O romantismo da ciência

É ilusão achar que existe um mundo estimulante e caótico diverso do mundo anódino da vida comum. É a vida comum que interessa.

Fiquei muito interessado em ler Quando deixamos de entender o mundo (2020), do chileno Benjamin Labatut, após saber que no livro havia uma narrativa sobre Alexander Grothendieck, matemático (e improvável escritor) francês – possivelmente o criador dos métodos de pensamento formal mais abstratos e ambiciosos do século XX, um século no qual não faltaram abstracionistas. A vida de Grothendieck, bem, é aquela coisa: gênio da ciência que se retira do mundo após largar mulher, filhos e trabalho, e é de vez em quando visto no meio do mato, onde viveria isolado e comendo o que plantava. Morre em 2014. Os detalhes podem ser encontrados nas seguintes fontes:

  1. Uma boa e sucinta reportagem de João Moreira Sales: “A voz das coisas”, revista piauí, dez. 2014;

  2. Uma reportagem recentíssima de Rivka Galchen para The New Yorker: “The Mysterious Disappearance of a Revolutionary Mathematician”;

  3. Um artigo cronologicamente mais detalhado – e mais informativo, do ponto de vista matemático – de Jørgen Veisdal para a excelente Cantor’s Paradise: “The Anarchist Abstractionist — Who was Alexander Grothendieck?”;

  4. Por fim, meu texto favorito sobre o homem: “A Country Known Only by Name”, escrito por Pierre Cartier, que, um dos grandes da França, foi amigo de Grothendieck e membro do lendário grupo Nicolas Bourbaki (como o próprio Grothendieck, aliás). Trata da matemática do amigo com maior exatidão, porém também com grande leveza, de modo que oferece um roteiro de tópicos que o amador deve percorrer para começar a apreender os conceitos desenvolvidos pelo “anarquista abstracionista”. (Não conseguirei terminar de percorrer sequer a superfície de tudo isso.)

(Se você quiser mais Grothendieck, vá à Leila Schneps.)

O texto carro-chefe de Labatut, “O coração do coração”, é no fim das contas uma pálida reportagem com casuais enxertos reflexivos (Grothendieck é retratado parelho a Shinichi Mochizuki: google it). Não me darei ao trabalho de comentá-lo mais longamente, sequer citá-lo. Gostaria de notar quão impressionante é que um texto débil, mesmo xoxo, tenha despertado tanto interesse (na medida em que literatura, hoje, é capaz de despertar “tanto” interesse). Os méritos literários de Labatut são quase nulos, ou pelo menos bem pouco salientes, e o que atrai o leitor é nada mais que a figura hipnótica de Grothendieck. Tivesse o leitor ouvido falar pela primeira vez dele através da boa reportagem acima linkada de João Moreira Sales, e todo e qualquer encanto da narrativa de Labatut se desfaria.

Ou talvez não.

Pois o que interessa a esse público é a convergência de ciência e loucura. A razão produz monstros, vocês sabem, e todos nós estamos entediados com o mundo muito bem acabadinho da técnica e dos algoritmos impessoais (se bem que eu mesmo, pessoalmente, não estou). Quando surge, então, a figura de alguém que busca levar a razão aos seus limites, e supostamente descobre que existem esses limites e passa a se comportar de maneira pouco usual, aí se tem o vislumbre de que a vida pode não ser tão sem graça assim. Em resumo, romantismo. E uma mentira, como o é todo romantismo.

A loucura nada tem de atrativo. Quem já viu um louco de verdade bem na sua frente sabe disso. O louco não possui um mundo imaginativo mais rico que o da pessoa sã; é um mundo mais pobre, mais esquemático, mais… sem graça. Quando somos atraídos, portanto, por uma lenda romântica como a construída em torno de Grothendieck, estamos expressando inadequadamente o anseio por uma vida mais autêntica. Uma vida mais autêntica poderia começar, por exemplo, pelo esforço de compreender o que Grothendieck criou e por refrear o impulso de impressionar-se com qualquer história de fuga à cotidianidade mais chã. Um próximo passo seria sepultar a ilusão de que existe um mundo estimulante e caótico (o mundo da “poesia”, “loucura”, “religião”) diverso do mundo anódino da vida comum (o mundo da “ciência”, “razão”, “matéria”).

O mundo é um só, mas você se deixou abater e apelou à facilidade de culpá-lo pelo que é uma cisão produzida pela sensibilidade moderna, da qual você partilha sem jamais se dar conta.


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