Como um conto de Machado de Assis ajuda a repensar nosso lugar no mundo. A reflexão completa está na primeira aula do novo módulo de Convivium, a qual irá ao ar hoje à noite.
O chamado humanismo renascentista, que para mim é apenas um momento de um arco mais amplo de iniciativas a que chamo “projeto humanista”, é um fenômeno que coincide historicamente com o nascimento do colonialismo europeu moderno. A carreira do humanista Fausto, na segunda parte do grande poema de Goethe, desemboca na carreira do Fausto empreendedor colonial. O erudito que educou-se, isto é, cultivou-se, torna-se alguém que agora busca cultivar novas terras para que nações inteiras, povos inteiros sejam livres, pelo menos segundo a visão faustiana da liberdade.
A cultura brasileira, na verdade as culturas latino-americanas em geral, nascem desse novo cultivo. Ora, será que não poderíamos compreender as nossas próprias possibilidades de autocultivo pessoal, de autoeducação, a partir desse cultivo agrário e a correspondente realidade escravagista e subalterna a que fomos submetidos? Acredito que sim e acredito que o conto “A igreja do diabo”, de Machado de Assis, muito nos auxilia nisso.

Nesse conto reunido no livro Histórias sem data (1884), há duas menções ao Fausto. Na primeira delas, diz o diabo a Deus:
Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o diabo rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.
Mais adiante, dirá ainda:
Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.
Ao se referir aos “Faustos” naquele contexto, o diabo os identifica às almas perdidas, o que é coisa curiosa: no poema de Goethe, fonte mais imediata de referência para Machado, o perdido Fausto na verdade ao fim se salva por uma especial intervenção da graça divina. O Fausto goetheano é alguém que “aspira a algo de maior” e que isso afinal alcança.
Bom, o argumento do conto tem de sofisticado o que tem de simples. Nele se cria um artifício borgiano pelo qual se afirma existir um manuscrito beneditino segundo o qual o diabo teria fundado a sua própria igreja. O pai da mentira teria um dia se cansado de desorganização. As pessoas só iam ter no inferno em razão do caos da vida, da desordem da alma, quase que por uma sucessão infeliz de acasos morais. Se a Igreja de Cristo aí está para dizer que você deve fazer isto e mais isso e também aquilo para então gozar da vida eterna, por que não adota a igreja do diabo o mesmo procedimento racional de dizer que você deve fazer isto e mais isso e também aquilo para então alcançar a condenação eterna? A mera negação do Credo é confusa, ineficiente.
Vem então o diabo à terra como um pregador que difunde sua religião. Sua instituição prospera, o mal se apossa de multidões. Com o tempo, contudo, são assinalados alguns comportamentos estranhos. Um indivíduo, que antes era um perfeito rufião, começa a assumir condutas de caridade e benemerência às escondidas. Um rematado ladrão, descobre-se, deu a um necessitado aquilo que havia roubado. Num mundo de pecado generalizado, os fiéis começam a incorrer na virtude como um desvio da conduta comum.
Invertia-se assim, contra o próprio diabo, o seu plano inicial. Ele dissera ao Senhor:
Só agora concluí uma observação, começada desde há alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazê-las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura…
Retrucou-lhe Deus: “Velho retórico”.
O material um pouco mais vagabundo na ponta de toda virtude (suas “franjas de algodão”) seria o alvo da ação diabólica, o meio de puxar o homem virtuoso para a igreja dos danados. O diabo exemplifica: o homem que carrega o andor, a cumprir um profundo ato devocional, tem lá no fundo de sua alma o orgulho de desempenhar aquela tarefa frente às demais pessoas, mostrando-se assim publicamente piedoso. Outro é alguém que dá esmola, que cumpre o preceito da caridade, mas que o faz também por um instinto de superioridade, de colocar-se acima do irmão. É nessa franja de algodão que o diabo irá agir. E, no caso do vestido dos vícios trajado pelos fiéis da igreja do diabo, é pelas suas franjas de algodão que irão se imiscuir as virtudes.
O diabo age nos arremates da alfaiataria de Deus; e Deus age nos arremates da alfaiataria do diabo. Este, inconsolado, queixa-se ao Criador, o qual lhe responde com estas palavras que encerram o conto:
Que queres tu, meu pobre diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.
Essa “contradição humana” penso que possa ser aproveitada como uma observação saudável acerca de uma contradição histórica mais ampla. Alguns textos reunidos por Marcus Vinicius Mazzari em Fausto e a América Latina tratam do problema da colonização, do Fausto colonizador. Nenhum deles chega, todavia, a tratar longamente da convergência de humanismo e colonialismo, do fato de que até mesmo os instrumentos de navegação que trouxeram portugueses e espanhóis às Américas só poderiam ter sido criados, como de fato o foram, por humanistas tanto afeitos às letras como à invenção e ainda à magia. Cartas de navegação, cálculos de rota precisos, observações dos astros em relação com o comportamento das marés: tudo isso é típico da cultura humanista renascentista e especialmente veneziana.
Essa contradição (preservemos o uso do termo) entre contemplação e ação, entre cultivo pessoal e cultivo de terras distantes, é a mesma que o Fausto simbolizaria à perfeição. A cultura latino-americana e brasileira nasce após o término da carreira do Fausto empreendedor colonial. Ele está à beira da morte e cego: o mundo que construiu é um mundo que ele já não será capaz de enxergar. Com a morte da civilização antiga (cujos últimos resquícios no Ato 5 do Fausto II estão na cabana de Filêmon e Báucis, que logo são sacrificados), nasce o Novo Mundo.
Nosso ingresso na cultura ocidental se deu pela igreja do diabo e pela franja de algodão. Mas começamos a puxar o tecido por onde menos se esperava…
Os nativos receberam chumbo e baioneta; foram, como os operários no poema de Goethe, enganados por Mefistófeles e colocados a trabalhar numa obra que não compreendiam nem poderiam jamais compreender. O escravagismo veio em seguida como o mais abominável toque daquela parte menos nobre do tecido humanista. É certo que a escravidão é um fenômeno universal. Mas também é certo que a escravidão moderna no mundo cristão se tornou uma mancha especialmente difícil de remover em virtude de sua filiação direta com o projeto humanista, a despeito de já se viver no século XIX uma era de elogio desbragado da liberdade do homem para investigar a natureza e autodeterminar-se.
A civilização brasileira e latino-americana, do ponto de vista de uma possível leitura fáustica, começa portanto com o fim da civilização ocidental. Se meditarmos um pouquinho a respeito, talvez comecemos a nos surpreender tanto com manifestações no sentido de sermos parte do Ocidente como também com manifestações em sentido contrário. Não se trata de abraçá-lo ou rechaçá-lo: para nós, o Ocidente é desde o princípio de nossa existência algo tão distante – mas também tão importante – quanto as epopeias mesopotâmicas, a mitologia grega e o neoplatonismo. São potências de nosso espírito, mas de forma alguma definem nosso quadro cultural. Somos essa contradição perante a seda da alfaiataria europeia.
Essa primeira constatação nos leva a uma segunda. A interpretação fáustica da América Latina permite ver que aquilo que nos é mais adverso, o que para nós é mais estigma, é na verdade oportunidade de construção de uma cultura autêntica. Listemos os males usualmente apontados:
O “sensualismo” do brasileiro, tão afeito ao imediato, ao plástico, ao que se impõe aos seus olhos pela exuberância superficial, e não pela profundidade;
O “jeitinho brasileiro”, a propensão a tudo ver à margem da normatividade e a buscar soluções que envolvam a máxima pessoalidade, e não alguma objetividade impessoal que se normatiza como a mais justa;
O “patrimonialismo” que, como extensão do mencionado pessoalismo, borra as fronteiras do público e do privado e possibilita formas de governo que poderíamos chamar, em lembrança de Max Weber, de carismáticas;
O “populismo” e o “autoritarismo” que definiriam nossa rotina política, dos “grotões” até o Palácio do Planalto, e que seriam o reflexo mais visível de um “patriarcalismo” renitente e exacerbado que, segundo algumas interpretações freudianas baratas, indicariam um complexo de orfandade em nossa nação.
Não digo que todos esses elementos sejam benéficos; o que digo é que são particulares, genuínos mesmo no que têm de pior, e que são o negativo fotográfico da modernidade europeia. Na superfície mais imediata do “jeitinho brasileiro”, por exemplo, nota-se o esforço de não ver o próximo como um “cidadão”; é um esforço de ver a pessoa enquanto pessoa, enquanto alguém que manda muito ou manda pouco, e que assim poderá ser de maior ou menor ajuda na fuga de determinadas regras ou no estabelecimentos de novas regras, mas de todo modo é um esforço de não dissolver o indivíduo em generalidade cidadã. No bordão-carteirada “Você sabe com quem está falando?”, há um elemento de anarquismo que talvez possa ser cultivado e até invertido contra o próprio usuário da frase.
Tudo em nossa cultura, tudo em nossas rotinas ideológicas se opõe à audácia de experimentar novas interpretações de conhecidos males. Vivemos presos ao veludo supostamente divino da cultura europeia e norte-americana e, ao compararmos nossa franja de algodão a ela, nos rendemos a uma fácil autoacusação e a dilemas insolúveis. “Ou desenvolvimento ou justiça social” – nessas alternativas, para dar um único exemplo, se poderia resumir grande parte do debate da esquerda brasileira de 100 anos para cá, e é isso mesmo que, à sua maneira, Alfredo Bosi afirma num ensaio sobre o Fausto.
O dilema “progresso e/ou destruição” – fórmula mais abrangente que “desenvolvimento ou justiça social” – não é exclusiva da visão de mundo capitalista. Marshall Berman bem percebe o que havia de fáustico em uma série de empreendimentos prometeicos do mundo comunista: a construção de canais e de complexos arquitetônicos absolutamente irracionais, absurdos e impossíveis, apenas para manter a máquina estatal funcionando e ordenando, supostamente, a vida social.
O brasileiro é muito pouco dado ao controle. Para conseguir instaurar um Estado perfeitamente totalitário no Brasil, o grupo revolucionário teria de contar com intervenção estrangeira de algumas nações populosas e muito ricas que propiciassem pessoal para vigiar praticamente cada brasileiro 24h por dia. Os brasileiros, se deixados aos próprios brasileiros e à sua crônica e louvável falta de profissionalismo, já no ano seguinte transformariam o Líder em personagem de novela das oito e colocariam uma sósia seminua da primeira dama para desfilar em escola de samba. O Líder assistiria ao desfile num smartphone enquanto visitasse na prisão o Antilíder, o qual, achando tudo muito engraçado, lhe serviria um pouquinho da pinga que sua família lhe mandara do interior do Pernambuco e à qual os guardas fizeram vista grossa em troca de um agrado.
O dilema de todo totalitarismo está em conseguir espionar o espião. Uma hora, não haverá quem espione o espião do espião do espião etc., e esse fato se faria notar muito rapidamente no Brasil. Nossa cultura teria de sofrer uma reestruturação radical, à maneira dos ideais europeus modernos, para se tornar tão apta quanto o primeiro mundo a ter o seu próprio nazismo ou sua própria Stasi. Contra Fausto, nascemos desistindo da ideia de controle.
Quem sabe nossa capa de algodão não tenha uma franja de seda?
Começo hoje a discutir em maior profundidade esse tema na primeira aula de “A Alegoria do Mundo: o Mago, o Filólogo e o Colonizador”, terceiro módulo de Convivivum – Seminário Permanente de Humanidades. Informe-se através deste e-book gratuito e inscreva-se aproveitando um valor promocional.
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Relembrando: hoje à noite, por volta das 20h, irá ao ar a primeira aula pré-gravada; no dia 2 de maio, teremos nossa primeira aula ao vivo.
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