A história da cultura depende de uma faixa da realidade que não possui história e jamais é objeto cultural. A redescoberta desse fato pode assumir formas fantasmagóricas, como bem sabiam os gregos.
Quando o conhecimento que temos de nós mesmos e da realidade circundante parece não comunicar mais sentido algum, é possível que esse sentido, esquecido e desprezado, assuma uma forma angustiosa e até mesmo horrenda e volte a nos importunar como um sonho que, num processo de compensação, aponta algo que temos negligenciado durante a vigília. Este é um tema importante para o próximo módulo de Convivium – Seminário Permanente de Humanidades, que irá se chamar “A Alegoria do Mundo: o Mago, o Filólogo e o Colonizador” e cujas inscrições se iniciam na próxima terça-feira (2). É o tema do retorno daquilo que se rejeitou, do espírito que caça aqueles que lhe deram as costas; e é um tema muito pertinente à nossa posição de latino-americanos perante a história do Ocidente nos últimos séculos.
Depois irei me deter mais nesse assunto. Neste texto, gostaria de fazer uma digressão, a qual nos levará primeiro à Grécia antiga e depois a um filme de 2021.
No mundo helênico, numa faixa que ia da Anatólia (parte atual da costa da Turquia) até o sul da Itália, um povo manteve viva por aproximadamente um milênio uma tradição que seria depois quase esquecida no Ocidente. É verdade que ainda hoje há pessoas nos extremos da Ásia Central ou no coração da África que cultivam a mesma prática, e há até alguns praticantes dessa arte, dizem, nas regiões mais agrárias da Itália.
Os fócios, esse povo de língua grega, eram bastante zelosos de seus ritos ancestrais. Não os abandonaram nem mesmo após as muitas andanças a que foram forçados por invasores. Em escavações realizadas próximas de Salerno ao fim da década de 1950, ficou claro o quanto se apegaram a esses ritos, pelos quais faziam o passado falar ao futuro. Ainda hoje os estamos ouvindo.
E o que dizem?
Falam-nos de lugares que metiam medo, de grutas escavadas em montanhas ou rochas muito afastadas da vida comum e que não seriam procuradas por gente prudente. Até lá iam os que estavam cansados, desiludidos, ou, melhor, cansados de viver iludidos. A vida se apresentara a eles como morte em vida. Nada mais natural que perguntar então à morte se não teria notícias de algum resquício de vida.
A pessoa, acolhida por estranhos cicerones, era levada para dentro de uma gruta e posta sobre um leito de pedra. De olhos fechados, imóvel no escuro, lá ficaria por horas, às vezes por dias. Seu pensamento gradativamente abandonaria as urgências e inconstâncias cotidianas. Seus sentidos cada vez se tonariam mais agudos. Não se pode ir ao mundo dos mortos sem um preparo prévio. É preciso fazer as malas antes de iniciar uma viagem. A pessoa se apronta para ver aquilo que precisa ver, e os primeiros indícios da visão começam a se apresentar. Um deles, contudo, não vem aos olhos da mente. Não é algo visto, mas ouvido. É um som, que alguns descreviam como o ressoar agudo do vento, outros como o sibilo de uma serpente. E esse som indicava a presença de Asclépio, filho de Apolo. Chegara para assistir ao começo da viagem. O som, escreve Peter Kingsley em Reality, “era conhecido como o som do silêncio, o som por trás de toda a criação. Era sobretudo o som que o sol emitia à medida que se movia pelo céu”.

Quem estava ali naquela gruta escura, a ouvir o sibilo, praticava uma arte cujo nome séculos depois ganharia conotação negativa: incubação. Apolo era o principal deus dos íncubos, daqueles que se deitam. E não raro àquele que se deitara era permitido encontrar-se com a Deusa. Robert Graves veria nela a divindade mais primordial e a Musa de um culto que há milênios os poetas lhe dedicam, guardando por diversas formas seus mitos, suas palavras mágicas, seu rito de morte e ressurreição anual. Isso é controverso, mas é notável. Graves a particularizava como a Deusa Branca – aquela que aparece numa passagem-chave de O asno de ouro – e a identificava a Hécate, senhora das encruzilhadas. Mas os gregos a reconheciam em primeiro lugar como Perséfone, a rainha dos ínferos.
Aquelas escavações, que mencionei há pouco, revelaram quão disseminada e importante era a prática da incubação nas franjas de uma Hélade decadente. Revelaram toda uma sucessão de sacerdotes responsáveis pelo zelo das grutas e o guiamento dos íncubos. E revelaram, coisa espantosa, que um ancestral Parmênides, o pai da metafísica ocidental, era nada menos que um sacerdote de Apolo, um homem experiente nas viagens por incubação, da qual nos dá registro seu poema Da natureza, na leitura espantosa que dele faz Peter Kingsley.
Quando relembro os momentos em que compreendi alguma coisa, em que subitamente percebi a convergência e mútua saudação de ideias e experiências que pareciam incompatíveis, vem-me logo à mente a percepção de que algo, sempre presente, consentiu em mostrar-se. Não me sinto como quem tivesse, com astúcia, resolvido um enigma por meio de algum subterfúgio sutil. Sinto-me como quem tivesse visto algo que passara despercebido: estava ali o tempo todo, mas só agora vejo.
Só que até o momento dessa percepção, que pode até assumir a forma de uma intensa revelação, eu não tinha, claro, noção alguma de sua presença. E, muitas vezes, trata-se de algo que busquei com afinco, seja o sentido das palavras que alguém me disse, seja o mistério na expressão de alguém que desentendeu-se com outrem, seja uma dificuldade qualquer que eu tenha para desempenhar certa atividade. Eu buscava e não encontrava. Não encontrava e tomava essa espécie de negativa da realidade como combustível para mais buscas. E eu me movimentava, muitas vezes sem conseguir romper a imobilidade fundamental daquele desconhecimento. O mais aborrecido é quando isso ocorre sem que eu me dê conta sequer do motivo de minha inquietude. Não sei o que me dói e no entanto busco remediá-lo. Mas até um minuto atrás não estava tudo bem?
Como estava tudo bem para Jessica, a floricultora escocesa interpretada por Tilda Swinton que passa uma temporada na Colômbia no filme Memória (2021), do tailandês Apichatpong Weerasethakul (você pode assistir ao filme no Mubi). Tudo seguia bem enquanto acompanhava a recuperação de sua irmã, que havia passado por uma cirurgia, motivo de sua viagem até aquele país. Mas eis que uma noite acorda de repente ao ouvir um barulho. Uma pancada grave, um baque surdo difícil de definir.

Não tinha sido nada na casa nem nas redondezas, conforme vai apurando. O barulho se repete e, pior, repete-se ao longo do dia, independentemente do local onde ela esteja. Só ela ouve. Como uma espécie de marcação que quebra o ritmo usual de suas atividades e expectativas, aquele baque, inserido na vida mas como que vindo de um lugar fora da vida, começa a lhe despertar desejos, reminiscências, carência de algo que precisa ser buscado interiormente, é verdade, mas também fisicamente, à maneira de quem faz a introspecção ser acompanhada de uma expedição por terras vizinhas.
O filme quase não tem trilha sonora, ou melhor, compõem sua trilha a partir do som externo captado, como é o caso de uma jam session longa e enérgica a que Jessica assiste por acaso numa escola de música. A fotografia enfatiza a necessidade de ouvirmos, em especial de ouvirmos o silêncio. O filme é montado sobre frames estáticos, que quase nunca se movem, antes captam o pouco movimento dos personagens. A câmera não quer flagrar nada, não comete violência em busca da sugestão de algum significado. Ela apenas fica à espera.
Na tentativa de esclarecer para si própria o que é aquela pancada que a sobressalta imprevisivelmente, Jessica busca a ajuda de um técnico de som, que, num estúdio, lhe apresenta uma ampla gama de ruídos e busca isolar e editar o que for mais próximo do que a memória dela foi capaz de reter. O modo como busca na memória aquele ruído, o modo como apara suas sutilezas e busca transmiti-las a outra pessoa, é em tudo idêntico ao modo de quem, por um processo de anamnese, busca o que está na raiz de uma neurose, ou o que está na raiz de… tudo.
Depois de conhecer uma arqueóloga e tomar ciência das regiões onde trabalha, Jessica decide radicalizar seu desterro. Deixará Medellín e se dirigirá a um pueblo em busca daqueles detritos de ancestralidade. Encontrará coisa bem diversa, contudo. Pois encontra Hernán (interpretado por Elkín Dias), um morador da região que domina a língua dos animais, os entende, a exemplo de quando ouve o que seria um desentendimento entre macacos. Fabrica sua própria aguardente e pesca sua própria comida. Jamais deixa o povoado e considera uma imprudência ter experiências demais. Não vê TV nem filmes, não busca nada além daquilo que está imediatamente à sua frente. Não tem grandes perguntas e por isso tem algumas respostas.
A determinada altura, Hernán diz que sua “raça” não dorme. Apenas se deita e “pára”. Jessica pede para ver, e ele prontamente, mas lentamente, se deita sobre a relva. Em meio à natureza, no espaço aberto e sob a luz solar – e não em um afastado e fechado lugar escuro –, ele assume a posição de íncubo. O enquadramento da câmera, num dos raros closes ao longo de todo o filme, o mostra absolutamente imóvel, com os olhos entreabertos, realmente um homem mais estático que extático, realmente um quase morto, na verdade um morto mesmo. Passam-se minutos, talvez cinco minutos, eu não saberia precisar, e não vemos mais que seu rosto. Até que lentamente ele retorna até nós, mexe sutilmente os lábios, as pálpebras, movimenta as pupilas.
Os diálogos posteriores entre Jessica e Hernán irão revelar que ela, de alguma forma, estava vivenciando interiormente experiências que na verdade eram memórias dele. Memórias muito distantes, que iam dar na sua infância, em especial a memória daquele barulho. Não um sibilo, mas uma pancada, uma pancada ouvida por Hernán quando menino. A natureza singular do barulho dá oportunidade a imagens oníricas, entre o fantástico e o sci-fi, que você precisa assistir para compreender.
A narrativa visual ao fim transmite uma tranquilidade que torna possível supor que a pancada não mais retornou à consciência de Jessica. Apaziguou-se. Ela se reaproximou de algo muito ancestral, que era ao mesmo tempo profundamente pessoal e inteiramente outro, que ia longe dentro dela mas também estava na memória de Hernán (e na de todos nós). O espírito não precisou mais caçá-la. Ela havia saído da Inglaterra e se dirigido às matas da Colômbia para acabar cercada por um mundo espiritual que só poderia, a princípio, ser vivido como fator de desordem e perturbação – mas também como um distante convite. Ela conheceu a terra ancestral, a terra da qual sua amiga antropóloga removia fósseis de crianças que tiveram o crânio perfurado para que dele saíssem os espíritos maus. Conheceu a terra das águas profundas, as águas nas quais Hernán pescava e das quais lhe dava notícias misteriosas. E assim conheceu o que resta tranquilo por baixo de tudo o que se agita. Quem não age, ensina o Dao De Jing, é mais sábio que quem age; o imóvel reina sobre o móvel.
Para Jessica, o sibilo da memória teve função similar ao sibilo que ouviam os zeladores do culto de Apolo. Como eles, ela viajou ao mundo dos mortos, viu Hernán morrer e voltar à vida, mas o pôde fazer com total clareza e vigilância. Ela foi a uma terra distante, esta terra americana onde vivemos, para aqui descobrir o caminho de volta para casa. O caminho até a imobilidade por trás de toda mobilidade, o caminho no qual a informação encontra o sentido, o caminho até aquela faixa da realidade que não possui história – é permanente memória de algo para sempre ancestral – e jamais pode se tornar objeto cultural, embora seja a própria base de toda a cultura.
Há, pois bem, uma memória funda e abissal que pede para ser sazonalmente trazida de volta à superfície da cultura. Desconsiderar suas requisições é ato que não passa impune.
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