensonge é cheio dessas observações engenhosas, as quais a todo momento ecoam uma rivalidade entre a espirituosidade britânica e a pretensão palavrosa francesa das últimas décadas. A graça maior está nos capítulos de caça mais direta a Mensonge, do qual se sabe que “se mantinha trabalhando como jornalista, engolidor de fogo e guia para turistas japoneses que visitavam a Torre Eiffel no verão”, e que publicara seu único livro pela Imprimerie Kouskous, que “não era uma editora muito conhecida e, de fato, mais tarde foi comprovado que era uma fachada ineficaz para o contrabando internacional de drogas”.
Hoje vistos em retrospecto, os resumos do então inexistente A fornicação como ato cultural são premonitórios, já que hoje parece obra existente, a julgar por sua semelhança com o que encontramos comumente em dissertações e teses produzidas no Brasil. Toda a vaga conversa em torno da crítica cultural como um ato transgressor, ou da leitura como uma desleitura, ou ainda da interpretação como um devassamento e, no limite, uma penetração, está bem encapsulada nos chistes atribuídos a Henri Mensonge, que assim sintetiza toda a “economia libidinal” (expressão de Lyotard) que colocou o sexo no centro das preocupações de pretensos críticos literários, filósofos e, claro, psicanalistas, o que faz lembrar o juízo de Noam Chomsky sobre Jacques Lacan, a quem conhecera de perto: este não passaria de um “charlatão” – muito consciente de seu charlatanismo – cuja principal atividade intelectual consistia em “fazer pose”.
O mesmo tipo de pose que se verá nas palavras finais da grande obra de Mensonge, que interpela o leitor: “Se você está aqui, não deveria estar. […] Você me seguiu até o cume […] mas eu não pretendia culminar. Ao menos um de nós não deveria estar aqui, e acho que talvez seja eu mesmo”. De fato, nada mais sustenta a bem precária existência de Mensonge senão a bibliografia que Bradbury oferece ao fim do livro, na qual, a par de títulos reais de Lévi-Straus, Baudrillard e outros, constam trabalho irreais, como “Mensonge and Feminism”, de uma tal Natalie Pelham Barker, ou “À la Recherche de l’Impremerie Kous-Kous”, de Gilbert Debusscher, um professor que realmente existiu. Estamos diante de uma bibliografia desconstruída.
Algumas metáforas de espera traduziram, em diferentes momentos, algo da angústia da civilização no último século. Pensemos em duas obras da década de 1940. Por muito tempo esperamos Godot, o herói ausente de Samuel Beckett que, de algum modo, nos livraria de um mundo absurdo, no qual sempre aguardamos por não sabemos bem o quê. Drogo, o herói do mais famoso romance de Dino Buzzati, aguarda num desespero em banho-maria o momento para o qual involuntariamente se preparou a vida inteira: enfrentar, numa fronteira indeterminada no norte da Itália, os tártaros, que a qualquer momento irromperiam naquela área; mas eis que nunca há ataque algum, e toda a burocracia que fez Drogo acomodar-se à espera começa a revelar-se monstruosa, uma projeção, enfim, de sua fraqueza interior.
Agora, cabe-nos esperar por Mensonge: só ele, parece, será capaz de fazer os livros voltarem a ser lidos em razão do que de fato dizem; só ele poderá restabelecer a responsabilidade moral que todo intelectual deveria ter para com aquilo que cria. Ele precisa ser localizado para que cesse de desaparecer e de assim matar em nós todo senso de autoria. Torçamos para que um dia Malcolm Bradbury – ou o narrador que fala em seu livro, se é que ele existe – o encontre.
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