Preâmbulo
* Foi reeditado no fim do ano passado, só agora descubro, O aventuroso Simplicissimus (1668-1669), de Grimmelshausen, há anos supervalorizado no mercado negro de livros. Escrevi um pouco a respeito dessa obra quixotesca talvez não tão importante quanto o Quixote, mas para mim bem mais engraçada, num texto em duas partes intitulado “A banalidade da narrativa”, que veiculei três anos atrás e que agora, com a possibilidade de reler o romance, ampliarei e enviarei somente para os apoiadores de A Fantasia Exata.
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* O texto abaixo dá continuidade àquele veiculado na newsletter anterior: “Quando a forma encontra o sentido”.
A arte contra o sonho. A fantasia exata, parte 2
Dos Cadernos de Filosofia Adiada
A liberdade artística consiste em sua necessidade.
Na verdade, a liberdade humana em geral e a simples existência de cada coisa, mesmo a mais inanimada e de aparente insignificância, dependem de que nós e tudo mais tenhamos limite, individualidade, forma necessária, enquanto necessariamente alguém, isto, aquilo.
A gratuidade onírica dificilmente se presta a arte que preste.
Semanas atrás, sonhei que estava jogando The Legend of Zelda: A Link to the Past, aquele video game para Super Nintendo, e que após derrotar um chefe, que me dava acesso a um vale, eu tinha a opção de abrir na área 39 lojas da Havan. Assim fiz e acordei logo em seguida.

Fiquei a pensar nesse sonho e no modo como ele resumia de forma didática algumas das características mais comuns à vida onírica: ele mesclava, indiferentemente, o virtual com o atual, ou o digital com o concreto, de maneira quase irônica; superpunha praxes de um domínio da vida (o econômico) a outro domínio inteiramente diverso (o lúdico); estabelecia uma causalidade incoerente que, contudo, no momento pareceu perfeita e precisa (como a possibilidade de abrir aquelas lojas poderia ser um prêmio por chegar a determinado estágio do jogo?); inseria o estilo brega de novo rico brasileiro em meio a uma paisagem de florestas e castelos medievais; transformava dados bastante concretos (prédios enormes em sua materialidade) em não mais que ícones manipuláveis. A diferença entre o meu mundo mental e o mundo ao meu redor, mesmo aquele que me é mais intragável, desfaz-se em prol de uma identidade geral pré-pessoal (ou simplesmente “ôntica”, indiferente aos seres particulares e suas respectivas subjetividades).
O sonho me fez lembrar de alguns textos que confrontam nossa vida noturna à nossa vida diurna. Seleciono, abaixo, alguns trechos dos “Estudos e fragmentos sobre o sonho”, de Paul Valéry, que João Alexandre Barbosa traduziu e reuniu no volume Variedades:
O sonho fica aquém da vontade, e você nada obtém pela vontade a partir da fronteira do sonho. Todas as facilidades, todos os impedimentos mudam de lugar: as portas são muradas, e os muros são de gaze. Há nomes conhecidos em pessoas desconhecidas. O que tornaria absurdas essas coisas está dormindo. É absurdo andar com as mãos; mas se não tivermos mais pernas e precisarmos nos deslocar, não haverá outro jeito. (…)
No sonho, tudo me é imposto da mesma forma. Acordado, distingo graus de necessidade e de estabilidade. (…)
Uma vez adormecido, não posso mais acordar voluntariamente, não posso ver o despertar como um objetivo. Perdi o vigor para olhar alguma coisa como um sonho. (…)
No sonho, as operações não se amontoam, não são percebidas como fatores independentes. Há sequências, não consequências. Não há objetivos, mas o sentimento de um objetivo. (…)
O sonho nunca realiza esse acabado admirável que a percepção atinge durante a vigília e a claridade.
Todas essas características se assinalam naquele meu sonho. Eu não queria fazer nada daquilo; tudo estava aquém da minha vontade, tudo se passava à minha revelia (o estar jogando, o ser vitorioso, o ser estranhamente recompensado). Não considerava ser possível sonhar, ver algo realizar-se segundo um modo pretensamente usual — aquele que, fora dali, eu acharia incoerente e impossível —; antes, pensava serem as coisas normalmente daquele modo e nada me espantava pela sua quase irreverência. Não me percebia empenhado em algo; afinal, como já dito, tinha minha vontade guiada por algo que fugia ao meu controle, e toda e qualquer ideia de fim, do melhor meio para alcançá-lo, era pura impossibilidade, era mesmo inimaginável. Por isso, sem a perspectiva de onde saí e para onde vou, sem distinguir o que quero e a possibilidade de alcançá-lo, tudo padece de uma qualidade de coisa transitória, ou fluida, ou não absolutamente necessária, o que situa esse modo de experiência na antípoda do limite, da definição, do acabado, do formalmente isto e não aquilo.
Paul Valéry, que volta e meia se referia à “poesia das maravilhas e das emoções (com a qual sonhei durante toda minha vida)”, sabia quão difícil era fazer a transposição de material onírico para o âmbito da criação artística, intelectual, científica. Não faltarão aqueles que de pronto compreenderão, ainda que a seu modo (e não ao de Valéry), a distância entre sonho e ciência. Assim como não faltarão aqueles que entenderão haver uma continuidade direta entre universo onírico e universo poético, o que não procede: todas aquelas qualidades apontadas por Valéry, as quais reconheci em meu sonho, são inteiramente contrárias à disposição criativa, a qual necessita de um mundo materialmente concreto — e resistente aos nossos desígnios — para realizar-se. Qualidades oníricas podem estimular a fantasia, mas não suscitar uma fantasia exata. Nos sonhos não é possível distinguir, como escreve Valéry, “graus de necessidade e de estabilidade”.
No capítulo 14 de Sentimento e forma, escreve Susanne Langer (trad. Ana M. Goldberger Coelho):
O que, então, distingue realmente a poesia do sonho e da neurose?
Acima de tudo, seu propósito, que é transmitir algo que o poeta sabe e deseja expor pela única forma simbólica que pode expressá-lo. Um poema não é, como um sonho, um representante de ideias literais, destinado a esconder desejos e sentimentos de nós mesmos e dos outros; está destinado a ser sempre transparente emocionalmente. Como toda expressão deliberada, ele se encaixa dentro de um padrão público de excelência. Ninguém diz de uma pessoa adormecida que ela sonha de modo desajeitado, nem de um neurótico que seus sintomas se conjugam sem cuidado; mas um poeta pode com certeza ser acusado de inépcia ou falta de cuidado. O processo de organização poética não é uma associação espontânea de imagens, palavras, situações, e emoções, todas espantosamente entrelaçadas, sem esforço, através da atividade inconsciente que Freud chamava de “o trabalho do sonho”. A composição literária, por mais “inspirada” que seja, requer invenção, julgamento, frequentemente tentativas e rejeições, e longa contemplação. É possível que um ar de proferição espontânea não-estudada seja obtido tão laboriosamente quanto qualquer outra qualidade na ficção poética.
O processo de criação de uma obra é formal, limitativo, marcado pela necessidade de delineamento, portanto. O que tornava os textos de Afonxo X e de Gottfried Keller duas versões de uma mesma lenda, como discuti em texto anterior, é justamente esse elemento de constrição. Como se o artista fosse artista por necessidade. Como se algo que é, que é assim ou assado, o fosse por necessidade.
Como, contudo, distinguir uma forma necessária de uma forma gratuita? (O contraste com a gratuidade onírica pode servir de ponto de partida, mas não de chegada.)
Seja qual for a resposta — a minha, ainda a esboçarei —, saibamos desde logo que aquela pergunta equivale a esta outra: como distinguir uma forma?
Na próxima semana
Continuarei a dar tratamento esquivo, pelas beiradas, ao tema da “fantasia exata”. Tratarei de um quadro de Leonardo da Vinci e do significado que a “caverna” assume em seus escritos e em sua arte. Ou antes falarei de Totolino, de Alexandre Soares Silva, livro que alcança uma forma própria tendo por base uma série de sonhos informes? Veremos.
Também Vicente Ferreira da Silva (vide abaixo) voltará a aparecer fantasiado de Hermes nos trópicos. (Não, eu não darei esse prompt em nenhuma ferramenta de IA.)
Vicente Ferreira da Silva e o mundo da “natureza”
Seminário Impermanente #1
Ao longo de toda a discussão acima, ficou suposta uma cisão de base que em nenhum momento é expressa de maneira clara e direta. É que, para falar de um rompimento da concepção mítica da linguagem e em seu enquadramento segundo as expectativas de um mundo regido pela necessidade, e não mais pela simples “imaginação” (o que, de resto, é uma expressão inadequada), é preciso que antes se tenha destacado e isolado do ser humano um campo de ação — o da “objetividade” — ao qual se daria o nome de natureza.
O assim chamado “mundo objetivo”, ou “mundo natural” ao qual o ser humano se opõe com a sua “história”, não tem contudo nada de natural, nada de primacial e incontrovertido, tanto que o filósofo Vicente Ferreira da Silva inicia a parte final e mais alta de sua atividade filosófica justamente com algumas controvérsias acerca do conceito de “natureza”. Disso trato no vídeo abaixo.
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3 respostas para “A arte contra o sonho”