Uma introdução panorâmica ao poema em que se decide o destino da modernidade.
1.
Percorrei, pois, no estreito barracão,
Toda a órbita da criação,
E, em comedido curso alterno,
Transponde a terra, o céu e o inferno.
(Fausto, vv. 239-242, trad. Jenny Klabin Segall)
Fausto (1808), de Goethe, é geralmente descrito como um poema dramático. Esse drama, talvez o primeiro moderno a romper radicalmente com modelos teatrais estabelecidos, ainda mantém, contudo, uma moldura bastante tradicional: nele, toda ação terrestre repercute na eternidade.

A história do protagonista, um erudito do séc. XVI que faz uma “aposta” com o demônio Mefistófeles para alcançar mais saber e poder, é precedida de três prólogos. O segundo deles, o “Prólogo no Teatro”, é uma peça cômica típica do teatro popular. Nele falam o poeta, que quer fazer obra que expresse seu íntimo, indiferente à audiência; o bufo, que pede ao poeta uma obra burlesca, divertida, mundana; e o diretor, que lhe pede uma obra que lote a plateia.
Ao fim da curiosa discussão, o diretor se farta de discursório e pede que o poeta ponha mãos à obra. Faculta-lhe todos os recursos cênicos de que precisar, “Prospetos, máquinas, painéis”, “Cavernas, rochas, água, estrelas”, “Há sobra de animais e aves”. E o exorta a fazer uma obra que abranja todos os estratos da vida humana: “Percorrei, pois, no estreito barracão, / Toda a órbita da criação, / E, em comedido curso alterno, / Transponde a terra, o céu e o inferno”.
De fato, a trajetória de Fausto nos fará atravessar o inferno (numa visita à Grécia antiga, mas já na Parte II), o céu (no julgamento final da alma de Fausto, também na Parte II) e a terra. E a moldura cósmica da obra já começa a se alargar na cena seguinte, um “Prólogo no Céu”. Goethe nos revela, já na armação narrativa do poema, que a “tragédia do erudito” não é isenta de efeitos que se projetam para além da temporalidade humana.
2.
O ALTÍSSIMO
Enquanto embaixo ele [Fausto] respira,
Nada te vedo nesse assunto;
Erra o homem enquanto a algo aspira.
MEFISTÓFELES
Grato vos sou (…).
O ALTÍSSIMO
Pois bem, por tua conta o deixo!
Subtrai essa alma à sua inata fonte,
E leva-a, se a atraíres pra teu eixo,
Contigo abaixo a tua ponte.
(Fausto, vv. 315-326, trad. Jenny Klabin Segall)
No “Prólogo do Céu”, terceiro texto de abertura do Fausto, Deus (o Altíssimo) está reunido com os três arcanjos Rafael, Gabriel e Miguel e mais uma criatura infernal: Mefistófeles. É uma cena típica dos autos populares medievais, como encontramos em peças de Gil Vicente. Neste caso, as marcas de enredo cristão são ainda mais pronunciadas: discute-se a alma de Fausto como se fosse um novo Jó.
Jó, você sabe, era um homem justo ao qual Deus permitiu que Satanás privasse de seus bens, seus entes queridos e sua saúde. Jó vacila, mas permanece fiel a Deus, selando a derrota da investida diabólica. De modo similar, Fausto, que não era um justo, será tentado pelo demônio com a anuência de Deus, que tem uma reveladora simpatia por aquele homem incapaz de fé: “Erra o homem enquanto a algo aspira”, ou seja, o ser humano fatalmente incorrerá em más escolhas e incompreensões enquanto aspirar a algo mais alto, como é o caso de Fausto.
É com esse compadecimento para com a ovelha desgarrada que Deus o entrega às tentações do diabo: “Pois bem, por tua conta o deixo!”. A “inata fonte” que lhe será subtraída, entende-se, é a graça divina. A luta de Fausto para encontrar um suposto saber absoluto se dá dentro, mal percebe ele, de uma aposta entre Deus e o diabo. A história desse humanista se dá num cosmos reduzido à revelia das forças mais fundamentais que o regem. A história do humanismo – a história de Fausto – é a de um esforço às vezes consciente, às vezes inconsciente, de apagamento da percepção desse fato.
3.
E vejo-o, não sabemos nada! (…)
Sei ter mais tino que esses maçadores,
Mestres, frades, escribas e doutores; (…)
Não temo o inferno e Satanás tampouco
Mas mata-me o prazer no peito;
Não julgo algo saber direito,
Que leve aos homens uma luz que seja
Edificante ou benfazeja. (…)
Por isso entrego-me à magia,
A ver se o espiritual império
Pode entreabrir-me algum mistério
(Fausto, vv. 364-379; trad. Jenny Klabin Segall)
Fausto vive uma constante oscilação de humor: ora se entrega à megalomania espiritual mais desmedida, achando-se um deus; ora se enoja de si próprio, achando-se pequenino e impotente como um verme. O poema de Goethe apresenta muitos trechos que assinalam a passagem abrupta de um estado a outro.
“Não temo o inferno e Satanás tampouco”: a esse ponto chega a confiança de Fausto; uma confiança construída à base de alçar-se acima do que sabem “Mestres, frades, escribas e doutores”, esses “maçadores”. Fausto está exaltado.
Contudo, ao afirmá-lo, constata implicitamente as limitações do cosmos humanista; ele sabe que a lógica, a medicina, a jurisprudência e a teologia institucionalizadas não abarcam a totalidade da cultura, e menos ainda o campo cósmico de ação humana. E, por sabê-lo (“Não julgo algo saber direito”), Fausto, vendo-se formado dentro daqueles limites, busca um meio desesperado de ultrapassá-los.
A magia, no contexto humanista dos séc. XV e XVI, era parte comum do currículo de um letrado (sabe-se que “Georgius Faustus”, o Fausto histórico, em algum momento estudou alquimia na Universidade de Cracóvia). Nada haveria de equivocado, em princípio, em somar o conhecimento da “manipulação de forças sutis” à filologia e à filosofia.
O equívoco está em Fausto levar à magia a mesma postura assoberbada que tem perante a cultura. Começa aí o descenso depressivo (marca da oscilação de humor típica do temperamento humanista), que será mesmo um descenso infernal: “Por isso entrego-me à magia, / A ver se o espiritual império / Pode entreabrir-me algum mistério”. É quando a inanidade de especulações eruditas se transforma numa angústia metafísica.
4.
Ouço a mensagem, sim, falta-me a fé, no entanto.
(Fausto, v. 765; trad. Jenny Klabin Segall)
A cena “Noite”, que abre o Fausto após os três prólogos, se passa no ambiente gótico de um típico quarto de trabalho renascentista. O monólogo que se desenrola ali é dos mais famosos da literatura, com alguns versos que, ao lado de “Lorelei” de Heine, são para o alemão o equivalente ao que para nós são a “Canção do exílio” de Gonçalves Dias e “Meus oitos anos” de Casimiro de Abreu: poesia que se aprende na escola e cuja qualidade nos tornamos incapazes de avaliar, tão impregnada a coisa fica em nós.
Fausto se lamenta pela inanição de todos os saberes que acumulou. Constata: “Os deuses não igualo! ah! quão profundo o sinto! / Igualo o verme que, faminto, no pó se nutre”. Cogita o suicídio. Quando, contudo, leva o frasco de veneno aos lábios, alcançam seus ouvidos sons vindos da rua: tinir de sinos e cânticos cristãos em uma igreja próxima. Somos informados de que é Páscoa e o monólogo de Fausto transcorre em meio à grande festividade cristã.
Nosso imprevisto herói desiste do suicídio. Cansado de estudos, de reflexão, de árduo empenho em privar-se da luz do mundo para alcançar alguma iluminação superior (ressente-se de passar os dias entre poeira e na penumbra, enquanto lá fora jovens passeiam, divertem-se, vivem), por um momento percebe que talvez fosse melhor crer em Cristo e viver a fé simples e ingênua da Igreja. Mas recua, frustrado: “Ouço a mensagem, sim, falta-me a fé, no entanto”.
A dualidade “mensagem” vs. “fé” prefigura, no chamado “drama do erudito”, todo um rol de dualidades trágicas que caracterizariam o mundo moderno: “religião” vs. “ciência”, “sentimento” vs. “razão”, “indivíduo” vs. “Estado” etc. O projeto humanista se deixa nesse ponto entrever como uma fraqueza da vontade, ou, se quiserem, um deslocamento entre o eixo da vontade e o eixo da intelecção. O preceito “verdade conhecida, verdade obedecida” se torna uma abstração entre outras. A Ação – o novo ídolo de Fausto – se tornará um meio de apagar a saudade da vida simples, não problemática, instintiva.
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