A “interioridade humana” é fundamentalmente elusiva. Muitas vezes nos diz mais sobre nossa exterioridade que sobre nossa vivência íntima.
Poucos elementos da vida humana são tão elusivos quanto a interioridade. Sempre nos arriscamos a falar de nada quando falamos do “interior”. Mas nem sempre tivemos uma propensão tão acentuada a entreter esse assunto. Embora tratar do “coração” seja habitual desde os Evangelhos, foi na passagem do século XI para o XII que se iniciou no mundo cristão a rotina de tratados sobre o homo interior, sobre como o indivíduo – em especial, o sacerdote – deve conformar sua imaginação ou inteligência à verdade dos Evangelhos.
Nos escritos da época, eram variados os pontos de partida para a redecoração da “paisagem” interior do homem. Não emprego a palavra à toa. São Pedro Damião se valia deste símile: tudo aquilo que os olhos veem se inscreve como figura no quarto interior da mente; o que se lê, o que se vê, imagina ou medita, imprime-se interiormente; é preciso, pois, direcionar a pintura dessa íntima paisagem, e o rigorismo monástico de Damião irá requerer nada menos que uma ruptura total com o “mundo”.
O corpo e as disposições da carne representam para o santo o obstáculo principal à atividade de redirecionamento da vontade a Deus. Outros autores terão visão mais nuançada. Hugo de São Vítor preferiria ver na imaginação, ligada que é à ordem corporal da vida, um elemento a mais a ser moldado pela fé. Damião temia os pensamentos vãos como ocasião de ataque demoníaco. Hugo considerava não só impossível livrar-se inteiramente deles, como os considerava o fundo sobre o qual se deve operar o movimento de concentração da alma.
Ricardo de São Vítor, que adaptaria à pedagogia interior a tradicional doutrina da “escada até o paraíso”, com seus vários graus de elevação mental descritos em minúcia, desenvolveria uma complexa caracterologia da vida interior, expandindo-a até suas mais amplas repercussões cósmicas. Tinha por base uma estranha convenção exegética: a mente, amparada no texto escrito, deveria reencenar cada passo dele como um ator que interpreta um papel; e assim cada personagem de um passo da história da salvação, de Jacó a Benjamin, a passar por Lia e Raquel (e pelas servas de cada uma delas!) e vários outros, deveria representar na consciência do homem religioso uma certa qualidade: se Lia é a affectio e Raquel, a ratio, por fim Bejamin será o triunfo da contemplatio.
“Vês como a Sagrada Escritura”, pergunta Ricardo, “altera seu modo de significar à roda de uma e a mesma coisa, embora por toda parte sempre acrescente algo a fim de não ocultar seu significado inteiramente? Na morte de Raquel, a contemplação se eleva acima da razão; na entrada de Benjamin no Egito, a contemplação desce à imaginação; no abraço de Benjamin e José, a razão humana aplaude a revelação divina”. A mente deve se tornar um teatro para a encenação da leitura, a alcançar a compreensão final, que, para além de tropológica ou alegórica, guarda estranhas repercussões hermenêuticas, que parecem ter sido valorizadas mais pela literatura posterior do que pela filosofia (e nada nos impede, hoje, de retomar em contexto filosófico esse método de exegese textual que leva ao limite as remissões conceituais possíveis a uma determinada ideia, a qual assume tridimensionalidade com a ficção ou a história, sacra ou não).

O que irmana os escritos de Ricardo aos de Damião e Hugo é o fato de todos desenvolverem aquilo que o professor Ineke van´t Spijker chamou de “ficções da vida interior”. Muitos dos tratados posteriores, especialmente no mundo protestante, teriam características descritivas e prescritivas: “a vida interior boa é assim ou assado, portanto aja deste ou daquele modo”. Estes escritos não: assemelham-se mais com a literatura que com a teologia, destinam-se mais à performance que ao estudo, guardam maior proximidade com o gênero dos specula, os “espelhos” ou modelos nos quais o homem se vê. Esperava-se que o indivíduo testasse interiormente aqueles textos como quem recitasse um poema. E, se eventualmente os textos admoestavam, era para que o aprendiz remodelasse sua affectio, à qual daria tanta ênfase o maior discípulo de São Bernardo, Guilherme de Saint-Thierry.
Autores e ideias como os mencionados acima alimentaram o lugar-comum de que o século XII representou a “descoberta da interioridade”. Essa expressão me desconforta. É claro que outras tradições religiosas já haviam desenvolvido minuciosas tipologias da experiência interior. É claro que o próprio cristianismo já tinha alcançado antes um grau extraordinário de refinamento na autoobservação. Por que falar, então, em “descoberta da interioridade”?
Esse tema é, a meu ver, de grande importância para a compreensão do projeto humanista, mesmo em seus estágios mais avançados. A “liberdade de pensamento”, por exemplo, seria inconcebível nos escritos de autores iluministas não fosse aquele distante trabalho de teólogos. E acredito que nesse caso os frutos iluminam as sementes: o mundo moderno, o mundo plurivocal do romance – em que diferentes vozes e visões de mundo fatalmente entrarão em choque e alguma Bastilha será invadida –, veio a explicitar o fato de que a preocupação com a interioridade humana se acentua no momento em que a vida social adquire um nível inédito de complexidade, justamente esse o fenômeno a que se assiste com o ressurgimento da vida urbana em torno do ano 1200.
A vida assume uma gravidade quase heroica naquele momento: há quem esteja empenhado em reorganizar a vida monástica perante um fluxo antes jamais visto de pessoas a buscar – grande parte delas já em idade avançada – a vida consagrada, preocupação típica de São Pedro Damião; e há quem esteja empenhado em reformar os métodos de ensino, fazendo substituir a lectio (leitura e comentário de textos autorizados) pela disputatio (o peneiramento dialético das ideias, a fazer crescer todo um edifício conceitual da fundação ao capitel), preocupação distintiva e extremamente original de Pedro Abelardo.
Em Pedro Abelardo, defendo eu na terceira aula do segundo módulo de CONVIVIUM – Seminário Permanente de Humanidades, descobrimos a complicação desmesurada que a vida assume naquele momento, e podemos perceber isso especialmente através de sua Historia Calamitatum. Na “História das Minhas Calamidades”, é manifesto o pano de fundo no qual se processam todas as discussões sobre como educar interiormente o homem. Era um mundo violento, e a vida filosófica como aventura estava longe de ser só uma metáfora. Em Abelardo, nas “calamidades de um dialético”, é possível compreender que a descoberta da interioridade foi, na verdade, uma traumática descoberta da exterioridade.
Isso nos permite rever de cima a baixo a narrativa de que a modernidade é uma época de “fragmentação do sujeito”. Se o é, não o foi menos o mundo daqueles monges que nos comunicaram este fato: quando descobres onde não está teu coração, descobres o que é vida interior.
Neste vídeo, faço alguns comentários sobre o “Credo” de Pedro Abelardo. Esse texto, belíssimo, é excêntrico por harmonizar confissão apostólica ortodoxa com reivindicação radical de individualidade perante a palavra de Deus. Só quem viveu os novos traumas da protomodernidade, só quem sentiu agudamente o problema da autenticidade, poderia ter escrito algo assim.
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