A Eneida e o projeto humanista

Por que e como irei reler a “Eneida” com vocês.

Preparo-me, no momento, para passar cinco meses lendo e comentando a Eneida de Virgílio, obra clássica por excelência, e gostaria de convidar você a que me acompanhe. Mas preciso primeiro lhe explicar por que considerei necessário me atirar a essa empresa, que será conduzida através de textos e vídeos veiculados nesta newsletter.

Convivium

Em março deste ano, dei início a CONVIVIUM – Seminário Permanente de Humanidades. Por três meses, dediquei-me com colegas e alunos, em encontros semanais ao vivo complementados por postagens exclusivas em um grupo no Telegram, à leitura integral do Fausto de Goethe e à discussão de outras obras e autores (Santo Tomás, Erasmo, Pascal, Fichte, T.E. Hulme) importantes para a compreensão do que chamo “projeto humanista”.

Não é possível compreender a história do Ocidente nos últimos quatro séculos de um ponto de vista puramente crítico e de rechaço da modernidade (tanto à esquerda como à direita do espectro político). Bem melhor será compreender a modernidade como só mais um momento de um programa que se inicia com a institucionalização do cristianismo.

Dito de outro modo, a modernidade seria um ponto de chegada inevitável da civilização cristã, e o humanismo moderno, que por muitos motivos prefiro chamar “projeto humanista”, seria uma tentação erudita que nos achaca de vez em quando e que só faz sentido no Ocidente: descrevo-o como uma “nova aposta da Pascal”, um voto de confiança depositado na ideia de conhecimento, só que desacompanhado de qualquer consciência da finalidade ou sentido do conhecimento.

Esse fenômeno pode ter se intensificado a partir do século XV, mas episódios seus podem ser rastreados em épocas mais recuadas e em documentos inesperados. Assim, pensei se não seria frutífero investigar certa autoimagem do indivíduo que começa a se esboçar a partir do século XII com a difusão do gênero autobiográfico de texto. Quatro escritos fundamentais – de Pedro Abelardo, Dante Alighieri, Girolamo Cardano e Santa Teresa d’Ávila – servem de baliza à investigação da “história tácita” de nossa sensibilidade, a buscar as origens do projeto humanista. É o que faço no segundo módulo de CONVIVIUM, que se encerrará na próxima semana.

E que virá em seguida? Virá a Eneida.

Eneida

São tantas as menções sintomáticas a Virgílio com que deparei ao estudar alguns marcos do projeto humanista, que concluí ser necessária uma leitura mais circunstanciada de sua obra – daí a ideia de desenvolver comentários nesse sentido em minha newsletter, a começar na segunda quinzena de outubro e a concluir, espero, em março.

A Eneida pode servir de termômetro para o projeto humanista. Virgílio, tornado um taumaturgo, é pai de profecias no primeiro milênio cristão. Por volta do século XII, torna-se o modelo de um novo tipo de épico alegórico latino, como no Anticlaudiano de Alain de Lille. No Renascimento italiano será preterido por Cícero e Tito Lívio, no classicismo alemão estará abaixo de Homero. O Virgílio Brazileiro (1858) de Odorico Mendes funda nossa erudição latina.

O momento é propício para a leitura da Eneida. Duas novas traduções foram impressas este ano: lá em Portugal, a de Carlos Ascenso André (ed. Quetzal); aqui, a de João Carlos de Melo Mota (ed. Autêntica).

Penso em escrever mensalmente dois textos sobre as passagens mais importantes para a investigação que me move e de vez em quando gravar vídeos complementares. Irei prezar pela leveza dos comentários e darei atenção, sempre que conveniente, a possíveis dificuldades de leitores com menos experiência. Você pode ler a edição que tiver à mão (a de Carlos Alberto Nunes, pela Ed. 34, é bem acessível, bilíngue e com grande aparato); tenho lido a de Ascenso André (também bilíngue).

Não se intimide. Mais que um clássico, ou justamente por ser o maior dos clássicos, a Eneida é uma obra que instrui, diverte e sempre nos conduz à página seguinte.


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