Ninguém é brasileiro

O que rolou em Convivium até aqui (jun. 2024); e recomendação de um livro.

Convivium – Seminário Permanente de Humanidades segue em atividade e com inscrições permanentemente abertas. Se você ainda não conhece o projeto e o novo módulo “A Alegoria do Mundo: o Mago, o Filólogo e o Colonizador”, peço que acesse o link anterior e também leia alguns textos sobre o projeto.

Neste terceiro módulo, tivemos ao longo de pouco mais de um mês:

  • “Ninguém é brasileiro. Consciência histórica e alegoria”. Aula pré-gravada de 35 minutos em que discuto, em linhas gerais, a visão histórica (ou pós-histórica) que tenho do Brasil e do modo como se pode, a partir de nossa condição, fazer uma crítica à modernidade europeia. Faço uma descrição ampla do que planejei para o conjunto de 12 aulas que se alongarão por um ano, com vídeos complementares e acesso a escritos inéditos meus. O acesso do Brasil à modernidade foi e continua sendo problemático, o que não deve ser coisa apenas a lamentar. A ideia de Vilém Flusser de que “Ninguém é brasileiro” reflete, pelo avesso, a circunstância exótica de termos sido… “descobertos”. O Brasil foi descoberto e por isso o Brasil não é o Brasil. Quem o habita, habita-o em larga medida para além de identidades claras e estáveis.

  • “O mundo da alegoria (I)”. Primeira aula ao vivo, de aproximadamente uma hora e meia (a gravação está disponível). Ao retomar duas cenas do Fausto de Goethe, faço uma ligeira revisão do primeiro módulo de Convivium e construo uma ponte até o estado atual de minha investigação. Aí, retomar a distinção de símbolo e alegoria se torna da maior importância, e mais ainda dos diversos tipos de alegoria (a antiga, a medieval, a renascentista). Defendo que se pode falar de uma modalidade de pensamento especificamente alegórica; e que essa modalidade, abstrata o quanto pareça, é a que melhor se coaduna aos modos modernos — e mesmo os mais materialistas — de experiência da realidade. O paradoxo, que é apenas aparente, será explorado nas próximas aulas.

  • “Algumas alegorias (em Virgílio, Ovídio e Petrarca)”. Aula pré-gravada de 35 minutos, que serviu de complemento à primeira aula ao vivo. De nada adianta discutir apenas em abstrato o que é ou não é alegoria, e quais seriam os seus modos mentais; é preciso ir aos seus exemplos históricos mais expressivos na literatura e nas artes plásticas. O caso dos Triunfos de Petrarca, como defendo no vídeo, é especialmente expressivo.

  • Transmissão de áudio para tirar dúvidas. Está marcada para amanhã (6), às 20h30, a ocorrer no grupo do Telegram a que os alunos têm acesso. Adiantarei um pouco do tratamento que darei a Perceval ou o Romance do Graal, um dos textos que discutirei na próxima aula ao vivo, a ocorrer na próxima semana.

Um detalhe importante, que sempre gera dúvidas: para acompanhar este terceiro módulo de Convivium, não é preciso ter assistido aos dois anteriores, embora eu recomende com ênfase que você assista também a todas as aulas pretéritas. É algo viável, veja bem; esse foi um dos motivos que me levaram a estender este novo módulo por 12 meses, e não apenas três, como antes: desse modo, o novo aluno terá tempo de sobra para tomar ciência de tudo o que ficou para atrás. A inscrição nos três módulos sai, naturalmente, mais em conta.

Por favor, após se inscrever não esqueça de acessar a área do terceiro módulo na Hotmart e clicar no link que o conduzirá ao nosso grupo no Telegram, onde estão postados os materiais complementares.


Foi publicado há pouco este livro, que faz bem ter em casa:

André Rebouças (1838-1898) é dos personagens mais interessantes da história do Brasil. Negro com trânsito livre nas altas classes, engenheiro responsável por projetos de grande porte no Império, abolicionista de primeira hora, foi um homem de cultura respeitável, experiência cosmopolita e escritor reservado. Não que não se expusesse às lides na imprensa, com nome sempre próximo, por exemplo, ao de um José do Patrocínio. Mas foi nas notas despretensiosas e até taquigráficas de seus Diários que mostrou seu talento de escritor e observador da realidade nacional.

Neles vocês descobrirão que esse homem era um obcecado pelos astros. É comum encontrarmos entradas como esta: “Noite estrelada com Vênus, Júpiter, Saturno e Marte; madrugada belíssima com lua em minguante; dia de sol”. Ou: “Noite estrelada maravilhosa; pela primeira vez Cruzeiro do Sul a SSE às 7 1/2”. Ou ainda: “bela madrugada com Plêiades, Taurus, Saturno, Órion, Lua, Marte, Júpiter”. Às vezes parece que estou lendo um haikai (ou haiku, pois soube que aquela primeira forma, mais conhecida no Brasil, seria plural).

Talvez você não seja o tipo de leitor que se empolgue com “6h — Avistaram-se as verdes colinas de Pernambuco”, ou “Durante quase todo o dia atravessamos bancos amarelos-d’ouro de ovas de peixe; alguns cardumes correram e saltaram emparelhando com o paquete Neva”. Mas eu sou esse tipo de leitor. Claro, acompanhar detalhes de encontros de abolicionistas e de políticos e empresários responsáveis por projetar a infraestrutura do Brasil também ajuda a manter vivo o interesse na leitura.

O livro é uma belezura gráfica e muito agradável de ter em mãos, duas marcas da Chão Editora, que vem publicando documentos históricos nacionais de primeira importância.

Resta-me adquirir o volume de correspondência de André Rebouças.


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