Neste sábado (15), às 19h, discutirei o livro Saturno nos Trópicos: a melancolia europeia chega ao Brasil, de Moacyr Scliar, em aula ao vivo de Convivium – Seminário Permanente de Humanidades, cujas inscrições seguem abertas.

O livro parte de um paralelo instigante: da mesma maneira como o início da modernidade europeia foi marcado pela peste, pela mortandade e por um sentimento (e até cultivo desejoso) da melancolia, também o Brasil passou a se inserir na modernidade, após a chegada da família real (1808), com
1) a disseminação de novas doenças (como a febre amarela, que chega aqui em 1849 a bordo de um navio ironicamente chamado Brazil);
2) o surgimento de novos problemas sanitários e a incompreensão de novos problemas de saúde pública (veja-se a Revolta da Vacina);
3) e a dor, meio ancestral, meio moda nova, que se traduz numa tristeza morna, não desesperada, mas acomodatícia, cujo registro literário mais claro está no Retrato do Brasil (1928), de Paulo Prado.
Segundo esse ponto de vista, afirmações costumeiras acerca de fenômenos bárbaros como o de Canudos ou de Pedra Bonita, no sentido de que foram produtos de uma mentalidade pré-moderna, irracional, pedem por revisão. Euclides da Cunha chamou Antônio Conselheiro de “gnóstico bronco”, “heresiarca do século II em plena idade moderna”. Não é bem assim; seria antes o caso de dizer que o messianismo e a violência tão entranhados na sociedade brasileira nos chegaram por via moderna; e de dizer que certa liberdade e abertura de espírito do Novo Mundo foram rapidamente acomodadas numa rotina de pensamento pós-utópico, senão cínico: o processo colonizador, corolário necessário da modernidade, começa com Colombo em busca de ouro para financiar uma nova Cruzada, começa com a busca de um Eldorado, para terminar em discussões bastante sutis sobre quão lícito é seviciar ou matar um negro, um índio.
O que começou como alegoria renascentista sobre mundos possíveis, por exemplo na obra de Giordano Bruno, terminou na violência real em um Novo Mundo real.
Em Convivium, a discussão desse longo desenvolvimento histórico marcará a passagem do tratamento de tópicos da história cultural europeia (o ponto culminante dela, para efeitos da interpretação que proponho, foi a Ciência Nova, de Vico, que voltarei a comentar nessa mesma aula) ao tratamento de tópicos da história cultural latino-americana e brasileira, em particular.
Inscreva-se. E até sábado!
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