Notas de andar e ler #005
a. Ciência social e autobiografia
Insisti muitas vezes, em aulas e textos, na necessidade de olharmos para a realidade brasileira talvez não com maior benevolência, mas sem dúvida com maior interesse e senso de urgência. Em 2014, criei Nabuco – Revista Brasileira de Humanidades quase como um protesto contra a inconsciência vergonhosa de novos grupos de intelectuais, tanto dentro como fora da academia (mas principalmente fora), acerca de elementos centrais das culturas ibérica, latino-americana, brasileira. Desde então não parei de alertar as poucas pessoas que me ouvem para o fato de que a formação peculiar das sociedades católicas submetidas a uma modernização forçada e acelerada, nesta parte do mundo, não está na origem apenas de nossas desgraças. É uma circunstância que nos abre, se bem analisada, a possibilidade de não repetir as grandes desgraças da “civilização ocidental”. Podemos fugir ao sacrifício pelo qual essa civilização passa no momento.
Faz parte de minha interpretação fáustica da cultura brasileira a percepção de que, para nós, a face pessoal da existência é tão impositiva, é sentida de forma tão radical, que não concebemos ciência sem consciência, ou não distinguimos interpretação da realidade nacional de autointerpretação do próprio intérprete. Disso trato no ensaio “Como a nação escreve em nós a sua autobiografia”, publicado como posfácio a O horizonte de consciência do brasileiro: conceitos e métodos para o estudo da política e cultura nacionais, livro de Olavo de Carvalho recém-publicado que documenta um curso seu de 2016, o qual dá bem ver o fundamento pessoalista e freyriano de seu método.


b. O mundo fora do aparelho
Nas Humanidades não raro nos deparamos, nas últimas décadas, com um sentimento um tanto indefinível, mas persistente, que talvez se possa chamar de nostalgia do real. Uma das áreas em que esse sentimento se manifesta de forma mais interessante, pelo menos para mim, é a da teoria da mídia. Pois é partindo dela, especificamente de algumas reflexões de Vilém Flusser do fim da década de 1960, que no vídeo abaixo discuto como alguns elementos da filosofia de Éric Weil podem ser inspiradores para quem, hoje, busca compreender como um mundo tão repleto de mediações tecnológicas (condicionamentos, entenda-se) pode ainda guardar vias de acesso a uma realidade idealmente não condicionada, não mediada, imediata.
Para assistir ao vídeo diretamente no YouTube, clique aqui.
c. Eu transcendental e maturidade filosófica
Na Lógica da Filosofia (1950), de Éric Weil, que tenho lido e comentado neste curso de Iniciação à Filosofia com base na obra-prima do filósofo, a categoria “Consciência” assinala um ponto de maturidade filosófica na medida em que marca a despedida de qualquer ingenuidade metafísica. O ser humano, aí, já não vive plenamente acoplado ao real, como na categoria da “Verdade”, nem imerso num universo de “Certeza”, categoria que vence a barafunda discursiva da “Discussão”, tampouco vive apaziguado pela atitude de quem se posta diante de “Deus”, já que mesmo o Eu total da divindade se mostrou transcendente demais para satisfazer as necessidades do eu humano. Qualquer retorno a atitudes existenciais anteriores representará para esse novo indivíduo, que se descobriu “Consciência”, uma traição de si mesmo e da racionalidade.
Conforme compreenderá, a consciência 1) é, possivelmente, consciência de seu próprio fundamento, 2) mas, necessariamente, consciência de si mesma como fundamento de todo conhecimento.
É só ao alcançar o patamar de consciência implicado pela afirmação (2) que o ser humano adquire, para Éric Weil, a atitude existencial de quem se dirige pela consciência, agora tornada o eixo de sua atuação.
Isso parecerá ou um jogo de palavras, ou um bizantinismo. Afinal, todos nós reconhecemos nas pessoas ao nosso redor a presença de consciência, a atividade própria de indivíduos conscientes, embora dificilmente a maioria deles sequer conseguisse compreender — que dirá endossar — a afirmação de que “consciência é necessariamente consciência de si mesma como fundamento de todo conhecimento”, ou, nas palavras de Weil, a consciência é a condição absoluta, aquela que condiciona todas as demais condições.
A estranheza é logo afastada ao repararmos que Weil chamaria essas pessoas simplesmente de racionais, assim, de forma genérica; e, de forma mais específica, chamá-las-ia de crentes (caso vivam orientadas segundo a categoria “Deus”) ou, quem sabe, objetivas (caso orientadas pela categoria “Objeto“) e até mesmo pragmáticas (se orientadas pela categoria “Condição“). O indivíduo que vive segundo a imagem da perfeita conciliação de essência e existência no plano da infinitude, dela derivando a Lei pela qual dará substância concreta à sua liberdade (que até então fora apenas liberdade formal), não conhece a dor de descobrir-se num mundo onde tudo é mediado, condicionado, submetido a variáveis incontroláveis, que se quer controlar; desconhece a vida como uma sucessão de processos cada vez mais elaborados rumo ao domínio de tudo que se opõe à nossa realização.
O “homem de ciência“ no sentido iluminista da expressão, todo dedicado precisamente a essa marcha, na qual uma condição se sucede a outra num crescendo progressivo de captura da natureza pelo homem, terá de um dia fatalmente se perguntar acerca da condição de todas as condições, o elemento propiciador que concorre para as demais propiciações. Descobrirá não exteriormente, mas em si mesmo, esse fundamento, e o chamará consciência, percepção de que tudo que ocorre só ocorre para a consciência. Existirá mundo independentemente do ser humano, mas para o ser humano não existirá mundo fora da consciência. Nisso consiste a sua maturidade filosófica, ou, se quiserem, a sua despedida do Éden, a sua culpa perene. Após chegar a esse ponto, o homem não encontra mais caminho até um estágio “pré-consciente”, pré-transcendental.
A compreensão desse fato, assim como do papel inesperado que a poesia moderna desempenharia como opção radical do indivíduo consciente de sua transcendentalidade (isto é, de seu caráter de condição de possibilidade para todo conhecimento), foi objeto de discussão da décima terceira aula da Iniciação à Filosofia com Éric Weil, transmitida ontem. Você ainda pode se inscrever.
d. O povo brasileiro contra Galileu Galilei
Cerca de 10 dias atrás, ouvi da boca de um senhor de aproximados 60 anos de idade, branco “carcamano”, cearense, de fala cordata: a Terra não gira, nem se desloca no espaço, e que nem tentassem — ninguém poderia convencê-lo do contrário. Baixou então a vista, direcionando-a novamente ao TikTok. Simpatizei de imediato com aquele enigma humano à minha frente.
Fazia um bom tempo que estávamos numa fila para requisitar certo serviço público; ao meu lado alguém já havia explicado três métodos diferentes para descobrir se uma moça ainda é virgem e mais adiante uma senhora de braço hercúleo, de vasta papada e carranca intimidadora, havia apartado um início de briga, pois brigas fazem parte do rito social brasileiro de aguardar por 5 horas numa fila de serviço público.
Não sei como se iniciou a conversa; recordo apenas, quando me dei conta, de ouvir um outro senhor, baixo e moreno, com aspecto de aposentado humilde que vive entre a paróquia e a praia, retrucar com sorriso leve, mas irônico: — Não, não sou eu que digo isso não! Quem assim falou foi Galileu Galilei, eu não!
Era, como logo descobri, a invocação de um argumento de autoridade fadado ao fracasso porque dirigido àquele primeiro senhor, o cearense, que não deu sinal algum de identificar a referência. Entendeu, contudo, que se tratava provavelmente de citação de alguma figura célebre, tanto que logo replicou: — Não tem quem faça entrar na minha cabeça isso de que a Terra se move. Isso é invenção de cientista pra ganhar um cascalho.
Foi então que entendi o teor da discussão. Ele resistia com bravura, estava verdadeiramente imóvel em sua opinião. Como me vi naturalmente inserido na conversa pelo olhar convidativo dos demais colegas de fila, que assim me convocavam a ajudar a limpar as trevas daquela cabeça incrédula de qualquer ciência que não a popular, não resisti a dar alguns exemplos que pudessem facilitar a compreensão dos movimentos planetários de rotação e translação. Nenhum, mesmo o mais simplório dos exemplos, demoveu aquele senhor da sua percepção de que a Terra não se move:
— Mas se eu tô vendo que a Terra não está se mexendo! Se estivesse eu ficaria assim, paradinho aqui, e mesmo assim depois eu veria que já estava lá longe! Mas não. Eu fico parado e continuo aqui, nada tá se movendo.
Argumentei que se poderia dizer o mesmo de um surfista que está parado sobre uma prancha, mas mesmo assim se desloca sobre o mar; e que coisa idêntica valeria para uma pessoa parada dentro de um automóvel, mas que mesmo assim se desloca sobre a avenida; até aludi, quanto ao movimento de rotação, a um ponto imóvel na cabeça de um peão a girar num mesmo lugar, que assim não deslocava espacialmente aquele ponto, mas o rotacionava. Que se imaginasse um peão gigantesco a girar quase parando: quem estivesse sobre ele dificilmente se aperceberia do seu movimento caso não apelasse a outros pontos de referência, como os astros.
De nada adiantou. Ainda bem, porque meu fracasso lhe deu oportunidade de explicar-se de maneira fantástica:
— Se a Terra gira ou se move não é aqui em cima não. Porque se fosse assim hoje o estado do Maranhão estaria aqui, mas amanhã estaria lá em São Paulo, e o estado de São Paulo mês que vem estaria lá na China! Ela gira ou se move só se for embaixo, aqui em cima não.
Demorei para compreender o que dizia. E o que dizia, ou queria dizer, dependia de uma ideia com a qual jamais havia me deparado, assim, na boca de alguém à minha frente: a Terra é simplesmente a terra; o planeta não é um astro em forma de globo, ele é o chão que pisamos e sobre o qual vivemos. Aquele senhor não conseguia imaginar o planeta do modo como a astronomia, mesmo na Antiguidade, o imaginou; só conseguia imaginá-lo como as mais primevas tribos aborígenes o imaginavam e, aqui e acolá, ainda o imaginam: como chão, puro chão. E, nesse caso, a ideia de que se movesse a todo momento passava a ser absurda, contraintuitiva.
Mas que dizer sobre a terra “mover-se embaixo”? Talvez fosse um traço de pensamento científico moderno, isto é, uma referência às placas tectônicas, informação que teria pescado, vá lá, em algum programa de TV. Ou talvez fosse seu modo peculiar de se referir ao planeta Terra enquanto globo, em sua totalidade, que giraria, contudo, apenas nas antípodas (na China?).
Seja como for, o fato é que aquele senhor, vivendo no século XXI, ainda habita um universo inteiramente mítico, o que não o impede de ter fé cristã, o que ficou claro por algumas palavras suas, e gozar de todas as benesses da civilização moderna. Tanto é que, passada a discussão e tendo centrado sua atenção de novo na tela do celular, ele volta a puxar conversa comigo me mostrando uma coisa fabulosa:
— Olha aí que animal bonito! Nasceu lá no Mato Grosso do Sul, ou no Goiás, parece. Bichona linda demais mesmo.
Do que se tratava? Era nada menos que um vídeo de TikTok mostrando uma vaca com pele de onça-pintada. Não bastasse isso, a vaca ainda estava acompanhada de uma bezerrinha, com idêntico pêlo rajado de predador felino. De modo que eu estava diante de um homem que acredita que o planeta Terra não gira e que nascem vacas com pele de onça-pintada no Mato Grosso do Sul.
Não tive coragem de mencionar o termo “IA”. Constrangido e ao mesmo tempo maravilhado, aquiesci: — Realmente, senhor, mas que bicho bonito!
E ele se sentiu orgulhoso de ter me mostrado o improvável animal.
Quando afirmo que o Brasil é regido por regimes de historicidade extremamente diversos mas confundidos, compactados, é a isso que me refiro. Aquele homem vive num patamar histórico mítico, numa natureza numinosa, mas vive também num patamar histórico moderno de extrema complexidade tecnológica, acompanhado da fé numa religião profundamente marcada pelo realismo histórico. Os três patamares — historicidade mítica, historicidade cristã, historicidade moderna — coexistem em paz na cabeça daquele homem. Para ele, existe o que existe, conhece-se o que se dá a conhecer, os cinco sentidos são a regra de todo o saber, abstração não é conhecimento. E, se lhe dissessem que fora enganado por um vídeo falso gerado por computador, provavelmente diria: — Mas como enganado!? Se eu tô vendo o vídeo aqui na minha frente. Não foi ninguém que me falou não! Eu tô vendo. Ou tu achas que sou besta?
Eis aí um realismo gnosiológico radical.
E que fique claro: não, eu não acho que o senhor é besta.
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