A Páscoa e o mito

O mito cristão cumpre o que promete: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5).

São muitos os mitos de deuses que se fazem homens. São muitos os mitos de deuses que renascem. Logo, deduzem alguns, o mito cristão é apenas mais um entre outros.

Concedo, em parte, caso se admita que o mito cristão tem uma qualidade distintiva: ele é verdadeiro.

Entre as muitas provas de sua verdade, há uma especialmente sutil. O mito cristão da Queda com Adão e da Ressurreição com Cristo, diferentemente de todos os demais mitos de deuses redimidos, não nos leva de volta a uma situação prévia de normalidade e segurança.

“Ressurreição” (1463), de Piero della Francesca: os soldados dormem o sono dos mitos, enquanto Cristo ressuscita. Um mito para acabar com todos os mitos.

Quando Cristo faz a sua Páscoa e aparece, de corpo presente, aos apóstolos, o império romano não volta a ser o que era, Cristo não continua sua missão pela Galileia como se nada tivesse acontecido, os discípulos não tornam aos seus zelos comuns.

A Páscoa rompe com qualquer vivência de tempo circular, típica da mentalidade mítica, e transforma o tempo em algo a ser superado. Antes o tempo aprisionava. Agora, leva-nos para longe dele mesmo, para longe de nós mesmos.

Cristo triunfa sobre a morte para que sejamos capazes de triunfar sobre o tempo. O panteão dos deuses antigos é esvaziado porque essas deidades necessitavam de um círculo de tempo que os fizesse sazonalmente reencenar uns mesmos papéis. Cristo arrasa esse antigo palco e instaura o realismo em matéria de vivência histórica. O mito cristão cumpre o que promete: Eis que faço novas todas as coisas (Ap 21,5). E em seguida se despede deste mundo e vai para o reino do Pai, tornando-nos impossível crer novamente em qualquer mito.

O mito cristão era na verdade uma profecia, e a profecia se cumpriu.

Feliz Páscoa.


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