Meses atrás, a Editora João e Maria lançou o seu selo juvenil, Vésper, com o qual colaborei na condição dúbia de editor, revisor ou mero palpiteiro.

Histórias de Alexandre, de Graciliano Ramos, traz um pequeno aparato de notas e um glossário preparados por mim.
Contos orientais me serviu de oportunidade para recuperar uma parte bem pequena, mas significativa, da ficção de Humberto de Campos, que ainda aguarda adequada revisão que a salve dos seus muitos maus momentos. Pouca gente dominou como ele, entre nós, a arte de fazer ficção no exato e delicado meio-termo entre o apodo e a parábola bíblica.
Mas o título que mais me alegra, ao vê-lo impresso, é O menino que desenhava gatos e outros contos fantásticos japoneses, de Lafcadio Hearn. Selecionei os textos e o poeta Igor Barbosa os traduziu.

Aqui está a apresentação leve e curta – como convém a uma coleção juvenil – que escrevi para esse volume:
Um Japão meio conto de fadas, meio real, meio sobrenatural
Não é raro que a literatura produza grandes resultados quando realizada na fronteira de dois mundos, de duas culturas e de dois conjuntos de expectativas. Dois ou mais conjuntos, na verdade, pois dos contos do presente livro o leitor pode esperar tanto realismo quanto fantasia, tanto pesquisa da vida natural quanto da vida sobrenatural, tanto da vida ocidental quanto da vida oriental.Entre a Irlanda cuja língua adotou e o Japão a que escolheu ligar-se pelo resto de sua vida, o ficcionista Lafcadio Hearn (1850-1904) realiza, pois, uma literatura de pesquisa e de fronteiras, já que fronteiriça em seus gêneros. Nela se mesclam as técnicas narrativas da literatura europeia moderna com o assunto tradicional de um país do Extremo Oriente.
O resultado é um estilo inconfundível de narração ao mesmo tempo ingênua na matéria e complexa em sua apresentação, ainda quando parece simples. E o efeito mais imediato disso, que o leitor jovem logo sentirá, é uma bem-vinda estranheza, a qual se reflete, aliás, numas poucas notas de rodapé explicativas que, escritas pelo próprio autor, mais fazem ressaltar que aliviar aquela estranheza.
Lafcadio Hearn registra costumes e lendas de que o próprio povo japonês já se ia esquecendo entre o fim do século XIX e o início do século XX. Anota narrativas tradicionais como um antropólogo, como um folclorista, o que se pode ver pelo conto “Na hora do touro”. Permite-se um lirismo que sugere suavidade e nostalgia, do que são exemplos os contos “Sonho de um caçador” e “O espelho de Matsuyama”. Incorre no mítico e atemporal, em legítimos contos de fadas, a exemplo do que se lê em “A serpente com oito cabeças”. E não deixa de arriscar-se ao ligeiramente misterioso e, por que não, horroroso, como no conto que dá nome ao livro e na narrativa que o encerra, “Numa xícara de chá”.
Muito admirado no Brasil por ninguém menos que o sociólogo Gilberto Freyre, além de muito admirado por ninguém menos que o nosso vizinho Jorge Luis Borges, escritor argentino que é possivelmente o maior da América Latina, Lafcadio Hearn ainda é pouco conhecido em nosso meio, mal que a presente seleção de contos, tomados a três livros do autor, ajuda a remediar.
Esse escritor, preciosidade em geral reservada a poucos, é trazido ao público da Editora João & Maria como parte de seu esforço de formar leitores com alto grau de consciência literária e fino discernimento moral. Que pais e filhos saibam aproveitar, isto é, saibam divertir-se com a sabedoria e a beleza destes contos japoneses.
Boa leitura!
E percebam também o seguinte.
Se as antenas do mercado de livros e eventos livreiros estivessem apontadas para o lugar certo, teriam já se apercebido desse novo e imediato clássico personagem da literatura para a moçada, que vem a somar-se a um Cazuza, de Viriato Correa, ou a uma Emília, de Lobato, e com um ingrediente aventureiro de que em geral nossa literatura é carente.
Estou falando do João Ramalho, de Fábio Gonçalves, verdadeiro folhetim com estruturação de capítulos à maneira didática dos primeiros romances europeus, com assunto histórico a servir de ensejo para o protagonista aventureiro e com variedade de vozes e registros – de recortes de jornais a trechos de diários – que certamente agradarão a novos & velhos leitores. Imaginem que um Henry Rider Haggard de fôlego mais contido, movido a escrever não mais que algumas dezenas de páginas, tivesse se interessado pela história dos bandeirantes e demais desbravadores do Brasil, e terão assim uma ideia do que esperar de João Ramalho e seus capítulos de títulos longos e sugestivos, como este: “Dos motivos que levaram nosso fidalgo a conceber uma ideia estupenda – ou estúpida?”.

Dois volumes foram publicados até o momento: João Ramalho – A linhagem do herói e João Ramalho – Crônicas do Atlântico.
Então, ô, fica esperto!
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