Viva a fuga ao sacrifício

O texto abaixo introduz um dos temas de que tratarei na reta final (aulas 10 a 12) do terceiro módulo de Convivium, “A alegoria do mundo”: o tema da condição brasileira como o avesso da modernidade europeia, aqui tratado mediante a poesia de Sousândrade e o pensamento de José Enrique Rodó.


Infelizmente obra desigual, na qual versos da maior qualidade surgem, imprevistos, em meio a uma massa monótona de decassílabos apenas estranhos, o longo poema O guesa (1888), de Sousândrade, teve não só o azar da natural incompreensão dos seus leitores contemporâneos, como ainda o azar póstumo de ser soterrado sob camadas e mais camadas de entulho crítico. Parte desse entulho vem da atenção quase exclusiva às invenções vocabulares do poeta (o trabalho dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos comprometeu-se demais com esse aspecto), parte nasce da atenção excessiva ao que o poema teria de “transgressor”, “republicano”, “anticapitalista”, e por aí vai.

Pouca gente se sentiu por isso tentada a vencer as dificuldades do poema e compreender aquilo que ele nos conta. É poesia épica, ora. Há uma história ali; e é uma história das mais interessantes.

Mesmo quem só ouve falar da obra muitas vezes conhece algo dos dados antropológicos que serviram de ponto de partida para Joaquim de Sousa Andrade (1832-1902), que mais tarde passaria a assinar como Sousândrade (dizem que para soar mais próximo de “Shakespeare”, inclusive com a coincidência das 11 letras). Ele os indica logo nas epígrafes do poema, reproduzidas de uma enciclopédia e de um livro de Alexander von Humboldt sobre os povos ameríndios.

Na Colômbia, à época do império quíchua (1110-1535), uma criança era ainda bem pequena tomada aos pais para ser criada no templo do deus-sol dos índios muíscas. Essa criança era chamada de guesa, que significa “errante”, ou chamada de quihica, “porta”, já que sua morte marcaria uma abertura, o início de mais um ciclo de 185 luas. Isto é, ao completar 15 anos seria sacrificada. Ela tinha de então fazer uma caminhada pelo suna, a mesma via percorrida, num passado mítico, por Bochica, que era uma encarnação do sol e o herói fundador do povo muísca. Os sacerdotes, chamados xeques, devidamente paramentados e mascarados de elementos do céu e da terra (astros, ou rios, ou animais), amarravam o garoto, que era então morto a flechas. Seu sangue era recolhido como preciosidade; e seu coração, arrancado do peito, ofertado ao sol. Fomogota, o espírito mau que possuía um dos sacerdotes, tudo observava.

Tomando por modelo os poemas narrativos autobiográficos de Byron, Sousândrade decide escrever uma autobiografia poética – que se prolongaria por quase duas décadas – na qual assume a figura do guesa quíchua. Seu périplo confunde a saída do poeta de sua cidade natal, São Luís (MA), para a Europa, aonde iria estudar, com a descida do guesa dos Andes até a mata amazônica brasileira – de onde passaria a correr mundo, ora pelo Brasil e pela América hispânica, ora pela Europa e pelos Estados Unidos, ora pela África.

Dos Andes a descer fugia as plagas
Da morte o filho. O encontrareis no mundo:
Ora sorrindo o riso dos amores,
Que ao peregrino encantam corações;
Ora chorando as tão saudosas dores,
Nu tum’lo debruçado das nações.
(I, 79-84)

Isto é: O guesa conta a história de um fugitivo; o poema se sustenta enquanto os xeques não conseguem sacrificar o guesa ao deus-sol Bochica; sustenta-se enquanto Fomogota não logra aprisionar o errante. O guesa deveria ter percorrido o suna e morrido para que um mundo a-histórico, mitológico, se perpetuasse. Mas não. Ele foge, foge e foge, e com isso funda a possibilidade de uma nova civilização, de um novo padrão de experiências que não se identificam nem com aquele mundo passado nem com a miragem que lhe surge do futuro: a da moderna sociedade capitalista.

Quando o jovem guesa escapa pela mata, escapa por um lado dos terrores telúricos, do passado ameríndio, da disposição gregária de matar a individualidade para realimentar o sol, em seu percurso celeste, e a sociedade humana, em seu percurso mundano; por outro lado, o guesa escapa do lado b da modernidade, do modelo colonial de convivência, o qual não cobra mais sacrifício aos deuses, mas tão só ao mercado europeu e aos caprichos da sinhá, coisa que o poeta ligará obliquamente mesmo aos valores mais altos do Ocidente. Ao mergulhar nas selvas – onde encontrará índias vistosas, mas também demônios numa dança horrenda, espécie de sabá indígena –, ele dá adeus até à metafísica:

Adeuses eu descrevo:
Adeuses, co’a gentil filosofia,
Com toda a metafísica inspirada
De Platão o divino; que em poesia
Possa caber n’esta soidão sagrada.
(I, 112-116)

Do mundo despedi-me, está despido
O manto social que me trajava:
Eu direi a razão porque hei partido
Para longe de quanto eu mais amava.
(I, 389-392)

A tendência natural dos críticos é aplainar o sentido do poema tomando, por exemplo, o verso sobre livrar-se do “manto social” como não mais que elogio de uma idílica, passada e utópica liberdade do ameríndio intocado pela cultura europeia. Mas o poema diz bem mais que isso. Diz dos problemas e desilusões que compõem “a razão porque hei partido”; e, nessa partida, ao fugir do mundo solar de Bochica mas também do mundo solar do “Platão divino”, o guesa opta pela treva, pelo caminho umbroso:

Vê-se, como tão rápido anoiteço,
Como de sombra e solidão me enluto.
(I, 379-380)

A noite eu sou, consumo a minha treva.
(I, 424)

Premido entre o atavismo de uma cosmovisão sangrenta e o cinismo de uma ideologia escravagista, o fugitivo escolhe mandar-se diretamente para o olho do furacão, onde esperava ver redimidos aqueles dois aspectos de sua desgraça. Vai assim fazer um longo périplo até chegar a Wall Street. A fuga do sacrifício o levou ao martírio lento nas mãos do grande capital; nesse trajeto, que é o trajeto biográfico de Sousândrade e também uma alegoria do destino latino-americano, podemos com facilidade reconhecer o quanto um impulso saudável de liberdade pode ser desvirtuado por soluções modernizantes fáceis. O sol-Bochica da civilização incaica é posto em paralelo com o sol-ouro da civilização moderna; donde os versos endereçados ao vil metal: “Qual dos Incas o Sol rege o universo, / Da terra a vida social tu moves, / Jano de duas frontes! e és perverso / Corruptor da virtude, dizem, ouves?” (X, 3045-3048). Isto logo após o herói retornar do inferno pela segunda vez. Primeiro escapou do inferno ameríndio, no Canto II, e agora escapa do inferno norte-americano, no Canto X (o tema clássico da descida aos ínferos, a katábasis, surge com essa originalidade no poema: ocorre, repito, duas vezes).

Nessa segunda fuga, constata: “E sinistros nos céus erram espectros / Assombrando co’a chama o firmamento” (X, 3429-3430).

A preocupação de Sousândrade com os rumos da democracia americana, com seus “espectros”, é praticamente contemporânea de quase idêntica preocupação do ensaísta uruguaio José Enrique Rodó, autor de Ariel (1900), quem sabe o mais influente e mais debatido ensaio já escrito na América hispânica. O personagem Ariel da peça A tempestade de Shakespeare, um espírito luminoso, é tomado como símbolo da civilização ocidental, da elevação espiritual, à qual se contrapõe Calibã, negra força, instinto basicamente moderno de tudo submeter ao império da matéria. A democracia norte-americana, construída sobre os valores de Ariel, passa contudo a ser movida por Calibã; e aí estariam a tentação e o risco que rondavam o pensamento latino-americano na virada do século dezenove para o século vinte: mais uma barganha fáustica, mais uma tentativa de saltar para dentro da modernidade, porém às custas de quaisquer valores – a começar pela caridade cristã e pela sensibilidade estética de origem mediterrânea – que pudessem, afinal, justificar esse salto. A democracia e a modernidade seriam assim processos entrópicos. Escreve Rodó:

Quando a democracia não eleva seu espírito pela influência de uma forte preocupação ideal que compartilhe seu império com a preocupação dos interesses materiais, ela conduz fatalmente à intimidade com o que há de medíocre, e carece, mais do que qualquer outro regime, de barreiras eficazes com as quais assegurar, dentro de um ambiente adequado, a inviolabilidade da alta cultura. Abandonada a si mesma — sem a constante retificação de uma ativa autoridade moral que a depure e direcione suas tendências no sentido da dignificação da vida —, a democracia extinguirá gradualmente toda ideia de superioridade que não se traduza em uma maior e mais ousada aptidão para as lutas do interesse, que são então a forma mais ignóbil das brutalidades da força. A seleção espiritual, a elevação da vida pela presença de estímulos desinteressados, o gosto, a arte, a suavidade dos costumes, o sentimento de admiração por todo propósito ideal perseverante e de acatamento a toda nobre supremacia, serão como fraquezas indefesas ali onde a igualdade social, que destruiu as hierarquias imperativas e infundadas, não as substitua com outras, que tenham na influência moral seu único modo de domínio e seu princípio em uma classificação racional.

Haverá naturalmente a tendência de realizar pela força aquela “retificação de uma ativa autoridade moral”; desse modo, Calibã é convidado a trabalhar para Ariel… e o resultado, bem, não agradaria a Rodó. Para ele, o futuro dos valores ocidentais estaria na América Latina e não no hemisfério norte, o qual se tornaria gradativamente incapaz de prezá-los; não deveríamos ceder um milímetro, portanto, a Calibã. Na virada do século XX, Ariel assumia o tom de um texto programático. Hoje, já parece profecia. Ou quase.

Pois em grande medida seguimos tentados por aqueles mesmos “espectros” de que fala Sousândrade, para quem sintomaticamente a República foi a última ilusão ideológica, que poderíamos ler como mais uma tentativa brasileira de fugir ao sacrifício — para assim cair em algo talvez pior que a Dança do Tatuturema (Canto II) e que o Inferno de Wall Street. O guesa logrou descer àqueles dois ínferos e de lá escapar; segue, contudo, cativo da República.


É preciso fugir, é preciso negar-se a um sacrifício irracional.

O sacrifício maior e incruento, o perdão, é o que dá à história do guesa sua coloração mais lírica que épica, isto é, refreia seu ímpeto trágico para torná-lo sumamente católico. Só por esse meio se pode compreender o aparente lapso narrativo no poema quando, no Canto IV, lemos que o guesa

Foi-se um dia – depois não houve termos
Aos dias mais. Crepúsculos caíram,
Vibraram harpas a soidão dos ermos –
E ele nunca voltou. Nunca se viram

Voltando o suna vítimas sagradas,
Que ao sacrifício por destino foram:
Voltam as multidões sobre as pegadas
Suas; os guesas, não.
(IV, 811-818)

Afinal, não tinha o guesa escapado ao suna? Sim e não.

Escapou do destino certo, do destino fatal, para assumir como fatalidade a sua falta de qualquer destino. O guesa se torna “Romeiro solitário dos espaços” (V, 1145), está em fuga permanente, não tem pouso. Ao deixar a Quinta da Vitória, a rica propriedade que herdou em sua orfandade, reconhece que “os inocentes / Dias do meu princípio estão perdidos” (V, 1239-1240). Nenhum retorno para casa lhe é possível. Para ele, não existe lar, não existe passado mítico; está condenado a ser, como diz num poema seu do livro póstumo Liras perdidas, um “Rapinário das estrelas”, o que não é só boa imagem, é imagem bem ao gosto de Sousândrade, cujo vocabulário é cheio de astros (o poeta teria, por sinal, frequentado aulas de astronomia na Sorbonne). Justamente sua condição andarilha, de quem reconhece que “Passei os oceanos tantas vezes, / Que deles fiz a pátria predileta” (V, 1309-1310), é que lhe permite olhar para o alto e realmente ver algo:

E a linguagem eu sei mística e bela
Das noites aprendida no deserto;
Da natureza eu leio à luz da estrela
No livro universal, que tenho aberto.
(V, 1361-1364)

Um excurso.

Sousândrade realmente conheceu desertos. Em uma de suas viagens de retorno da Europa, fez parada no Senegal, na verdade percorreu a região conhecida por Senegâmbia. Lá teria se envolvido com uma jovem escrava; apaixonado, compadece-se dela e compra a sua liberdade, para então encaminhá-la a um convento: salva-a assim não só da escravidão, mas também do paganismo do seu povo. Esse é o assunto do brevíssimo Canto VII de O guesa. Conforme conta no livro 30 anos com Sousândrade (2015), Carlos Torres-Marchal conseguiu encontrar o nome Joaquim de Sousa Andrade em manifesto de navio que aportou naquela região em data congruente com a redação daquele canto do poema. A imagem da bela africana-escrava-liberta retorna algumas vezes em sua obra; não é possível afirmar com inteira certeza a veracidade da história.


Mas torno ao perdão e ao sacrifício. Está lá no Canto V:

Tudo está no perdão de Madalena;
A onda é sempre a onda – e quem s’eleva
Sem primeiro cair? Foi a dura pena,
E que fatal se cumpre qual a treva!
(V, 929-932)

A dura pena será a morte do guesa no Canto-Epílogo, com a sugestão obscura, aqui e ali, de que ressuscitaria, a cumprir a lei do perdão. Sua fuga assim termina. Mas só em fuga pôde transcorrer sua existência, orientada pelo perdão (inimigo do sacrifício irracional), como só em fuga do sol primitivo e do sol moderno poderá transcorrer nossa existência sem nos entregarmos a Calibã. Um desafio derradeiro, que já começa a nos assaltar, será compreender, como escreve Rodó, que a democracia é a “entronização de Calibã”. Será compreender que teremos, para perpetuar o périplo do guesa, de mais uma vez fugir ao sacrifício.


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Comentários

5 respostas para “Viva a fuga ao sacrifício”

  1. Avatar de Persona Cinema
    Persona Cinema


    Muito bom, Ronald. Sempre tive a maior má vontade com esse poema, e com a obra do Sousândrade como um todo. Mas agora fiquei com muita vontade de lê-lo.

    1. Maravilha! Como digo a certa altura, é preciso algum esforço e paciência. Não vou dizer que seja uma das melhores obras de nossa literatura, mas é certamente uma das mais singulares, inclusive nos seus defeitos.

  2. Olá Ronald. Queria saber por onde começar o convivium, já que me vieram como que três cursos na plataforma hotmart.

    1. Oi, Bruno. Obrigado por acreditar em Convivium! Veja, eu recomendo que, em primeiro lugar, você acesse a área de curso do terceiro módulo, lá na Hotmart, e pegue o link para entrar no nosso grupo do Telegram. Lá é que são postados os links para as aulas ao vivo e materiais extras, são feitas transmissões de áudio etc. Quanto ao modo como acompanhar as aulas: vá assistindo às do módulo atual e, se possível, as alternando com as mais antigas, em sequência. Este módulo, “A alegoria do mundo”, fica de pé por si próprio, mas o escopo completo da investigação só aparece, claro, tomando os dois módulos anteriores como ponto de partida. Beleza? Em casa de mais dúvidas, fique à vontade para enviá-las no grupo do Telegram. Abraço & até breve!

      1. Muito obrigado, professor. Deus abençoe.

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