Por baixo da fala, por trás do mundo

Saudações pataphysicas

* Vale a pena assistir a este documentário sobre o Santa Fe Institute.

* Aguardei de joelhos por dez anos a publicação de Gestas  e Opiniões do Doutor Fraustroll, pataphysico — romance neoscientifico, de Alfred Jarry, agora finalmente saído da oficina artesanal das Edições Nephelibata, segredo bem guardado do interior de Santa Catarina que em breve me arrependerei de ter divulgado aqui. Os 71 exemplares da primeira edição se esgotaram, mas haverá nova tiragem em dezembro. Fique esperto.

* Lá se foram as duas primeiras aulas de Iniciação à Filosofia com Éric Weil. Você ainda pode se inscrever, assistir às gravações das aulas anteriores e acompanhar as próximas transmissões ao vivo. Informe-se e inscreva-se.

Dos Cadernos de Filosofia Adiada

a. Luz escura

Uma parte significativa das obras de maior impacto cultural nos últimos cem anos apresenta grau acentuado de dificuldade de leitura, como estamos cansados de saber. Estranhamente, contudo, essa dificuldade tornou a influência delas mais profunda e mais pervasiva. É o caso de obras literárias como Ulisses e A morte de Virgílio, de quadros como as Composições (Mondrian) e Guernica, como é também o caso de obras filosóficas como as Investigações Lógicas, de Edmund Husserl, A Estrela da Redenção, de Franz Rosenzweig (especialmente a primeira de suas três partes), e Ser e Tempo, de Heidegger.

Esse baixo grau de legibilidade imediata foi tomado, em geral, como marca da cultura profissional de seus autores e barreira necessária a ser transposta por todo aquele que quisesse ser mais que um beletrista, mais que um afetado burguês educado. Se outras épocas relegavam à obscuridade tudo aquilo que fosse obscuro, a alta modernidade, ao contrário, puxava para o seu centro tudo que fosse um foco de luz escura, tudo aquilo que se punha deliberadamente à margem, embora com pretensões de julgar o que estava até então no centro.

Tenho a convicção de que Ser e Tempo poderia ter não mais que 100 páginas (e não as 480 de sua edição definitiva), assim como tenho a convicção de que a mensagem do seu autor, nesse caso, não teria sido ouvida com o mesmo interesse. Grande parte do sucesso de Heidegger reside justamente no seu modo de expressão, na maneira como simula trazer à superfície do texto o funcionamento racional da busca por algo que possibilita a própria razão e, por isso, está fora do alcance de suas ferramentas usuais. Autores como Heidegger — também o “último Wittgenstein”, sempre lembrado a esse propósito — desejam conduzir o leitor até aquilo que se manifesta por baixo da fala, por trás do mundo.

Mas esse impulso poético (já falarei dele) se presta facilmente a contrafações e garante o sucesso de carreiristas. Com o pós-estruturalismo e seus derivados, chegaríamos à situação presente, na qual a banalidade cerca a filosofia por cima e por baixo: por cima através do esoterismo de significado escasso daqueles que apenas se habituaram a lidar com certo vocabulário em certa linha de pesquisa, por baixo através do comodismo daqueles que, incomodados, se refugiaram na clareza fácil das escolas “clássicas”, com seus Aristóteles e Santo Tomás reduzidos a uma rotina de repetições previsíveis e indignas de suas obras originais.

Esse risco de banalização de uma filosofia por meio de uma hipertrofia conceitual de seu léxico inclusive se mostra, conforme discuto na seção final deste texto, na tradução que determinados termos de Heidegger infelizmente ganharam no Brasil.

b. Clareza de Heidegger

O esforço para alcançar um chão pré-categórico, prévio a todas as determinações particulares da existência, como quem quisesse ter um vislumbre do palco (melhor: do teatro inteiro) dentro do qual se desenrola o drama da existência de tudo quanto existe ou pode vir a existir, é sem dúvida louvável, é na verdade até heroico, pois qualquer pessoa com um pingo de bom senso saberá desde o princípio que se trata de tarefa impossível, de progresso na melhor das hipóteses assintótico. O máximo que se alcançará é apontar para o teatro, jamais descrevê-lo diretamente.

A filosofia de Heidegger, seu esforço de religar a consciência à existência concreta desse ser (o homem) que se define por sua capacidade de indagar pelo ser, poderá sem dúvida ser responsabilizada por criar tantos outros meios de ampliar a distância entre aquela consciência e aquela existência. Foi de todo modo uma tentativa respeitável de superar os abismos que vinham se abrindo entre razão e realidade. “A filosofia do século XIX”, escreve Hans Ulrich Gumbrecht num dos ensaios de Atmosfera, ambiência, Stimmung, “ficara fixada na impressão de que ‘sujeito’ (no sentido de ‘consciência individual’) e ‘objeto’ (no sentido de ‘coisas-no-mundo’) continuavam se afastando cada dia mais. A fenomenologia de Edmund Husserl, mentor de Heidegger, prometia lidar com essa condição e chegar a uma nova certeza acerca do que definia sujeito e objeto. Por seu lado, Heidegger simplesmente descartou o binômio epistemológico, substituindo o esquema sujeito/objeto pela ideia de ‘ser-no-mundo’”. E, ao fazer essa escolha, o emprego de linguagem poética (forma mais acabada da linguagem como “morada do ser”) se tornaria menos uma opção que uma sina. Afinal, de que outro modo poderíamos levar às últimas consequências um discurso sobre o que está na origem de qualquer possibilidade de discurso? Nesse caso, a clareza expositiva requer um pouco de lusco-fusco.

Curiosamente, no meio de estudos de Heidegger no Brasil se empregou por décadas — e ainda se emprega muito — um vocábulo que tem grande importância na obra de Olavo de Carvalho:

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